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sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Enxerto

repostagem

Foi num dia de muita chuva que a vi passar pela primeira e última vez. O céu todo vestido de cinza, chorando lágrimas doces que caíam oblíquas ao bel prazer do vento. Suas mãos trêmulas tentando proteger o cigarro aceso, já pela metade, pendente dos lábios roxos, tulipa num jardim de Amsterdã. A marquise sob a qual eu ponderava entre esperar o temporal passar ou ir de qualquer jeito não era muito grande. Vi o cachecol balançando e o rastro de fumaça branca e densa que saía da casinha de joão-de-barro que ela improvisou. Constrangido sorriso mútuo, um ou outro comentário sobre o aguaceiro, essas trivialidades. E o silêncio que, mesmo no espaço apertado da área seca debaixo da marquise, deu um jeito de se enfiar entre nós como se fosse uma coisa física, tocável, visível.

***

Até que fui atingido pela névoa da cachoeira de cachos castanhos, cujo perfume me trouxe novamente a imagem da tulipa e do seu balé à brisa holandesa. Nunca estive na Holanda. Susto, ela percebeu. Virou-se de frente pra mim e pediu desculpas. Tudo bem, não há problema. E realmente não havia. Minha cabeça, cheia de coisas inúteis e preocupações bestas, desanuviou – o que demorava a acontecer com a grande tela cor de chumbo, cortada por prata vez ou outra. Não nomes, não ocupação, apenas comentários adicionais sobre o tempo feio. E uma surpresa.

***

Li infinitas feições naquele curto espaço de tempo. Súbito, a grande bola amarela apareceu, estancaram-se as gostas e desmoronou-se, por conseguinte, a casinha de joão-de-barro. Senti o roçar das franjas de lã no pescoço e previ seus passos graves rumo a um destino o qual eu não fazia ideia. Não faço ideia. Não a escutei quando disse uma fórmula de despedida qualquer – pergunto-me se chegou a fazê-lo. Lembro-me apenas de assistir à cena de fora, eu mesmo espectador e personagem simultaneamente. O encontro das pétalas macias, ela,  e das folhas secas, eu. Duas bocas; o corpo sentindo a haste da planta, uma da outra. Depois, a meia-volta. A ponta do cachecol rodopiando novamente. Minhas mãos erguendo a gola da jaqueta para depois se enterrarem nos bolsos. Meus pés respingando a água de inúmeras poças que encontrei pelo caminho. E o cheiro de tulipas que encanta e assombra meu pensamento até hoje.

domingo, 7 de outubro de 2012

Guria

Noite quente na cidade. O ônibus amarelo com destino ao bairro do Uberaba sacolejava, roncando. E eu com os fones de ouvido metido nas orelhas, escutando Jet, are you gonna be my girl. Até que se sentou ao meu lado. Cabelos, óculos, mochila, unhas e o “Daddy’s girl” tatuado no braço – todos pretos, como o céu mormacento que fazia lá fora. Tinha cara de Letícia. A blusa multicolorida que ela mesma enfeitou, com uma estampa psicodélica e um decote recortado em casa, que deixava entrever as alças do sutiã, também preto. Abriu uma edição meio velha d’A Convidada, de Simone de Beauvoir, cujas páginas eram marcadas com uma fotografia desbotada de quando ela era criança. Senti o cheiro bom e desconhecido que emanava dela e das palavras, e foi aí que reparei que ela fazia letras na federal (finalmente a greve terminara) e tinha uma aliança prateada no dedo anular da mão direita. – Você pode abrir a janela mais um pouco, por favor? Claro que eu podia. Tristemente, eu podia. Abri a janela, no que ela deu uma folheada no livro. Na primeira página, “Renata, 2005”. Ela não era Letícia. E eu desci no ponto seguinte, pedindo licença para passar e vislumbrando a fênix desenhada em suas costas. Is she gonna be my girl? Não.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Convite

