sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Réveillon

Passaria o réveillon em casa, com as luzes apagadas. Comemorar o quê? Não gostava dessa coqueluche de ano-novo. Promessas de ano-novo, a ladainha redundante de emagrecer, pagar as dívidas, ser mais paciente e tudo mais. Foda-se que é o último dia da década, pensava. Ficaria deitado na cama quente, ouvindo qualquer coisa que não remetesse à festividade, com os fones estourando em altura.

...

Podia ver as pessoas loucas pelos doze grãos de uva, pelas sete sementes de romã na carteira, engolindo apressadas um prato inteiro de lentilhas à meia-noite. Lembrou que ele próprio já fizera toda essa baboseira de ritual. Inclusive, na última passagem, vestira uma cueca vermelha. Amor. Mas outro janeiro batia à porta e nada de amor em sua vida. Se ao menos fosse... Não.

...

Era triste no fim de dezembro. Não sabia lidar com a profusão de sentimentos dentro de si. Não era culpa sua, propriamente, mas seu ano nunca era como os dos outros. A grama do vizinho... Não que ele quisesse ser tão melancólico e pessimista; apenas era. Detestava passagens. Estava decidido: receberia o onze com escuridão, essa escuridão que lhe era tão familiar.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Qualquer data cabe.
Para quem quiser,

Sinto uma vontade tão grande, tão enorme, tão visceral. Eu preciso me entregar a alguma coisa que me leve completamente, que sugue minhas lágrimas de alguma forma, por Deus, definitiva. Quero me lançar em algum rumo que não tenha rumo, poder desfrutar meus vícios à vontade, sem ninguém que venha me levantar. Porque eu quero ficar caído. No chão. Entende? Cansei dessa babaquice de ser a pessoa perfeita, educada e cordata de quem todo mundo gosta. Eu quero é me afogar em mares de álcool, em chaminés de cigarro, em céus e em lábios – os de cima e os de baixo. Preciso ser, droga, ter a possibilidade de usar minha barba no comprimento que eu quiser, deixar a tampa do vaso levantada. Ninguém tem noção de como me encanta toda essa marginalidade. Essa marginalidade. Com o câncer e a cirrose eu me entendo depois, não preciso de gente cacarejando nos meus ouvidos. É isso que eu procuro. É isso que desejo. Eu tenho de ficar lá, rastejando, com bafo de cerveja e de tabaco. Por favor, não quero mais essa merda de vida. Merda. Vida.

Sem mais.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Criação

"Gastei uma hora pensando um verso /
que a pena não quer escrever." (Drummond)

Palavras, onde vocês estão? Era o que ele pensava, enquanto girava o lápis nos dedos e as gotas de suor brotavam-lhe aos montes na testa. Riu-se. Lembrou os versos de Drummond; escreva, pena, escreva! Sabia que qualquer coisa que rabiscasse no branco do papel somaria à tonelada de bolinhas no cesto. Merda! Acendeu um cigarro e fechou os olhos, pensando em tanta coisa boa que via por aí. Por que não conseguia fazer igual? Os outros eram tão bons, por quê? Tinha noção de que às vezes era prosaico demais. Comum demais. Mas será que não iria conseguir fazer alguma coisa que prestasse, nem que fosse só uma? Acendeu o segundo e apertou forte o lápis. Agora sairia. Aproximou o grafite da folha, mas deteve-se. Não dava. Tentou novamente, estancou. Terceiro cigarro. Foda-se, disse em silêncio. Desenhou um coração e deixou para escrever mais tarde.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Camboriú

O cheiro úmido e salgado atingia-me as narinas, e eu lembrava outros tempos, tempos fugidos que eu não poderia alcançar novamente. As ondas quebrando em muita espuma, verde branco verde branco. Areia quente. Então a vi. Um rabo-de-cavalo displicente a lhe cair pelas costas, sobre o roxo bem roxo da saída de praia. Belíssimas pernas, pernas estonteantes, que seguiam até findarem em ternos pés, cujas unhas eram pintadas de azul. Não, não consigo descrever a profusão de sentimentos pela qual fui tomado. Por Deus, era linda demais! E eu cá, a uns quinze metros, reles mortal metido numa bermuda e todo molhado de mar. Contemplei-a um instante mais, até que ela volveu o rosto à minha direção. Sorriu. Retribuí, exibindo meus dentes não tão brancos como os dela. Súbito, uma prancha passou por mim. Finalmente vi os braços do surfista envolverem a minha miragem. As duas bocas se encontraram. E eu, sentindo-me triste e tolo ao mesmo tempo, tive de me contentar com a visão do papai noel de dez metros de altura, que adornava, grave e vermelho, o calçadão da Avenida Atlântica.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Terminal

