O frio volta. Com ele, toda a balbúrdia necessária de sentimentos - eu precisava disso. É realmente estranho o papel de novo à minha frente depois de tanto tempo. Parece que tenho de me apresentar, dizer quem sou, em vez de simplesmente escrever. Fato é que não tenho boas histórias pra contar, nem estórias. Ou coisa que as valha. Como se eu fosse um tipo de irmã chata da Alice, de uma hora para outra preso aos livros sem gravura, sem me permitir uma xícara de chá sequer, uma única partida de críquete. O que eu queria mesmo era cair - não, pular - para sempre na toca do coelho, mas não tenho coragem. A única coisa de que sou capaz é ficar sentindo o vento gelado me bater no rosto e pensar. Em tudo. Em nada. Nessa constante e imutável nostalcolia que me é tão conhecida. Gostaria de ter algo. Mas, para se ter algo, é preciso mais que vontade. É preciso entrega, é preciso dom, é preciso ousadia. Quem me dera. Minha entrega é à minha cama, o dom é o de procrastinar e a ousadia é, desde sempre... Não. Não há nada de ousadia.
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sexta-feira, 6 de abril de 2012
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Pulgas e Percevejos
Tudo nesta casa está tomado. Eu estou. E não adianta jogar inseticida pelos cantos, pelas paredes, pela memória. A luz alaranjada da lâmpada incandescente me entra nos olhos rascante, clareando os recessos mais escondidos - que, desde Freud, tento esconder até a eternidade. Há vários deles, bichos que vêm se arrastando, ou voando céleres, e corroem móveis e almas. Deixando rastros de lembranças, páginas velhas que alimentaram traças. Não se pode lê-las, nunca mais.
Festa perdida e intrépida, infame, repleta do açúcar que atrai infinitas formigas, fá-las tremularem as antenas, reunindo a multidão de Meca ao fim de mais um Ramadã. E eu, no jejum de sentimento, a refestelar-me glicídico, ainda que salte à vista, clara e tátil, a certeza do erro. Haveria modo de digerir esse doce, ou mesmo me digerir, para por fim nas ferroadas? É impossível dormir, com todo o corpo a explodir em feridas que se exibem destituídas de qualquer vestígio de pudor. Putas feridas.
Combinação perigosa. Pulga e percevejo, barata e gafanhoto, besouro e escaravelho. Um sarau estrondoso a ecoar onde quer que eu esteja, misto de serenata e militância - protesto trovador consumindo o que me resta de lucidez. Caço-os, procuro-os, imerso no amarelo luminoso, feito de raios e consciência; pífia tentativa. Faço-me rocambole na cama, suicídio lento e derretido que se junta às picadas e mordidas dos insetos da mente.
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
O buraco da tomada parece menor do que quando você estava aqui. Ou foi a coordenação motora que desertou do meu barco junto contigo? Se eu pudesse quantificar a dor, numa escala de zero a dez, seria treze. Localizada? Não, definitivamente. Sinto-a na cabeça, no peito, nos braços, no estômago, nas pernas e no saco. Sinto-a na escova de dentes que tu deixou em cima da pia do banheiro. Na tua falta que te faz mais presente do que nunca. Eu conseguia controlar o dinheiro. Mas você foi embora, com a mala azul e a camiseta do Aerosmith rasgada na manga. E eu apenas ouço, com o copo na mão, there's a hole in my soul. E precisando da minha carteira de cigarros que estava sobre a mesinha do computador.
