Passaria o réveillon em casa, com as luzes apagadas. Comemorar o quê? Não gostava dessa coqueluche de ano-novo. Promessas de ano-novo, a ladainha redundante de emagrecer, pagar as dívidas, ser mais paciente e tudo mais. Foda-se que é o último dia da década, pensava. Ficaria deitado na cama quente, ouvindo qualquer coisa que não remetesse à festividade, com os fones estourando em altura.
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Podia ver as pessoas loucas pelos doze grãos de uva, pelas sete sementes de romã na carteira, engolindo apressadas um prato inteiro de lentilhas à meia-noite. Lembrou que ele próprio já fizera toda essa baboseira de ritual. Inclusive, na última passagem, vestira uma cueca vermelha. Amor. Mas outro janeiro batia à porta e nada de amor em sua vida. Se ao menos fosse... Não.
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Era triste no fim de dezembro. Não sabia lidar com a profusão de sentimentos dentro de si. Não era culpa sua, propriamente, mas seu ano nunca era como os dos outros. A grama do vizinho... Não que ele quisesse ser tão melancólico e pessimista; apenas era. Detestava passagens. Estava decidido: receberia o onze com escuridão, essa escuridão que lhe era tão familiar.