E de repente aquela menina me pareceu tão triste! No alto do seu metro e dez, balançando a mãozinha numa despedida silenciosa, os olhos caídos e sem brilho. De dentro da blusa azul-turquesa, ela dava adeus. Mirou o ônibus uma vez mais, e através do vidro viu outro par de mãos a acenar. Não devia ter mais de seis anos, mas dava a impressão de ter vivido sessenta de desencontros. Como pode, pensei, tão nova e já sofrendo tal golpe? O avô puxou-lhe a manga, vamos minha filha. E ela foi. Deu as costas para o coletivo e avançou tremendo. Tão triste... Ela me lembrou você.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Qualquer Lugar, 14 de dezembro de 1990.

Mijei sentado esta manhã. Foda-se o que vão pensar. Mijei sentado com um copo de cerveja, dourada como a urina que eu expelia. Fiquei lá na privada, com as lembranças vindo como formigas carregando folhas. Pensava na merda em que está chafurdada minha vida, e pensei até sair a última gota. Chacoalhei, e foi como tivesse chacoalhado a mente - desanuviou-se a cabeça e roteirei o dia. Vidro sobre mármore, na pia, manchas líquidas que me evocavam seus lábios. Não fique se martelando, eu também não sei. E tampouco faço ideia do motivo de eu estar escrevendo isto. Sabe quando você sente a necessidade? É claro, ninguém manda uma carta contando como urinou no dia em questão. Mas até que é bom você ficar sabendo. Assim, não vai poder começar o invariável discurso de como eu sou machista e aquela porra toda que você sabe que diz. É engraçado, mas depois de um tempo irrita. Enfim, é isso. Hoje eu mijei sentado.

Te amo.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Marlboro Gold

Quando a conheci, ela fumava. Pretexto, lhe pedi um. Senti aqueles olhos de vidro e de água sobre mim, e sorri - não tinha nada a perder. Ela abriu o box. - Tem fogo? Eu tinha, mas não o admiti. - Acende aqui no meu, disse-me rindo, como soubesse e quisesse. Pois soube e quis. Com a boca, aproximei o meu bastão do dela, já pela metade. Transferiu-se o calor e ambos passaram a mandar sinais de fumaça. Não me afastei; não nos afastamos. Caíram os cigarros e ficaram lá conversando, vozes plúmbeas e vaporosas. O sabor eterno do fumo, para mim, veio acompanhado de arrepios.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

No seu íntimo se escondem aqueles 
sentimentos incautos e sóbrios. 
Os ébrios, ah!, os ébrios você já me apresentou. 
Conheci-os nas horas derretidas 
em que nossas línguas duelavam 
no mesmo vão.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Percepção

Descia as escadas rolantes em êxtase, impressionado com a grandeza do lugar e com as luzes de natal. Tudo era tão... Os olhos brilhantes e as mãos ávidas por poder tocar em todo aquele fascínio. Cheiro de pipoca e farfalhar de sacolas. Virava a cabeça, apontava, sorria. Como era bonito! Por um instante se viu com um brinquedo novo, um jipe elétrico talvez. Uma bola de verdade. Ousou até ganhar um computador. Fechou as pálpebras, sorrindo. Anotou na memória a sinestesia que vivia. Quem sabe no futuro ele poderia... Tropeçou ao final da escada, o sapato ficara preso. Caiu. Chorou. Ouviu as risadas. Não, aquele mundo não era dele.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Vício

Dona Inês havia dito para o filho parar, onde se viu tomar tanto café assim, ia fazer mal. Na verdade, ela achava que já estava fazendo. Vitor não era mais aquele rapaz e, nos últimos tempos, estava inalcançável; quando alguém lhe falava, era arredio.

A mãe punha a bebida em condição de origem do transtorno do filho. Proibiu-o indeterminadamente de apreciar o singular líquido negro. Ele explodiu. Puta e vaca foram termos muita vez utilizados. A senhora ouvia-o, em pranto, e lhe pedia que se acalmasse, que tudo bem, o deixaria tomar café de vez em quando. Vitor não dava a mínima, atordoado que estava. Possuído, assim sua mãe descreveria ao esposo o estado do filho.

Vitor quase bateu na progenitora, "você não sabe de nada!". Impediram-no a ponto de fazê-lo. O pai barrara-lhe o gesto e a coisa agora era entre os homens. Dona Inês foi em choque para o quarto atirar-se na cama e esvaziar-se toda em choro. Dali a pouco, apagou.

