segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Corpo

pés pernas coxas joelhos
artelhos
que se dobram e tremem e balançam
naqueles momentos bons

de ébano, âmbar ou mármore
de árvore
que ramifica os troncos e galhos e folhinhas
como os fios dos teus cabelos

e tuas mãos que me envolvem como a raiz abraça a terra
cerra os olhos e a boca
num arrepio que percorre vértebra por vértebra
e faz chover

vísceras entomologistas
unhas de haraquiri
sangue que escorre quente
numa pintura de Dalí
o peito que abre e fecha
a cada golfada de ar
um coração inclemente
na tentativa de bombear
dentes impressos na pele
um cérebro cego e pasmo
toda veia é afluente
deságua no mar do... ah!

domingo, 29 de maio de 2016

Flying saucers in the sky

Quando eu calço minhas botas velhas e coloco aquele casaco de couro de que você gostava e saio andando sem rumo pelo cinza da cidade, ouvindo uma música nova cuja letra acabei de decorar e sentindo o vento gelado atravessar cada célula do meu corpo, eu penso em nós dois em Londres. De fato, sigo cantando com meu sotaque britânico fajuto, sem me importar com outros pedestres que lançam olhares de julgamento, talvez pelo fato de eu não saber cantar ou apenas pela estranheza de se cantar no meio de uma calçada qualquer. Duas vidas baseadas em inverossímeis planos de mudança para o Reino Unido, fotos na faixa da Abbey Road, cervejas em minúsculos pubs irlandeses, kilts e uma volta no London Eye. Morando num modesto apartamento alugado por duzentas libras ao mês, com janelas cuja vista seria apenas mais e mais escadas de incêndio, mas que pela manhã permitiriam o cheiro do bacon e dos ovos, enquanto nós desejaríamos quase mortalmente encontrar um punhado de feijão carioquinha em algum mercado ou feira.

Mas nessa época tudo era brilhante e colorido aos nossos olhos. Seis meses de Cultura Inglesa, uns bicos aqui e ali pra juntar algum dinheiro, você fotografando o submundo alternativo das noites curitibanas e eu enviando contos para a Gazeta, o Paraná e mil revistas, imaginando publicações ininterruptas, resenhas favoráveis e pagamento semanal. Pronto. A partir de então era só ir. Só que às seis da manhã de domingo você batia lá em casa e dizia que, mais uma vez, trabalhou apenas por entrada e bebida liberadas. Eu, em contrapartida, piorava a situação ao mostrar mais um email dizendo polidamente que outro texto foi recusado, mas que, segundo as palavras do editor, havia muito potencial em minhas palavras e eu deveria tentar mais vezes.

Aquela fase em que já não se é mais adolescente, porém falta a segurança da idade adulta. Quando o fígado e as articulações ainda aguentam o tranco, mas faltam meios para providenciar o tranco a ser aguentado. Quando a gente descobre que viver sonhando é coisa para crianças e privilegiados, e tem que ouvir de toda a família que o seu irmão já fez uma poupança, sua prima está se dando bem em algum empreendimento, e que, por outro lado, eu só sei sentar com esse computador e tentar tirar dinheiro de umas historinhas sem-graça. Quando finalmente aceitamos essa verdade, é como se o próprio Big Ben implodisse e se esfarelasse e esparramasse seu pó sobre o chão, misturando-se com a neblina.

Talvez tenha sido nesse ponto que alguma coisa te disse que eu não tinha futuro. Nossas transas eram ok, nossas conversas eram ok, nossos amigos em comum eram ok. Nada era grandioso ou extraordinário, nada nos inflamava o peito e a mente, tudo era simplesmente ok. A não ser quando falávamos dos dias que viveríamos do outro lado do Atlântico. Só que os seis meses do cronograma passaram, eu não fiz o curso de inglês e estávamos como aos dezessete anos, só que você com vinte e um eu com vinte e três. Quando até nossos planos de viagem morreram, decidimos sem falar que era o fim.