sábado, 27 de agosto de 2011
Sem tempo para palavras cruzadas
A vida é se há liberdade. Eu sou livre? Creio que não seja corajoso o bastante para admitir que não, embora meus cigarros me condenem rapidamente. Na verdade, os cigarros são o menor dos meus males, o problema é que à primeira vista eles parecem maiores do que realmente são. Mas não estamos aqui para falar de tabaco, e sim de liberdade. Ou podemos continuar com o assunto, ou mudar, enfim, ser livre é ser mutante, metamórfico. É isso, não? Tomo uns goles de um vinho ruim - comprei porque era barato - e deixo que o álcool faça efeito. Porque o álcool é livre, provavelmente mais livre que eu, e ele age livremente sobre mim. O gosto adocicado, mais açúcar que outra coisa, estimula a minha língua, o que me leva a pensar em bocas e beijos e pescoços. Isso é ser livre? Quando ia ao banheiro e ficava lá sentado, com a revista de palavras-cruzadas no colo, a caneta balançando ou sendo mordida, a cabeça procurando a solução para a charada, me pergunto se nesse momento eu era livre. Coquetel (?): arma incendiária utilizada em protestos. Vertical, sete letras. Fogo. Aí eu puxo a descarga e tudo vai embora, no turbilhão de água que segue rodopiando aparentemente sem fim. A água que leva os dejetos embora não é livre. Os dejetos também não, pelo menos agora é o que consigo entender da natureza do dejeto. A barba que cresce - até demais! - é livre até eu vir com a lâmina e tolhê-la para que cresça de novo. E eu me corto e o sangue cai, maculando a brancura da louça da pia. Teria o sangue alguma liberdade? Instrumento de sopro, oito letras, horizontal. Outro daqueles momentos aos quais não sei atribuir a devida taxa de liberdade. E o sopro me traz a música e a música, sim, é livre. A música é tão livre quanto é livre o destino do voo de uma mariposa, se é que o voo da mariposa é livre, mas o que importa é que a metáfora faça sentido. Se não fizer, também, não há diferença, a ideia de liberdade é onipresente (ainda que variável) e independe de quaisquer artifícios. Um gole mais, um trago mais, e o que tem de ser livre vai sendo-o dentro de mim. Irmão do pai, três letras. Sem direção, porque família nem sempre tem direção. Família não é livre de todo. Quiçá não é nada livre. O que é liberdade, realmente, definitivamente? Difícil responder, e mesmo raciocionar sobre a questão. Se estivesse numa revistinha, tendo a resposta sentido e número de letras pré-determinados, seria mais fácil. Mas aí estão um milhão de coisas a serem feitas, coisas complicadas, com prazos rígidos. Não há tempo para resolver palavras-cruzadas.
sexta-feira, 22 de abril de 2011
Eis-me aqui. Em barba, óculos, cueca e dor-de-cabeça. Um cigarro amassado no canto da boca, aceso querendo apagar. Uma babel de sons a reverberar lá dentro do crânio. E a vontade incontrolável de sempre, de transpor as palavras da nascente pro papel. A luz acesa, a geladeira aberta, o chuveiro pingando. Esses lapsos cotidianos; a gente sabe que tem de dar um jeito neles, mas a preguiça de sair debaixo do cobertor vence toda vez. Uma raiva familiar que vem do nada, uma raiva de mandar um foda-se para as coisas pequenas, uma raiva de tudo. De mim mesmo. De eu fazer coisas das quais me arrependo no dia seguinte, quando os flashes de memória vão voltando. Uma raiva de dicionários. Pra que palavras bonitas? O rosto da vida nem é tão belo assim. Daí o cobertor fica mais quente e a preguiça se mistura com a raiva e tudo vai-se tornando sono. Eu fecho os olhos, e o piscar vai-se tornando mais lento. Mais lento...
segunda-feira, 28 de março de 2011
Ade
Saudade comprida. Saudade que tem começo, mas perdeu-se e não quis final. Um beijo dramático no espírito das coisas que já passaram e o espírito volta com a nostalgia de todas as horas. A cabeça levando em banho-maria os conceitos que têm de crescer como pão-de-ló. E quando o fogo acaba? Quando a gente sente que já não dá mais, ou que até dá, mas muito mal dado? Saudade demorada. Saudade que não usa relógio. As perguntas fáceis, dúvidas simples, fragmentos de inocência que já não existem mais. Agora tudo é ade. Maturidade, responsabilidade, que vêm indissolúveis da tão desejada liberdade. Mas o eco e a rima só fazem aumentar a ânsia. E a saudade. Mais um ade. O primeiro ade. O ade que sempre existiu, e que vai existir pra sempre.