Abrindo as pálpebras, viu o marido a afagar-lhe os cabelos. "Ele foi embora". Ela descerrou os lábios, mas não pôde dizer coisa alguma. "É melhor pra todo mundo", repetia seu Joaquim, tentando acreditar na própria voz.

Dona Inês era dura consigo, "a culpa é minha", o que tinha demais no fato de o filho ter uma inclinação para o consumo excessivo do café? Só que, perdido lá no meio do emaranhado de pensamentos, ela sabia que estava certa, vira na tevê um médico falando que café demais podia causar problemas psíquicos. E ela não podia deixar o filho enveredar por essa senda. Cada dia mais magro, sangue na vista, olheiras escavadas - olhos de defunto, dissera a vizinha -, ele não conseguia não entornar uma garrafa completa por dia. No mínimo. E sempre trancado no quarto. Mas a proibição fora um revés. "Para onde ele foi?", perguntou, chorosa. "Não sei, querida", proferiu o marido, torcendo para ela crer.

Passou tempo, e ninguém na casa se atrevia a pronunciar qualquer vocábulo que remetesse aos acontecimentos. Dona Inês passava os dias vertendo lágrimas, em súplica silenciosa, "onde está meu filho, onde está meu filho?". Ela logo teria a reposta tão desejada. Meio mês mais tarde, o casal recebeu a notícia de que um corpo havia sido encontrado nas imediações da igreja de São José. Estava, agora, no IML. O único documento que havia delatava a filiação do cadáver. Foram reconhecer. À retirada do lençol, dona Inês cambaleou. O nariz do morto estava preto, com as veiazinhas rompidas e podres. "Crack", informou o legista. "Há bastante tempo". O marido tentava consolá-la, "fui injusta! é minha culpa! não era o café!"; e, ao mesmo tempo, conter seu próprio desespero. Ficaram aprisionados nos fatos, desnorteados. Até que os retiraram para uma sala contígua.

Após os trâmites e a óbvia confirmação de que o rapaz era de fato Vitor, uma funcionária chegou com um sorriso polido e pesaroso e uma bandeja nas mãos. Desprendia-se um vapor dançarino que rodopiava no ar. "Eu sinto muito. Os senhores aceitam um café?", perguntou educadamente. E, a não ser seu Joaquim, ninguém entendeu o motivo de Dona Inês súbito gritar um "não" desumano e cair inerte no piso azulejado, imaculadamente limpo.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Semáforo

- Droga, eu falei pra procurar as chaves depois. Olha aí, tá fechado.
- Calma, amor, é rápido.
- Rápido... é porque não é você quem está dirigindo. E esse ainda é daqueles de não sei quantos tempos.
- Relaxa, bota uma música e curte o momento.
- Curtir o momento?! Com essa porra de sol na cara e, pra completar, filtro de ar mais sujo que...
- Ai, amor, você tá muito estressado. Precisa de férias.
- É claro, vai dizer isso pro meu chefe!
- Credo, Rô! Já vi que hoje não tá dando pra conversar.
- E essa merda de sinal que não avança!
- Ficar nervoso só piora as coisas. O tempo é relativo. Tudo é relativo. Newton disse isso, não foi Newton?
- Não, meu Deus, foi Einstein. Ou Bohr. Ah, sei lá! Dá pra ficar quieta?
- Escuta aqui: não pensa que pode falar assim comigo! Não pode, ouviu?
- Tá, tá, chega!
- Mas você tá um porre mesmo hoje, hein? Te contar...
- E você não cala essa boca, Jesus! Não consegue...
- Rô...
- E ainda por cima quer me interromper...
- Rodolfo...
- Fica quieta!
- Os carros, Rodolfo!
- Mas o que é que têm os carros, droga?!
- Abriu, Rodolfo.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Mordimento

Na pia, a costumeira anarquia de objetos. Imersa na água espumenta, a escova morta. Amarela, cerdas macias, ainda com resquícios do gel dental azul com sabor de menta americana. O sabonete obstruía o ralo. Meteu a mão na massa mole e escorregadia e lavou a cara. Saiu sem se secar. Ao passar pela sala, pisando no macio tapete ornado com motivos orientais, sentiu a pontada familiar de nostalgia e arrependimento. Gostaria de retroceder no tempo, fazer com que as coisas acontecessem de outro modo. Mudaria, contudo, se o calendário voltasse? Ele mesmo tinha dúvidas se não faria tudo igual. Pediu perdão em silêncio, agora enxugando o rosto com a camiseta. Dirigiu-se à janela, e as recordações não cessavam. Palavras duras, soltas quase sem querer. Brilho metálico. Lágrimas. Viu o rosto em pranto, "por quê? por quê, meu filho?". O sol se desescondeu e incidiu em cheio no rosto dele. Foi bom. Vislumbrou as bolinhas vermelhas e vinho destacadas contra o mar de verde, lá fora, e sentiu a salivação. Foi colher as acerolas. Era a fruta preferida da mãe.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Horizontais