O que sei é que nunca mais fomos parte da mesma vida. Cheguei a pensar em ir aos bares que você fotografava, quem sabe te escrever um poema, mas decidi que tudo isso não faria diferença. Comecei a trabalhar num escritório, secretário do assistente do assistente do assistente. É onde estou. Não faço questão de saber seu paradeiro ou sua companhia, contanto que você não esteja tomando chá com limão às margens do Tâmisa. De todo o mapa-múndi, peço apenas que deixe esse pedaço para nós dois. Ou, que seja, uma lembrança do que já fomos. Quando cabines telefônicas e ônibus vermelhos eram sinônimos de felicidade e não me faziam chorar.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Sobre pavimentação urbana


é muito fácil tropeçar
nas pedras irregulares do calçamento desta cidade
você se arrisca, meio ausente de tudo
(da vida ao seu redor)
com seus fones fosforescentes na última altura
acendendo cigarros despreocupados
cantarolando as palavras de músicas quaisquer enquanto caminha
[sem prestar atenção
mas, uma vez que te veja,
quem tropeça sou eu
nos paralelepípedos pontudos
do trajeto até nós dois

domingo, 22 de maio de 2016

Seguidora

Uma música nova. Vou ouvir. Nossa, que legal. Sério, curti muito essa música. Essa música é linda. Vou ouvir todas as dessa cantora. Meu Deus, me apaixonei. Que voz, que rosto, que corpo. Estou in love com esse álbum. Olha essas fotos. Virei fã. Sou fã desde sempre. Sou fã de carteirinha. Sou fã número um. Deixa eu ver quais serão os próximos shows. Ela vem para minha cidade. Com certeza vou vê-la. Que dia mais especial. Que vibração da plateia. Que carisma que ela tem. Vai sair o segundo disco. Já comprei na pré-venda. Virei a noite no site para conseguir. Edição limitada. Edição deluxe. Edição com faixa bônus. Comprei todas. Como eu a amo. Ela está fazendo outra turnê. Preciso ir. Se precisar, deixarei de comer. É bom que já emagreço. Yes, consegui a área VIP. O mais próximo possível. Pena que tem a grade. Jesus, como ela canta. Como ela mexe com as pessoas. Mais um show inesquecível. Mais uma revista com ela na capa. Vai fazer companhia às outras cento e vinte três que eu tenho. Meu quarto é um santuário. Já faz tempo que ela não lança nada. Em nenhuma rede social ela se manifesta sobre novos trabalhos. Deve ser por causa da maternidade. Que gêmeos mais lindos ela teve. Hoje ela está passeando com eles no calçadão. Deu no site de fofocas. Preciso ir vê-la. Mais um autógrafo para a conta. E umas tantas fotos. Não acredito que ela voltou para o ex-namorado. Ele só a faz sofrer. Não acredito mesmo. Ela voltou. Com um single fenomenal. Ninguém consegue ganhar dela. É a melhor. Preciso ser amiga dela. Preciso muito ser amiga dela. Olha que vida que ela tem. As postagens dela nas redes sociais não mentem. Eu vou ser amiga dela. Com certeza. Não importa o que eu precise fazer. Se eu tiver que limpar a casa dela, estou aceitando. Marquei a arroba dela numa foto. Ela não me respondeu. Mas logo em seguida postou um teaser da nova canção. Eu tenho certeza de que ela viu a notificação. Quero saber por que ela me ignorou. Estou a marcando todo dia. Tentando me fazer notar. Mas ela é tão poderosa, ela nunca vai me notar. Mas eu preciso continuar tentando. Até o dia em que ela me notar e me chamar para jantar e nós começarmos uma amizade tão bonita e eu brincar com os gêmeos dela. Ela vai me notar. Não sei quando, mas ela vai. Eu vou ser amiga dela. Dez meses. Três anos. A beleza e o talento só parecem aumentar. Ela é magnífica. Eu realmente não devo significar nada para ela. Mas ela é perfeita, ela não menosprezaria um fã desse jeito. Preciso continuar tentando. Consegui o telefone privado dela. Um conhecido tem um conhecido que tem um parente que trabalha numa assessoria. Contatos são tudo nessa vida. Vou ligar para ela. Depois que eu postar essa foto do último show. Acho que dessa vez ela vem falar comigo no direct. Vinte e quatro horas. Vou ligar. Liguei. Ela não sabia quem eu era. Ela ficou revoltada por eu ter conseguido o número particular. Ela disse que vai trocar de celular. Eu estou triste. É impossível que ela não saiba quem eu sou. Mas ela vai saber. Porque eu vou ser amiga dela. Sei onde ela estará semana que vem. Vou encontrá-la. Uma coletiva de imprensa misteriosa. Acho que vem lançamento por aí. Tenho certeza de que vai ser o melhor desse ano. Quem sabe da década. Ela merece todos os discos de platina que recebeu. Ela é linda. Ela é perfeita. Ela vai ser minha amiga. Se ela não quiser, pelo menos ela vai saber quem eu sou. Cheguei no hotel. Salão de conferências. Ela está tão bonita. Ela mostra uma foto. É a nova capa. Também linda. Não podia ser diferente. Ela está respondendo várias perguntas. Eu levanto. É agora ou nunca. Esse é o início. Uma amizade para sempre. Consigo ver as taças de champanhe e os banhos de piscina. As festas. As tardes com os gêmeos. Os ciclos menstruais sincronizados. As noites de brigadeiro e séries para curar as TPM’s. Grito o nome dela. Grito o meu nome. Ela não me reconhece. Eu falo que a marco na internet desde o primeiro dia. Ela dá um sorrisinho e volta a responder perguntas. Ela não me reconhece. Ela não sabe quem eu sou. Eu só queria ser amiga dela. Mas eu vou ser. Tiro o revólver da calça. Contatos são tudo nessa vida. Engatilho e aponto para ela. A arma não parece tão pesada agora. Disparo. Quatro. Cinco. O sangue que sai de dentro dela é tão vermelho e brilhante que chega a doer de tão bonito. Ela é perfeita até por dentro. Tem uma bala que sobrou no tambor. Estou indo. Estou indo encontrá-la. Ninguém a admira mais que eu. Eu sei disso. E ela também saberá. Escuro.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Astrologia