- Não.
- Por que não?
- Porque não quero, ué.
- Tem que ter um motivo.
- ...
- O motivo sou eu, né?
- ...
- Fale alguma coisa!
- Sim, o motivo é você.
- Eu sabia.
- Se sabia, por que perguntou?
- Queria ter certeza.
- Pois agora você está certo, tchau.
- Espera!
- Por que deveria?
- Você sabe que deveria.
- Sei, é?!
- Sabe. E sabe também que gosta de mim.
- Você só pode estar louco.
- Todos somos loucos, querida.
- Você é mais do que louco.
- E me orgulho disso.
- Orgulho? Onde estava com a cabeça quando atendi à sua ligação?
- Pare com essa cena. Você quer, eu sei.
- Escute: se você não passar aqui em meia hora...
- Isso é um sim?
- Meia hora!
Clique.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Adaptação

Sentia aquela mancha de abstração no meio da realidade. Uma mistura de cansaço e preguiça e desânimo era o que lhe percorria o corpo, enquanto escutava os aviões - decolando ou aterrissando? -  passarem perto dali. Era tudo muito movimentado. Movimentado demais. É claro que ele tinha que se levantar dali, pôr as coisas em ordem. Levantar, pôxa. Mas havia algo mais forte. Droga, tinha que comprar vassoura e rodo, fazer comida, limpar a casa, além do calhamaço que precisava ser estudado. Que, sobre a mesa, irônico, ria dele. Olhou as latas de coca-cola no chão do quarto, as migalhas de pão. Os restos da alimentação nada saudável que andava levando. Paradoxo. Ele tinha que dar um jeito naquilo, mas onde estava a coragem? É isso, coragem. Continuou deitado no chão frio, as pernas sobre a cama, imaginando o que seria dele a partir daquele momento.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Vício

Dona Inês havia dito para o filho parar, onde se viu tomar tanto café assim, ia fazer mal. Na verdade, ela achava que já estava fazendo. Vitor não era mais aquele rapaz e, nos últimos tempos, estava inalcançável; quando alguém lhe falava, era arredio.

A mãe punha a bebida em condição de origem do transtorno do filho. Proibiu-o indeterminadamente de apreciar o singular líquido negro. Ele explodiu. Puta e vaca foram termos muita vez utilizados. A senhora ouvia-o, em pranto, e lhe pedia que se acalmasse, que tudo bem, o deixaria tomar café de vez em quando. Vitor não dava a mínima, atordoado que estava. Possuído, assim sua mãe descreveria ao esposo o estado do filho.

Vitor quase bateu na progenitora, "você não sabe de nada!". Impediram-no a ponto de fazê-lo. O pai barrara-lhe o gesto e a coisa agora era entre os homens. Dona Inês foi em choque para o quarto atirar-se na cama e esvaziar-se toda em choro. Dali a pouco, apagou.

Abrindo as pálpebras, viu o marido a afagar-lhe os cabelos. "Ele foi embora". Ela descerrou os lábios, mas não pôde dizer coisa alguma. "É melhor pra todo mundo", repetia seu Joaquim, tentando acreditar na própria voz.

Dona Inês era dura consigo, "a culpa é minha", o que tinha demais no fato de o filho ter uma inclinação para o consumo excessivo do café? Só que, perdido lá no meio do emaranhado de pensamentos, ela sabia que estava certa, vira na tevê um médico falando que café demais podia causar problemas psíquicos. E ela não podia deixar o filho enveredar por essa senda. Cada dia mais magro, sangue na vista, olheiras escavadas - olhos de defunto, dissera a vizinha -, ele não conseguia não entornar uma garrafa completa por dia. No mínimo. E sempre trancado no quarto. Mas a proibição fora um revés. "Para onde ele foi?", perguntou, chorosa. "Não sei, querida", proferiu o marido, torcendo para ela crer.

Passou tempo, e ninguém na casa se atrevia a pronunciar qualquer vocábulo que remetesse aos acontecimentos. Dona Inês passava os dias vertendo lágrimas, em súplica silenciosa, "onde está meu filho, onde está meu filho?". Ela logo teria a reposta tão desejada. Meio mês mais tarde, o casal recebeu a notícia de que um corpo havia sido encontrado nas imediações da igreja de São José. Estava, agora, no IML. O único documento que havia delatava a filiação do cadáver. Foram reconhecer. À retirada do lençol, dona Inês cambaleou. O nariz do morto estava preto, com as veiazinhas rompidas e podres. "Crack", informou o legista. "Há bastante tempo". O marido tentava consolá-la, "fui injusta! é minha culpa! não era o café!"; e, ao mesmo tempo, conter seu próprio desespero. Ficaram aprisionados nos fatos, desnorteados. Até que os retiraram para uma sala contígua.