Na cama quente
Eu e você
Entrelaçados
Eu e você
Amores loucos
Eu e você
Delírio, breu
Você e eu

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Putrefação

Sinto-me como estivesse apodrecendo. Não por fora; mas lá dentro. Corroem-me os menores problemas, e eu sei que não devia ser assim. Pode ser uma fase, pode ser eterno, pode ser tudo. Ou nada. Eu não devia ser tão mesquinho, o nome disso é mesquinhez? Ou será que minha expectativa foi tanta que a realidade não deu conta de alcançá-la? Depois, fico remoendo argumentos, na decomposição fétida e lenta que acaba comigo. Dia após dia, vejo as cores de tudo. Olhos que brilham, mas, lá no fundo...  Lá no fundo, meu interior vai ficando putrefato.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Curitiba

Elucubrações românticas de um vestibulando.

À subida das serras, eu fantasiava toda a sorte de cenários, vislumbrando ambientes surreais, oníricos, com a ansiedade percorrendo meu corpo a Mach 3. Chega logo, eu pensava. E por fim cheguei. Curitiba me recebeu altiva, numa noite tão noite que pululava de estrelas no céu e no chão, estrelas caídas. Ao descer, inundei-me com o ar frio carregado de saúde e de letras. Era ali, sim era ali que eu teria de ficar. Nas esquinas e travessas, me deparava com Paulos e Helenas e Daltons, cujos amores, histórias e poesia não tinham e não têm fim. A Botânica, o Passeio, a Ópera. Cada vez era maior a certeza de que não poderia ser outro lugar. Queria ser médico, queria ser vampiro, queria ser marginal. Contemporaneidade. Envolver-me na caçada, buscar a cidade perdida; quem sabe alguém a encontrasse. Um ligeiro sol mostrou sua figura, apenas para conferir aquele punhado exato de luminosidade à paisagem que se exibia ante meus olhos. O sol cansou e começou aquele véu de noiva de neblina fina, tão convidativo a uma sopa com queijo e uma xícara de café. Foi assim. Avaliado estive e avaliei também. E despedi-me do meu utópico objeto de lar futuro, desejoso de voltar e quedar-me ali até não sei mais quando.

sábado, 13 de novembro de 2010

Lapsos

Ela briga comigo por conta da pasta de dente destampada; do tapete revolvido; das meias e cuecas jogadas em qualquer canto; do fogão sujo de queijo; dos chinelos revirados; de eu tomar as coisas direto na jarra; da tampa da privada com um ou dois pingos de urina. Se a pego de surpresa no banho, porém, ela ignora esses meus defeitos. E, quando caímos entrelaçados na cama, ela nem mesmo coloca reparo na toalha úmida que sempre esqueço sobre o lençol.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Descoberta

- É um maço de cigarro, não tá vendo?
- Claro que é cigarro, Renata. Quero saber o que está fazendo na sua bolsa.
- Vai lá, inteligência rara: três chances pra você adivinhar.
- Não fale assim comigo. Apesar de você parecer não se lembrar, eu sou seu pai.
- Ah, não. Pode parar por aí. Não aguento mais ouvir seus sermões.
- Se você não gostasse de ouvir, não faria o que faz.
- Ah, é?! E o que é que eu faço de tão medonho?
- Minha filha, você anda por aí bebendo, com essas roupas de mulher que não tem respeito. E agora deu para fumar? Por quê?
- Ora essa, fumo porque quero. Agora vaza, me deixa em paz.
- Você não imagina o desgosto que está dando à sua mãe, que Deus a tenha. Ela não suportaria te ver fumando.
- Desgosto?! Hahaha, mamãe fumava escondida! Só você que não sabia. Aliás, foi ela quem me deu meu primeiro cigarro. Lembro bem, era um Marlboro vermelho.
- Santo Deus, isso é verdade?!
- É, pai, é verdade. Agora vai, será que você vai embaçar só por causa de um maço de cigarro?
- Sua mãe fumava... como eu não percebi?
- Ela sabia não deixar pistas. Eu tinha muito a aprender com ela.
- Ela fumava...
- Tá bom, pai. Vai digerir a informação lá embaixo. Não estou com paciência pra lamuriações sobre descobertas. Além do mais, ainda tenho vários Caribe a tragar.
- Caribe? É aquele de menta?
- É, por quê?
- Deixa eu experimentar?