sexta-feira, 4 de março de 2011
É aquela coisa cinza e vaporosa que cobre o céu num dia frio. Tão cinza e tão vaporosa quanto a fumaça encorpada que rodopia no ar. Uma sacada e um cobertor. Era tudo uma confusão, um jogo de luz e sombra que ninguém sabia como controlar. Mas parecia que agora ele tinha reencontrado o prumo. Ou, pelo menos, estava reecontrando. Isso era bom. Sabe, quando não há alma viva para atrapalhar e você aprecia aqueles momentos de solidão gostosa, quem sabe com um vermelho pendendo dos lábios, ardente, ou talvez uma xícara de café forte, ou ainda os dois juntos. A cabeça desanuvia e você esquece que tem problemas, que tem crises, que tem mil e uma coisas para estudar. Aí você pensa naquela música triste que te fala tanto sobre alguma coisa qualquer, e se sente envolto numa aura de nostalgia que, apesar da aparência, é tão boa. Tão boa. E sente saudade de coisas que nunca aconteceram, e olha pro céu e vê o cinza, e vê o cinza na sua frente, e imerge num mar de cinza. Um cinza quente, fluido, acolhedor. Então, você se dá conta de que está lá, na sacada, enrolado num cobertor felpudo, sentindo a brisa gelada bater no seu rosto e te lembrar que você existe. E você fica com medo de a brisa apagar o cigarro, mas no fundo sabe que a brisa só quer brincar com você. E, por fim, fica feliz, uma felicidade diferente daquelas que a gente sente às vezes, um misto de êxtase com sono, um estado de espírito sem igual. E fecha os olhos, apreciando ao máximo esse prazer.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Parto
Estava lá, com o lápis na mão, sentindo o cheiro de frango da lasanha que colocara no microondas. Nada parecia fazer sentido, mesmo com tudo em volta dele gritando "essa é a realidade". Olhava em volta e via o caos armado no quarto. O estômago roncava. E ele não conseguia fazer palavras. Bebeu um gole da cerveja quente que jazia desde o dia anterior ao lado do colchão. Pensou em tudo aquilo que poderiam dizer dele. Não fazia diferença, tudo era verdade. Sabe-se lá. Ouvia Watching the Wheels, e a música o fez lembrar-se da vitrola e uma tarde de chuva. Ao mesmo tempo em que estava imensamente feliz por todo aquele novo universo, era justamente todo este novo universo que o fazia querer chorar. Querer colo. Ele estava nascendo. E, embora quisesse muito aventurar-se lá fora, sentia uma vontade louca de voltar ao útero.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Esgoto
Estou em decadência. Sou uma decadência. Vamos escorrendo, minhas tentativas e eu, praquela fossa que não tem nada de novo, somente merda e pensamentos ignorados.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Criação
"Gastei uma hora pensando um verso /
que a pena não quer escrever." (Drummond)
Palavras, onde vocês estão? Era o que ele pensava, enquanto girava o lápis nos dedos e as gotas de suor brotavam-lhe aos montes na testa. Riu-se. Lembrou os versos de Drummond; escreva, pena, escreva! Sabia que qualquer coisa que rabiscasse no branco do papel somaria à tonelada de bolinhas no cesto. Merda! Acendeu um cigarro e fechou os olhos, pensando em tanta coisa boa que via por aí. Por que não conseguia fazer igual? Os outros eram tão bons, por quê? Tinha noção de que às vezes era prosaico demais. Comum demais. Mas será que não iria conseguir fazer alguma coisa que prestasse, nem que fosse só uma? Acendeu o segundo e apertou forte o lápis. Agora sairia. Aproximou o grafite da folha, mas deteve-se. Não dava. Tentou novamente, estancou. Terceiro cigarro. Foda-se, disse em silêncio. Desenhou um coração e deixou para escrever mais tarde.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Putrefação
Sinto-me como estivesse apodrecendo. Não por fora; mas lá dentro. Corroem-me os menores problemas, e eu sei que não devia ser assim. Pode ser uma fase, pode ser eterno, pode ser tudo. Ou nada. Eu não devia ser tão mesquinho, o nome disso é mesquinhez? Ou será que minha expectativa foi tanta que a realidade não deu conta de alcançá-la? Depois, fico remoendo argumentos, na decomposição fétida e lenta que acaba comigo. Dia após dia, vejo as cores de tudo. Olhos que brilham, mas, lá no fundo... Lá no fundo, meu interior vai ficando putrefato.
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Angústia
Droga de espera que não finda! Pungente. Pesada. Terrível. A mente produz toda sorte de desfechos, de possibilidades, de trajetos. Serei ou não punido? Serei ou não punido? Qualquer castigo é melhor que essa incerteza.
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