Após os trâmites e a óbvia confirmação de que o rapaz era de fato Vitor, uma funcionária chegou com um sorriso polido e pesaroso e uma bandeja nas mãos. Desprendia-se um vapor dançarino que rodopiava no ar. "Eu sinto muito. Os senhores aceitam um café?", perguntou educadamente. E, a não ser seu Joaquim, ninguém entendeu o motivo de Dona Inês súbito gritar um "não" desumano e cair inerte no piso azulejado, imaculadamente limpo.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Semáforo

- Droga, eu falei pra procurar as chaves depois. Olha aí, tá fechado.
- Calma, amor, é rápido.
- Rápido... é porque não é você quem está dirigindo. E esse ainda é daqueles de não sei quantos tempos.
- Relaxa, bota uma música e curte o momento.
- Curtir o momento?! Com essa porra de sol na cara e, pra completar, filtro de ar mais sujo que...
- Ai, amor, você tá muito estressado. Precisa de férias.
- É claro, vai dizer isso pro meu chefe!
- Credo, Rô! Já vi que hoje não tá dando pra conversar.
- E essa merda de sinal que não avança!
- Ficar nervoso só piora as coisas. O tempo é relativo. Tudo é relativo. Newton disse isso, não foi Newton?
- Não, meu Deus, foi Einstein. Ou Bohr. Ah, sei lá! Dá pra ficar quieta?
- Escuta aqui: não pensa que pode falar assim comigo! Não pode, ouviu?
- Tá, tá, chega!
- Mas você tá um porre mesmo hoje, hein? Te contar...
- E você não cala essa boca, Jesus! Não consegue...
- Rô...
- E ainda por cima quer me interromper...
- Rodolfo...
- Fica quieta!
- Os carros, Rodolfo!
- Mas o que é que têm os carros, droga?!
- Abriu, Rodolfo.

sábado, 13 de novembro de 2010

Lapsos

Ela briga comigo por conta da pasta de dente destampada; do tapete revolvido; das meias e cuecas jogadas em qualquer canto; do fogão sujo de queijo; dos chinelos revirados; de eu tomar as coisas direto na jarra; da tampa da privada com um ou dois pingos de urina. Se a pego de surpresa no banho, porém, ela ignora esses meus defeitos. E, quando caímos entrelaçados na cama, ela nem mesmo coloca reparo na toalha úmida que sempre esqueço sobre o lençol.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Garimpo

Concebido num providencial tempo livre.

Ele não sabia o porquê, mas quando chovia era diferente. Ouvia as gotas baterem no chão e sentia aquele cheiro tão único da água do céu que desce para lavar a terra. Não por acaso, a chuva era presença constante nos pequenos emaranhados de palavras delirantes, seus escritos. A chuva despertava coisas que não têm explicação, dizia. Pegou a garrafa e serviu-se de uma xícara de café, ao qual acrescia quase sempre uma ou duas doses de gim. Sentou-se à mesa de trabalho, com o murmúrio do choro celeste a ecoar alegremente nos ouvidos. Em suma, não havia nada de muito interessante na vida dele, a não ser a faísca de urgente lucidez quando rabiscava as ideias no papel. Era assim, normal. Gostava de quase tudo e não gostava de nada. A chuva era paixão, era tema recorrente, mesmo com a possibilidade nada remota de ser tachado (e de fato era) redundante que não tem outra coisa a lançar mão. Não se destacava dos demais; convenhamos, não se encontra por aí um diamante oculto no cascalho todo dia. De fato, ele não era diamante. Em contrapartida, era um cascalho dos bons. Daqueles que aprenderam a se deixar arredondar, melhorando sempre, pela força do tempo e da água. Água da chuva.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Divã