Começou o ano, sol no meu signo. Capricórnio. Se bem que todo mundo me fala que sou muito mais meu ascendente. Tenho a lua em Peixes. Na verdade, durante toda a minha vida nunca soube se acredito ou não nessa parada de horóscopo. Mas se até Santo Cristo acreditava, Macunaíma musical, quem sou eu para duvidar. De qualquer forma, faz calor. Suor escorrendo pelas costas e os pés queimando em cima da terra vermelha. Traz o ventilador e põe na velocidade máxima! Deus abençoe essa terra tropical. Largado nu na cama, fumo um cigarro.
O cigarro depois da punheta. A gente ouve tanto sobre o cigarro pós-sexo, pós-transa, pós-foda... mas ninguém nunca falou daquelas tragadas após o orgasmo handmade, ainda com um respingo de porra na ponta do dedo. Como se a masturbação fosse, digamos, uma arte inferior, pintura a dedo frente à Monalisa da penetração. Daí eu penso: qual é o fim único, o objetivo exclusivo de se bater uma? A punheta está aí apenas para dar prazer. O sexo também dá, mas essa é apenas uma das razões pelas quais mais e mais gente fode. Pergunte para aquele garotão de vinte e poucos anos que faz a alegria de umas madames do Country Club em troca de badulaques high-tech e retratos do Benjamin Franklin. Para a dona de casa que aguenta o marido obeso, suado e bêbado chegando de qualquer lugar e lhe metendo sem uma palavra. Términos, reconciliações, “você não consegue dormir? Eu também não”, o orgulho em não deixar vencer a camisinha...
Tudo bem, admito que isso é bem capricorniano. Racionalizar sobre quem ganharia uma disputa. Sexo e punheta no ringue. E o sexo ganha por nocaute. Só para deixar bem claro, curto transar. Curto bastante. Muito mesmo. Ou, pelo menos, costumava curtir. É só que me veio na cabeça o ostracismo da bronha. Aquela gozada ligeira na privada no meio do expediente, ou aquela mais calculada, longa, apreciada durante o banho no fim de um dia de trabalho. Aquele jato glorioso e solitário, irônico, após broxar mais uma vez no leito conjugal. A vontade de fumar é a mesma. E o chill da nicotina também, independente de qual o jeito de atingir o êxtase. Adoro essa palavra, êxtase. No fim, punhetar é mais um na enorme lista dos prazeres ocultos que todos temos, aquela bomba de chocolate com morango à qual o diabético tenta, sem sucesso, resistir.
Resistência. O ventilador que não refresca, o cigarro que já está acabando, o resto de sêmen que gruda nos pelinhos, essa época de promessas e metas e objetivos e resoluções. Vai passar de que cor? Não esquece as uvas e a lentilha! Deus me livre comer frango, tudo que cisca para trás dá azar no réveillon. Isso é superstição, é crendice. Mas já fiz todas. Simpatia. Olha que nome mais simpático. Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay. É sempre assim. Os astros dizem que esse ano vai ser diferente. Talvez seja mesmo, consegui uma ereção. Lázaro, levanta-te e anda. Sessenta e três anos não é fácil. When I’m sixty-four... dizia o Paul, mas a decadência começa antes. Eu realmente acho que eu nasci no mês errado, se é que isso funciona. Indeciso e sugestionável do jeito que sou. Eu devia ser de Libra.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Reencontro

