sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Mordimento

Na pia, a costumeira anarquia de objetos. Imersa na água espumenta, a escova morta. Amarela, cerdas macias, ainda com resquícios do gel dental azul com sabor de menta americana. O sabonete obstruía o ralo. Meteu a mão na massa mole e escorregadia e lavou a cara. Saiu sem se secar. Ao passar pela sala, pisando no macio tapete ornado com motivos orientais, sentiu a pontada familiar de nostalgia e arrependimento. Gostaria de retroceder no tempo, fazer com que as coisas acontecessem de outro modo. Mudaria, contudo, se o calendário voltasse? Ele mesmo tinha dúvidas se não faria tudo igual. Pediu perdão em silêncio, agora enxugando o rosto com a camiseta. Dirigiu-se à janela, e as recordações não cessavam. Palavras duras, soltas quase sem querer. Brilho metálico. Lágrimas. Viu o rosto em pranto, "por quê? por quê, meu filho?". O sol se desescondeu e incidiu em cheio no rosto dele. Foi bom. Vislumbrou as bolinhas vermelhas e vinho destacadas contra o mar de verde, lá fora, e sentiu a salivação. Foi colher as acerolas. Era a fruta preferida da mãe.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Horizontais

Na cama quente
Eu e você
Entrelaçados
Eu e você
Amores loucos
Eu e você
Delírio, breu
Você e eu

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Putrefação

Sinto-me como estivesse apodrecendo. Não por fora; mas lá dentro. Corroem-me os menores problemas, e eu sei que não devia ser assim. Pode ser uma fase, pode ser eterno, pode ser tudo. Ou nada. Eu não devia ser tão mesquinho, o nome disso é mesquinhez? Ou será que minha expectativa foi tanta que a realidade não deu conta de alcançá-la? Depois, fico remoendo argumentos, na decomposição fétida e lenta que acaba comigo. Dia após dia, vejo as cores de tudo. Olhos que brilham, mas, lá no fundo...  Lá no fundo, meu interior vai ficando putrefato.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Curitiba

Elucubrações românticas de um vestibulando.

À subida das serras, eu fantasiava toda a sorte de cenários, vislumbrando ambientes surreais, oníricos, com a ansiedade percorrendo meu corpo a Mach 3. Chega logo, eu pensava. E por fim cheguei. Curitiba me recebeu altiva, numa noite tão noite que pululava de estrelas no céu e no chão, estrelas caídas. Ao descer, inundei-me com o ar frio carregado de saúde e de letras. Era ali, sim era ali que eu teria de ficar. Nas esquinas e travessas, me deparava com Paulos e Helenas e Daltons, cujos amores, histórias e poesia não tinham e não têm fim. A Botânica, o Passeio, a Ópera. Cada vez era maior a certeza de que não poderia ser outro lugar. Queria ser médico, queria ser vampiro, queria ser marginal. Contemporaneidade. Envolver-me na caçada, buscar a cidade perdida; quem sabe alguém a encontrasse. Um ligeiro sol mostrou sua figura, apenas para conferir aquele punhado exato de luminosidade à paisagem que se exibia ante meus olhos. O sol cansou e começou aquele véu de noiva de neblina fina, tão convidativo a uma sopa com queijo e uma xícara de café. Foi assim. Avaliado estive e avaliei também. E despedi-me do meu utópico objeto de lar futuro, desejoso de voltar e quedar-me ali até não sei mais quando.

sábado, 13 de novembro de 2010

Lapsos

Ela briga comigo por conta da pasta de dente destampada; do tapete revolvido; das meias e cuecas jogadas em qualquer canto; do fogão sujo de queijo; dos chinelos revirados; de eu tomar as coisas direto na jarra; da tampa da privada com um ou dois pingos de urina. Se a pego de surpresa no banho, porém, ela ignora esses meus defeitos. E, quando caímos entrelaçados na cama, ela nem mesmo coloca reparo na toalha úmida que sempre esqueço sobre o lençol.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Descoberta

- É um maço de cigarro, não tá vendo?
- Claro que é cigarro, Renata. Quero saber o que está fazendo na sua bolsa.
- Vai lá, inteligência rara: três chances pra você adivinhar.
- Não fale assim comigo. Apesar de você parecer não se lembrar, eu sou seu pai.
- Ah, não. Pode parar por aí. Não aguento mais ouvir seus sermões.
- Se você não gostasse de ouvir, não faria o que faz.
- Ah, é?! E o que é que eu faço de tão medonho?
- Minha filha, você anda por aí bebendo, com essas roupas de mulher que não tem respeito. E agora deu para fumar? Por quê?
- Ora essa, fumo porque quero. Agora vaza, me deixa em paz.
- Você não imagina o desgosto que está dando à sua mãe, que Deus a tenha. Ela não suportaria te ver fumando.
- Desgosto?! Hahaha, mamãe fumava escondida! Só você que não sabia. Aliás, foi ela quem me deu meu primeiro cigarro. Lembro bem, era um Marlboro vermelho.
- Santo Deus, isso é verdade?!
- É, pai, é verdade. Agora vai, será que você vai embaçar só por causa de um maço de cigarro?
- Sua mãe fumava... como eu não percebi?
- Ela sabia não deixar pistas. Eu tinha muito a aprender com ela.
- Ela fumava...
- Tá bom, pai. Vai digerir a informação lá embaixo. Não estou com paciência pra lamuriações sobre descobertas. Além do mais, ainda tenho vários Caribe a tragar.
- Caribe? É aquele de menta?
- É, por quê?
- Deixa eu experimentar?

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Garimpo

Concebido num providencial tempo livre.

Ele não sabia o porquê, mas quando chovia era diferente. Ouvia as gotas baterem no chão e sentia aquele cheiro tão único da água do céu que desce para lavar a terra. Não por acaso, a chuva era presença constante nos pequenos emaranhados de palavras delirantes, seus escritos. A chuva despertava coisas que não têm explicação, dizia. Pegou a garrafa e serviu-se de uma xícara de café, ao qual acrescia quase sempre uma ou duas doses de gim. Sentou-se à mesa de trabalho, com o murmúrio do choro celeste a ecoar alegremente nos ouvidos. Em suma, não havia nada de muito interessante na vida dele, a não ser a faísca de urgente lucidez quando rabiscava as ideias no papel. Era assim, normal. Gostava de quase tudo e não gostava de nada. A chuva era paixão, era tema recorrente, mesmo com a possibilidade nada remota de ser tachado (e de fato era) redundante que não tem outra coisa a lançar mão. Não se destacava dos demais; convenhamos, não se encontra por aí um diamante oculto no cascalho todo dia. De fato, ele não era diamante. Em contrapartida, era um cascalho dos bons. Daqueles que aprenderam a se deixar arredondar, melhorando sempre, pela força do tempo e da água. Água da chuva.