Sabe, doutor, a verdade é que não sei porque estou aqui. Vi sua placa e fui tomado por uma coisa que não sei definir. Mas cá estou, não é? Então. Tá tudo tão difícil, doutor, o senhor nem imagina. É discussão, briga, dívida, e eu não faço ideia de como sair desta situação. Meu único refúgio são os livros. E meus únicos amigos ultimamente têm sido Nietzsche, Rimbaud e Freud. Freud é conhecido seu, não é, doutor? Desculpe. O fato é que preciso dar um jeito nisso. Não aguento, não aguento. Minha mulher nem imagina o turbilhão que destrói minhas poucas seguranças. Nesse momento ela deve estar lá em casa, esbravejando, onde diabos eu estou, e que vai queimar todo aquele monte de papel inútil. Palavra não paga conta, ela diz. Isso dói. É, doutor, não é nada fácil. Estou com toneladas de problemas a me esmagar a mente. Creio que estou ficando louco. Acho que já estou. Ah, meu Deus, seria muito engraçado, se não fosse essa merda que é. Desculpe, doutor, saiu sem querer. Preciso sumir, sabe, é isso. Esquecer um pouco essa porra de vida que desce pela garganta qual comida fria. Eu sei, doutor, vou tentar me controlar. Quem dera eu pudesse ir-me embora pra Pasárgada e ser amigo do rei. Mas chega dessas baboseiras literárias, estou cansando o senhor. Acho que não devia ter vindo. Veja o senhor, há anos que eu não chorava. Esqueça. Esqueça-me. Não, doutor, eu é que peço desculpas. Definitivamente, não devia ter vindo. Adeus. Adeus, doutor. Vou lá tomar mais um copo dessa cerveja choca que é a minha existência.

sábado, 16 de outubro de 2010

Ruptura

Um sábado esquecido de 1990.
 
Enrolado recém-nascido no cobertor, ele jazia indiferente numa noite chuvosa. Estava consciente, por quê? Uma xícara inacabada de café e meio cigarro ardendo sobre o assoalho. Um livro aberto sobre o peito. Nietzsche mais chuva é bom. Não é? De vez em quando, assoava o nariz, maldita alergia! Olhava o catarro verde-amarelo com ar divertido, ou algo parecido com diversão. Não tinha nojo. Bebeu mais um gole do líquido negro, frio, que seja. Deixou o Ecce Homo definitivamente de lado. E, esforçando-se sobremaneira, libertou-se da morna prisão de lã. Não gostava das vicissitudes da vida, elas eram por demais inoportunas. Se bem que no fundo, bem lá dentro daquilo que chamam de consciência, ele sabia que a coisa toda era culpa dele. Lavou a cara, olhou-se no espelho do pequeno banheiro inundado pela luz cor de âmbar. Viu dois olhos opacos, um nariz sujo de catarro - droga de alergia! - e uma boca mais risco do que boca. Pegou a toalha vermelho-sangue com pulso duro e esfregou-a com força no rosto, quem sabe ela mudasse algum traço naquela tela assimétrica. Rindo pela primeira vez, lembrou-se de quantas vezes havia se masturbado naquele lavabo mínimo. Homenagens prestadas. Eufemismos. Afastou as reminiscências, hoje não queria ser nostálgico. Nostalgia infame, essa. Apagou a luz. Apanhou o cigarro do chão da sala e sorveu a última gota que descansava no côncavo da xícara. Pensou em Brigitte, como é mesmo o nome verdadeiro dela? Brigitte... Na sua transformação menino-homem, a francesa de mentira ocupava papel de destaque. Não gostaria de entregar-se assim às memórias, mas via que era ineficaz. Dirigiu-se à varanda e deixou-se lavar o corpo. Por que não a alma? Desatou a correr pela grama, louco, feliz, inexplicável, inesperado. Foda-se tudo, pensou. Promoveria a própria vicissitude. A vicissitude do ser. Estava acostumado com a melancolia acompanhando-o diariamente. Mas hoje não. Hoje não.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Tentativa

