Eis-me aqui. Em barba, óculos, cueca e dor-de-cabeça. Um cigarro amassado no canto da boca, aceso querendo apagar. Uma babel de sons a reverberar lá dentro do crânio. E a vontade incontrolável de sempre, de transpor as palavras da nascente pro papel. A luz acesa, a geladeira aberta, o chuveiro pingando. Esses lapsos cotidianos; a gente sabe que tem de dar um jeito neles, mas a preguiça de sair debaixo do cobertor vence toda vez. Uma raiva familiar que vem do nada, uma raiva de mandar um foda-se para as coisas pequenas, uma raiva de tudo. De mim mesmo. De eu fazer coisas das quais me arrependo no dia seguinte, quando os flashes de memória vão voltando. Uma raiva de dicionários. Pra que palavras bonitas? O rosto da vida nem é tão belo assim. Daí o cobertor fica mais quente e a preguiça se mistura com a raiva e tudo vai-se tornando sono. Eu fecho os olhos, e o piscar vai-se tornando mais lento. Mais lento...
sexta-feira, 22 de abril de 2011
terça-feira, 19 de abril de 2011
Anatomia #1
Cotovelo: articulação sinovial do tipo gínglimo entre o úmero (braço), a ulna e o rádio (antebraço). Pode doer sobremaneira quando a gente vê outra pessoa com aquilo que nós desejamos.
sábado, 9 de abril de 2011
Factual
E eu me pego lembrando uma certa viagem. Viagem séria, coisa importante. Que decidiria o resto da minha vida. Lembrando as serras, a barriga gelada, a ansiedade extrema e, por fim, a recepção. Quem diria que no fim das contas eu ficaria por aqui? Olho esse céu de chumbo, olho esse ar agitado, olho a corrida frenética de gente e de carros e de vida. Ouço o som dos aviões aqui perto. Ouço o barulho da cerveja caindo no copo e dos ossos e dos músculos nas aulas de anatomia. A maratona de pega caderno, põe jaleco, tira jaleco, pega caderno de novo, empresta o livro de mil páginas, tira xerox e tira xerox e tira xerox. Esse vento frio que me entra no nariz, vai pra cabeça e pro peito; essas garoas tuas que chegam sem avisar e me pegam desprevenido toda vez, esqueci o guarda-chuva. Essa coisa verde que contrasta com o plúmbeo lá de cima; esse jeito de acolhida silenciosa, de museus e de jardins. Parecido com um álbum de fotos, fotos em preto-e-branco que vão adquirindo cor a cada passo, a cada volta dos ponteiros do relógio. Quem diria... Nessa lúcida maluquice cotidiana, imergi a mim mesmo. Pulei de cabeça. E olha que nem sei nadar! Mas que diferença faz saber nadar, se o que eu quero mesmo é me afogar nessas águas desconhecidas? Essas águas desconhecidas que me puxam para si com tanta força, tanta força...
terça-feira, 5 de abril de 2011
Convite
- Não.
- Por que não?
- Porque não quero, ué.
- Tem que ter um motivo.
- ...
- O motivo sou eu, né?
- ...
- Fale alguma coisa!
- Sim, o motivo é você.
- Eu sabia.
- Se sabia, por que perguntou?
- Queria ter certeza.
- Pois agora você está certo, tchau.
- Espera!
- Por que deveria?
- Você sabe que deveria.
- Sei, é?!
- Sabe. E sabe também que gosta de mim.
- Você só pode estar louco.
- Todos somos loucos, querida.
- Você é mais do que louco.
- E me orgulho disso.
- Orgulho? Onde estava com a cabeça quando atendi à sua ligação?
- Pare com essa cena. Você quer, eu sei.
- Escute: se você não passar aqui em meia hora...
- Isso é um sim?
- Meia hora!
Clique.
- Por que não?
- Porque não quero, ué.
- Tem que ter um motivo.
- ...
- O motivo sou eu, né?
- ...
- Fale alguma coisa!
- Sim, o motivo é você.
- Eu sabia.
- Se sabia, por que perguntou?
- Queria ter certeza.
- Pois agora você está certo, tchau.
- Espera!
- Por que deveria?
- Você sabe que deveria.
- Sei, é?!
- Sabe. E sabe também que gosta de mim.
- Você só pode estar louco.
- Todos somos loucos, querida.
- Você é mais do que louco.
- E me orgulho disso.
- Orgulho? Onde estava com a cabeça quando atendi à sua ligação?
- Pare com essa cena. Você quer, eu sei.
- Escute: se você não passar aqui em meia hora...
- Isso é um sim?
- Meia hora!
Clique.
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