Uma varanda e o tempo frio. De novo, você diria. Mas é que eu sou um ser redundante. Repito os dias tragando os mesmos cigarros que meu pai tragava em 1985. Não que eu apenas seja dado a nostalgias baratas, mas quase me espanta a progressão rápida e silenciosa que devora tudo o mais pela frente e deixa a gente como que no piloto automático. Um cotidiano fordista, a vida passa e eu operário aperto os parafusos soltos que ela me apresenta na comprida esteira cujo final todos sabem qual é.
Parafuso número 1. Abrir os olhos.
Por isso é que me permito multiplicar em vários, sempre. Vários eus, agindo da mesma maneira um pouco letárgica, com a mesma curvatura da coluna, a mesma xícara na mão e o velho gosto de tabaco. Se você estivesse aqui, se fosse ainda no começo, talvez me chamasse para entrar. Ou me oferecesse um café novo e quente para substituir o que ainda estava comigo. Quem sabe me trouxesse um cobertor velho e me deixasse com uma das minhas manias. Ficou tudo no subjuntivo. E, por mais que a gente saiba conjugá-lo, nenhuma gramática ensina a sobreviver-lhe.
Prafuso número 20. Bater o ponto.
Deve ser por isso que eu fico no pretérito. E calço ainda as botas que os que vieram antes de mim também usaram. Meus ouvidos escutam os acordes da Tropicália e minha boca canta as letras de revolução.
Parafuso número 57. Pagar as contas da casa.
Mas eu sou tão minúsculo quanto os átomos que me compõem. Como é possível algo cheio de vazio, como o átomo de Rutherford, dar forma a toda matéria? Hoje, você diria que talvez eu mesmo seja análogo a essas partículas, repleto de nada e ainda assim mórfico, palpável, sofrível. De modo que não há motivo para fingir.
Parafuso número 104. Comprar um carrinho de bebê.
Então, posso falar de suicídio com a naturalidade de quem discute os resultados da eleição. Quantas paixões! Mas não fabular sobre método ou data, e sim sobre o significado do ato em si. Se algo é feito de espaços vazios, que importa se vive ou morre? Ou é morto?
Parafuso número 583. Fechar os olhos.
Não que eu realmente vá concretizar alguma coisa. Porque, tudo bem, eu sou nada, mas trazido a forma. Sou meu próprio big bang diário. E, no final das contas, é essa explosão que mantém a gente em pé, na jornada incessante, de chave inglesa em riste, na linha de produção.