A preguiça me consome, mais voraz do que nunca, e eu me pergunto por que diabos ainda insisto nessa merda de conto, sabendo que ele não vai acabar. Por que continuo fritando os miolos, esperançoso, em vez de dar uma trepada, sentindo os tremores deliciosos e ouvindo os gemidos cadenciados dela, que me enchem de tesão. Essa maldita fixação que tenho pelas palavras, droga! É forte, deveras forte. O lápis trêmulo na mão, ansiando por concluir o inconcluível, quando eu queria mesmo era apagar. Apagar a mim mesmo e apagar a chama fulgurante daquele corpo. Eu já me disse para esquecer os números. Esquecer. Deixar que as coisas venham quando tiverem de vir. "Vai, bota um fone no ouvido e relaxa, seu idiota. Larga mão de ficar esquentando com uns rabiscos de grafite sobre o papel!". Mas não consigo concordar com a consciência. Sei o que é melhor; sigo no que acaba comigo. No que me mata. Ah, que vontade de roçar a língua naquelas curvas! Provar cada arrepio, cada mínimo suspiro de prazer. Só que as palavras me prendem, essas vadias. Essas vadias que me são imprescindíveis para viver. Desejo, tara, obsessão. Qualquer nome cabe, e não cabe nenhum nome. Tem um quê de visceral que foge ao meu entendimento. Sei apenas que é assim. Sim, é contraditório. Antitético. Amo as palavras. Odeio-as. Elas me aproximam e afastam da minha fonte, tão sempre fonte. Quero beber. Quero gozar. Quero escrever. Quero parar. É sempre indagação inútil.

domingo, 3 de outubro de 2010

Sorvete

- Eu quero chocolate e baunilha.
- Saindo uma casquinha de chocolate e baunilha pro campeão aqui!
- É casquinha de chocolate, né?
- Claro, Pedrinho, eu sei que é a sua favorita!
- Obrigado, seu Antônio!

...

- Ei, menina, você não gosta de sorvete?
- Gosto, mas minha mãe disse que ela não pode comprar. Esse aí tá gostoso?
- Aham, é de chocolate e baunilha.
- Meu sabor preferido é chocolate. Eu queria tanto um sorvete!
- Mas a sua mãe não pode mesmo comprar?
- Não. Ela disse que não dá pra ficar gastando dinheiro com bobagem. Eu queria tanto.
- Quer um pouquinho do meu?
- É sério?!
- Aham, pode ficar com tudo.
- Puxa, obrigada! Nem acredito!
- Você quer brincar comigo? O meu nome é Pedro.
- O meu, chomp, é Mariana.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Na Chuva

"I'm singin' in the rain, just singin' in the rain.
What a glorious feeling, I'm happy again." ♪♫ 

Fazendo girar o guarda-chuva, caminhava sem se importar com as frias gotas que lhe molhavam o terno amarfanhado. Ouvia a água bater no asfalto e estalar plec-plec no tecido negro, negro como o céu daquela noite pluvial. Dava uns poucos passos, ensaiava uma medíocre mas belíssima coreografia, até sapateava! Um Gene Kelly contemporâneo e embriagado. Ofereceu o braço à senhorita imaginária, vamos, vamos nos divertir. Ao chegarem a uma poça, estendeu o paletó, era cavalheiro. E ria, como ria, com todos aqueles dentes irregulares e brilhantes a exibirem-se, envaidecidos. Aspirou com vontade o perfume floral que emanava da ela abstrata. Cantou um bolero antigo, de que ele lembrava apenas o ritmo. Criava a letra na hora. Tomou-a para dançar, embalados pelo bolero inventado. Não, ele não dava a mínima para os olhares que condenavam. Aliás, não era uma plateia? Cantava e rodopiava, cambaleante, agarrado à cintura da bela dama. Súbito, viu as luzes vermelhas. Uns perturbadores pardos, que não tinham respeito algum a shows, interromperam o bailado. A força e voz, calaram o bolero. E ele foi para casa, sem parceira, sem tú eres mi dueña, amor, sem qualquer vestígio do bêbado encantador que foi até a chegada da polícia.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Acústico

Um rádio longínquo e mal-sintonizado mais chia do que toca. Barulho de colher e panela na cozinha. Um vento repentino que faz farfalharem as cortinas azuis do meu quarto. São esses os sons. Além, é claro, do risc-risc do grafite carbonizando no papel tudo (quase) aquilo que me passa na cabeça. É uma música antiga, gosto dela, mas não sei a letra nem lembro o nome. O ritmo leve me desvia totalmente do assunto  sobre o qual eu planejara escrever. Deixo-me levar pela melodia. Deixo que as palavras fluam, como estivesse psicografando a mim mesmo. É bom. Por um instante, penso que essa música poderia substituir ao menos um comprimido. Mas não. Daqui a pouco a música acaba. A música acaba e começa outra. Por que as coisas têm de mudar, meu Deus? Quando tudo está bem, alguém mete o dedo no botão do rádio e troca de estação. Ou então a música acaba. Ou, pior ainda, o rádio é desligado. Por quê? Começou agora a batida pulsante da música eletrônica, oposto total da suavidade anterior. O jantar está pronto. Carimbo na mente a única frase que consegui agarrar da música, fujona! Amanhã procuro a letra completa. Ou depois de amanhã. Ou depois. Sei lá. Onde está o equilíbrio?