Refestelada e eructante, saca da caixa um palito. Observando se ambas as pontas estão afiadas, esfrega a língua por todas as superfícies bucais alcançáveis, sentindo as últimas notas de sabor da refeição que acaba de ter. Leva a mão direita armada à boca, enquanto a esquerda faz de conta que é biombo, numa tentativa de esconder os mistérios de uma cavidade oral escura e secreta. Como os demais convivas displicentemente largados em suas cadeiras no estupor pós-prandial, inicia o processo de escavação dentária.

Enquanto ouve risadas misturando-se com o tilintar dos talheres sendo recolhidos e os borborigmos dos abdomes recém-satisfeitos, fecha os olhos e introduz a ponta daquele pedaço de madeira no espaço entre os incisivos inferiores. Fenda por fenda, dente por dente, vai esfregando os resíduos alimentares de forma lenta e delicada, repetida, movimentos de alavanca e vaivém que a fazem fechar os olhos e seguir com a função, trinta e dois beijos entre pinus verde e esmalte perolado.

Tem cinquenta anos e palita os dentes numa tarde de domingo. Cada gosto derradeiro que experimenta antes de engolir os pequenos restos antes aderidos fá-la lembrar a feitura dos pratos há pouco consumidos. De olhos ainda cerrados, cerra um pouco mais os dedos ao recordar o trabalho árduo e solitário de preparar o almoço de família. Sozinha na cozinha, sozinha nos outros cômodos da casa grande, de pé-direito alto, com jardinete francês e piscina, sozinha em si mesma. Pensa no marido sem vê-lo, sentado à sua frente, a redonda barriga a avolumar-se por sobre a calça, sempre reclamando da falta de variedade do cardápio. Ri consigo mesma ao pensar na enorme ironia. Ele, o mais monótono dos seres em suas opções de menu, vomitando comentários sobre ausência de diversidade culinária. Sente saudades do tempero antigo. Quando foi a última vez que sentiu verdadeiramente o gosto da pimenta?

No meio de dois molares tem um pedaço de carne. Preso. Difícil. Dirige a ponta do instrumento para o local, cavoucando, na ânsia sôfrega de retirar aquele naco proteico ainda não digerido – presença minúscula, mas que grita para ser notada. Enquanto tenta alcançar o objetivo, vislumbra o palito entrando no recesso escuro e dele saindo, mais uma vez, e outra, e novamente, e acelera o movimento da mão direita. Aperta as pálpebras com mais força, sentindo a extremidade aguçada machucar-lhe a gengiva, sangrando e doendo como uma segunda primeira vez. Esquecendo-se de onde está, começa a ofegar, remexendo os quadris na cadeira estofada e sussurrando ais, até sentir o retorno de um amigo há muito distante. O prazer que sente ao enfim soltar aquela partícula incrustada, que salta com a pressão do jorro quente que acompanha o êxtase dos homens.

domingo, 28 de junho de 2015

3 a.m.

Tinha um tango tocando no rádio
Enquanto eu divagava remoendo pensamentos imbatíveis
“tienes veinticinco años”
Ou algo assim
Não sei o que faço
Embora eu não tenha vinte e cinco
E tudo parece tão aleatório
Odeio madrugadas insones

terça-feira, 12 de maio de 2015

12 de maio de 2015

Você,

Ainda estou preso em superstições bobas como desvirar o tênis caído de boca pra baixo no chão. Ou comportamentos repetidos; fechar todas as portas do armário antes de dormir, checar mais de três vezes se o alarme do celular realmente foi ajustado para as seis e meia da manhã. Você chamaria isso de transtorno obsessivo-compulsivo. Eu prefiro dizer que são caprichos dominadores. Talvez apenas por ser uma forma mais poética de dizer a mesma coisa, você sempre apontava que eu tenho um fraco pela poesia cotidiana, ainda que barata, buscar palavras mais bonitas para disfarçar feiuras, perigos e distúrbios. De fato, este sou eu.

