sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Reencontro

Refestelada e eructante, saca da caixa um palito. Observando se ambas as pontas estão afiadas, esfrega a língua por todas as superfícies bucais alcançáveis, sentindo as últimas notas de sabor da refeição que acaba de ter. Leva a mão direita armada à boca, enquanto a esquerda faz de conta que é biombo, numa tentativa de esconder os mistérios de uma cavidade oral escura e secreta. Como os demais convivas displicentemente largados em suas cadeiras no estupor pós-prandial, inicia o processo de escavação dentária.

Enquanto ouve risadas misturando-se com o tilintar dos talheres sendo recolhidos e os borborigmos dos abdomes recém-satisfeitos, fecha os olhos e introduz a ponta daquele pedaço de madeira no espaço entre os incisivos inferiores. Fenda por fenda, dente por dente, vai esfregando os resíduos alimentares de forma lenta e delicada, repetida, movimentos de alavanca e vaivém que a fazem fechar os olhos e seguir com a função, trinta e dois beijos entre pinus verde e esmalte perolado.

Tem cinquenta anos e palita os dentes numa tarde de domingo. Cada gosto derradeiro que experimenta antes de engolir os pequenos restos antes aderidos fá-la lembrar a feitura dos pratos há pouco consumidos. De olhos ainda cerrados, cerra um pouco mais os dedos ao recordar o trabalho árduo e solitário de preparar o almoço de família. Sozinha na cozinha, sozinha nos outros cômodos da casa grande, de pé-direito alto, com jardinete francês e piscina, sozinha em si mesma. Pensa no marido sem vê-lo, sentado à sua frente, a redonda barriga a avolumar-se por sobre a calça, sempre reclamando da falta de variedade do cardápio. Ri consigo mesma ao pensar na enorme ironia. Ele, o mais monótono dos seres em suas opções de menu, vomitando comentários sobre ausência de diversidade culinária. Sente saudades do tempero antigo. Quando foi a última vez que sentiu verdadeiramente o gosto da pimenta?

No meio de dois molares tem um pedaço de carne. Preso. Difícil. Dirige a ponta do instrumento para o local, cavoucando, na ânsia sôfrega de retirar aquele naco proteico ainda não digerido – presença minúscula, mas que grita para ser notada. Enquanto tenta alcançar o objetivo, vislumbra o palito entrando no recesso escuro e dele saindo, mais uma vez, e outra, e novamente, e acelera o movimento da mão direita. Aperta as pálpebras com mais força, sentindo a extremidade aguçada machucar-lhe a gengiva, sangrando e doendo como uma segunda primeira vez. Esquecendo-se de onde está, começa a ofegar, remexendo os quadris na cadeira estofada e sussurrando ais, até sentir o retorno de um amigo há muito distante. O prazer que sente ao enfim soltar aquela partícula incrustada, que salta com a pressão do jorro quente que acompanha o êxtase dos homens.

domingo, 28 de junho de 2015

3 a.m.

Tinha um tango tocando no rádio
Enquanto eu divagava remoendo pensamentos imbatíveis
“tienes veinticinco años”
Ou algo assim
Não sei o que faço
Embora eu não tenha vinte e cinco
E tudo parece tão aleatório
Odeio madrugadas insones

terça-feira, 12 de maio de 2015

12 de maio de 2015

Você,

Ainda estou preso em superstições bobas como desvirar o tênis caído de boca pra baixo no chão. Ou comportamentos repetidos; fechar todas as portas do armário antes de dormir, checar mais de três vezes se o alarme do celular realmente foi ajustado para as seis e meia da manhã. Você chamaria isso de transtorno obsessivo-compulsivo. Eu prefiro dizer que são caprichos dominadores. Talvez apenas por ser uma forma mais poética de dizer a mesma coisa, você sempre apontava que eu tenho um fraco pela poesia cotidiana, ainda que barata, buscar palavras mais bonitas para disfarçar feiuras, perigos e distúrbios. De fato, este sou eu.

Escutando a chuva sapateando no telhado, penso que nenhuma onomatopeia que eu escreva sairá como o seu som das gotas caindo, seus lábios fazendo aquele barulho gostoso que me dava tanto ou mais conforto que a chuva em si. Confirmo mais uma vez que todas as tomadas estão desconectadas, já é a quarta. O medo de curto-circuitos nessa tarde de temporal é a desculpa com que cubro minha fixação. Uma delas, aliás.

Você, por outro lado, sempre foi tudo menos fixada. Já que já admiti o meu pendor pelo lirismo de supermercado, permita-me usar o clichê do espírito livre. O que, mesmo clichê, é verdade. Realmente, acho que clichês são o que são justamente por esse motivo. Você era do tipo desapegada. De religiões, de comportamentos, de ideias e, especialmente, de pessoas. Achava graça nos meus costumes meio-fé-meio-mandinga, porém ficava séria quando eu novamente contava os azulejos do banheiro. Só que, ainda que a preocupação fosse genuína, seu jeito de ser sem amarras, sem fincar raízes com força no chão como eu, esse seu jeito não te permitiu continuar aqui.

De modo que não fiquei surpreso quando, na última e maior briga, você me disse que iria embora. Aliás, não sei se "briga" é a palavra certa, tendo em vista que o que ocorreu aquele dia foi menos uma discussão que um monólogo seu. Se eu quis que você ficasse? Eu quis. Mas como competir com minhas próprias falhas evidentemente patológicas escancaradas em forma de lista? Fiquei, ao mesmo tempo que triste por você ter partido, aliviado por não mais atrapalhar sua vida de grão de pólen. Desejei sinceramente - ainda desejo - que os melhores ventos te levassem para outra flor, outra casa em que você pudesse finalmente ser em plenitude.

Pelo que fiquei aqui, lavando as mãos até a pele começar a rachar e aspirando apenas o ar, depois que tudo já estava cirurgicamente asséptico. Talvez eu devesse procurar ajuda. É o que você me recomendava de forma constante. Mas acredito que não vá encontrar substituto mais irônico do que essas minhas manias arraigadas (deixe-me chamar tais hábitos de manias, há um quê de excêntrico nisso), firmemente presas a mim, quando você era a mais solta dos seres. E você sabe que eu adoro ironias.

Eu

quinta-feira, 7 de maio de 2015

História de um início de romance

Poemeto de supermercado.

Na seção
Concessão
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Uma sessão
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Intersecção.




Lembro-me bem deste poema, que escrevi em 2010
depois de uma passada no supermercado.
Após presenciar um encontro e um sorriso, imaginei
o que poderia vir depois
e o utilizei num exercício de concisão e brincadeira sonora.
Na falta de algo novo, posto algo bem velho nesse dia
que, para mim, é especial.
Hoje este blog faz cinco anos.
Seguimos capengando, mas ainda estamos aqui.