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Chuva

"Energia dessa água sagrada,
que nos abençoa da cabeça aos pés." ♪♫

As gotas frias tamborilam no asfalto. O céu se veste momentaneamente de chumbo, e derrama a água que lava e purifica. Temporal de luz e cor. A névoa fina dança no balé vaporoso. Energia que desce do céu. Pisar em poças, abrir a boca, retornar à infância. Sem medo, vergonha ou pudor. Sem censura. Correr livremente, saboreando os instantes de renovação molhada. Sozinho, ou acompanhado de quem quiser. O ciclo que recomeça, mais uma vez. Tente. Experimente. Potencialize-se. Já tomou banho de chuva?

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Insônia

Pela quarta vez, eu me levanto. Ando em círculos, vou ao banheiro, ligo a televisão. Desligo a televisão. Ligo-a mais uma vez. Perdi a conta de quantos copos d’água bebi. Torno a me deitar, cubro a cabeça, aguardando impaciente que o sono venha. Mas ele não vem. A mente divaga - e de nada adianta eu contar carneirinhos. As costas doem, o corpo todo. Miro o relógio com olhar enfadonho. A sensação é a de que os ponteiros estão fixos, congelados. Congelado, é exatamente assim que o tempo me parece. Fico a esperar os segundos avançarem, os minutos, as horas... Mas não. Está tudo no mesmo lugar. A cama range, range de novo, e de novo, com o meu virar constante. Fecho os olhos. Quando penso que já foi uma hora, a decepção baixa como nuvem carregada. Apenas cinco minutos. Sento. Dirijo-me novamente à geladeira. Não, acabou o leite. Disseram-me que leite morno é bom. Droga, amanhã vou estar um caco. Posso ver de antemão os olhos vermelhos, o roxo das pálpebras, a curva das costas, o nada que será meu dia. Passa, tempo, passa! Não suporto mais ficar assim. Um tarja-preta, penso, far-me-ia bem. Borrões indefinidos de vida atravessam-me o crânio. É incrível como o cérebro insone acelera. Creio que faz de propósito. Justamente porque quero dormir, ele trabalha em potência máxima. Volvo ao colchão, implorando para que as garras de um sonho me agarrem para nunca mais. Meu Deus, tenho de acordar cedo, não renderei nada. Eu disse "acordar"? Quanta ironia! Rolo sobre os lençóis uma vez mais. Pi-pi-pi-pi. Pi-pi-pi-pi. Pi-pi-pi-pi. Invade-me um desejo louco de atirar o maldito despertador contra a parede. Levanto-me pela última vez. Agora é definitivo. Bom dia!

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Paisagem na Janela

"Da janela lateral do quarto de dormir
vejo uma igreja, um sinal de glória;
vejo um muro branco e no voo um pássaro;
vejo uma grade e um velho sinal..." ♪♫

É incrível ver como um universo inteiro possa caber aqui, em minha janela. Um teatro de opostos vem e se apresenta diante dos meus olhos. O sol bate de viés e ilumina cada detalhe. A emoção da criança ao apreciar uma bala; e a esperança morta do velho ao engolir um comprimido. O belo campestre feito de água, pasto e cavalo; e o cinza sempre cinza da fumaça e dos edifícios. O cantar dos pássaros que se converte na buzina frenética e irritadiça dos congestionamentos. A inveja da vida dos outros; afinal, tudo o que é bom não é meu. O desejo de quem sabe viver um grande amor. Mas hoje não sei se rola, é cada vez mais difícil, nesse tempo de modernos e futurismos. E é assim, inundado pela magnífica paisagem na janela, rememorando os fatos que ainda não vivi, que eu me pego confinado à fantasia cotidiana. Acredite você, cá estou, a dialogar com a melancolia, caminhando atrás do sarcasmo e perseguindo a emoção. Fecho as cortinas, é o Big-Bang ao contrário.