Escutando a chuva sapateando no telhado, penso que nenhuma onomatopeia que eu escreva sairá como o seu som das gotas caindo, seus lábios fazendo aquele barulho gostoso que me dava tanto ou mais conforto que a chuva em si. Confirmo mais uma vez que todas as tomadas estão desconectadas, já é a quarta. O medo de curto-circuitos nessa tarde de temporal é a desculpa com que cubro minha fixação. Uma delas, aliás.

Você, por outro lado, sempre foi tudo menos fixada. Já que já admiti o meu pendor pelo lirismo de supermercado, permita-me usar o clichê do espírito livre. O que, mesmo clichê, é verdade. Realmente, acho que clichês são o que são justamente por esse motivo. Você era do tipo desapegada. De religiões, de comportamentos, de ideias e, especialmente, de pessoas. Achava graça nos meus costumes meio-fé-meio-mandinga, porém ficava séria quando eu novamente contava os azulejos do banheiro. Só que, ainda que a preocupação fosse genuína, seu jeito de ser sem amarras, sem fincar raízes com força no chão como eu, esse seu jeito não te permitiu continuar aqui.

De modo que não fiquei surpreso quando, na última e maior briga, você me disse que iria embora. Aliás, não sei se "briga" é a palavra certa, tendo em vista que o que ocorreu aquele dia foi menos uma discussão que um monólogo seu. Se eu quis que você ficasse? Eu quis. Mas como competir com minhas próprias falhas evidentemente patológicas escancaradas em forma de lista? Fiquei, ao mesmo tempo que triste por você ter partido, aliviado por não mais atrapalhar sua vida de grão de pólen. Desejei sinceramente - ainda desejo - que os melhores ventos te levassem para outra flor, outra casa em que você pudesse finalmente ser em plenitude.

Pelo que fiquei aqui, lavando as mãos até a pele começar a rachar e aspirando apenas o ar, depois que tudo já estava cirurgicamente asséptico. Talvez eu devesse procurar ajuda. É o que você me recomendava de forma constante. Mas acredito que não vá encontrar substituto mais irônico do que essas minhas manias arraigadas (deixe-me chamar tais hábitos de manias, há um quê de excêntrico nisso), firmemente presas a mim, quando você era a mais solta dos seres. E você sabe que eu adoro ironias.

Eu

quinta-feira, 7 de maio de 2015

História de um início de romance

Poemeto de supermercado.

Na seção
Concessão
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Uma sessão
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Intersecção.




Lembro-me bem deste poema, que escrevi em 2010
depois de uma passada no supermercado.
Após presenciar um encontro e um sorriso, imaginei
o que poderia vir depois
e o utilizei num exercício de concisão e brincadeira sonora.
Na falta de algo novo, posto algo bem velho nesse dia
que, para mim, é especial.
Hoje este blog faz cinco anos.
Seguimos capengando, mas ainda estamos aqui.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Concordância Nominal

Quando você vai sarar
Dessa mania de tudo ter par?
Dois não é tudo, menina
O solitário também te ensina

Isso não ia dar certo
Mesmo conosco e nosso peito aberto
Ia fechar uma hora
Bem melhor que aconteça sem demora

Duplo é belo num viés
Ainda que isso sirva pra mãos e pés
Não pra você e pra mim
Por qualquer razão mais forte
Nós nunca tivemos sorte
Geladeira sem pinguim

Pensa depois, no final
Na comida feita com pouco sal
Na cor do sofá da sala
Em você chorando e arrumando a mala

Mas fica assim triste não
É que eu livro e você televisão
Procura quem te mereça
O teu encaixe no quebra-cabeça

Minha gramática diz
Mesmo sem plural dá pra ser feliz
Nós vamos nos concordando
Agora no singular
Pois não soubemos amar
Ficou tudo em fogo brando