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Garimpo

Concebido num providencial tempo livre.

Ele não sabia o porquê, mas quando chovia era diferente. Ouvia as gotas baterem no chão e sentia aquele cheiro tão único da água do céu que desce para lavar a terra. Não por acaso, a chuva era presença constante nos pequenos emaranhados de palavras delirantes, seus escritos. A chuva despertava coisas que não têm explicação, dizia. Pegou a garrafa e serviu-se de uma xícara de café, ao qual acrescia quase sempre uma ou duas doses de gim. Sentou-se à mesa de trabalho, com o murmúrio do choro celeste a ecoar alegremente nos ouvidos. Em suma, não havia nada de muito interessante na vida dele, a não ser a faísca de urgente lucidez quando rabiscava as ideias no papel. Era assim, normal. Gostava de quase tudo e não gostava de nada. A chuva era paixão, era tema recorrente, mesmo com a possibilidade nada remota de ser tachado (e de fato era) redundante que não tem outra coisa a lançar mão. Não se destacava dos demais; convenhamos, não se encontra por aí um diamante oculto no cascalho todo dia. De fato, ele não era diamante. Em contrapartida, era um cascalho dos bons. Daqueles que aprenderam a se deixar arredondar, melhorando sempre, pela força do tempo e da água. Água da chuva.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Lemniscata

Lembra a gente estudando matemática? Você me dizendo coisas impossíveis sobre álgebra e funções, e eu com a cabeça a flutuar por todos os lugares em que não houvesse números. Você me disse ei, não tá prestando atenção? e eu finalmente prestei. Prestei atenção à sua boca pronunciando aquelas coisas ininteligíveis, mas que me pareciam tão belas aos ouvidos. Seus dentes brilhavam. Você me olhou com aquela cara tão sua que trazia uma miscelânea linda de repreensão e riso. Não tá me ouvindo, né? Não sei por que ainda insisto em tentar te ensinar alguma coisa, seu bobo. Olha, o conjunto-solução é o intervalo de menos infinito a mais infinito. Desenhou-me o oito deitado, o lemniscata, naquele traço contorcido que não acaba nunca. Infinito. Naquele dia, véspera de prova, fim de ano, eu não aprendi coisa alguma de matemática. Mas você conseguiu me ensinar algo. Infinito. Naquele dia eu conheci o infinito.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Flash

Recorrente e redundante.

Ouço o som do All Star pressionando os pedregulhos e desejo que esta sensação não finde nunca. Eternamente embriagado, seria eternamente bom. Sigo, sigo andando, braços e mente abertos, sem quaisquer preocupações frívolas que me possam dizer respeito. E que o amanhã demore. Demore bastante. Para que a dor-de-cabeça da ressaca e da normalidade me atinja o mais tarde possível.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Divã

Sabe, doutor, a verdade é que não sei porque estou aqui. Vi sua placa e fui tomado por uma coisa que não sei definir. Mas cá estou, não é? Então. Tá tudo tão difícil, doutor, o senhor nem imagina. É discussão, briga, dívida, e eu não faço ideia de como sair desta situação. Meu único refúgio são os livros. E meus únicos amigos ultimamente têm sido Nietzsche, Rimbaud e Freud. Freud é conhecido seu, não é, doutor? Desculpe. O fato é que preciso dar um jeito nisso. Não aguento, não aguento. Minha mulher nem imagina o turbilhão que destrói minhas poucas seguranças. Nesse momento ela deve estar lá em casa, esbravejando, onde diabos eu estou, e que vai queimar todo aquele monte de papel inútil. Palavra não paga conta, ela diz. Isso dói. É, doutor, não é nada fácil. Estou com toneladas de problemas a me esmagar a mente. Creio que estou ficando louco. Acho que já estou. Ah, meu Deus, seria muito engraçado, se não fosse essa merda que é. Desculpe, doutor, saiu sem querer. Preciso sumir, sabe, é isso. Esquecer um pouco essa porra de vida que desce pela garganta qual comida fria. Eu sei, doutor, vou tentar me controlar. Quem dera eu pudesse ir-me embora pra Pasárgada e ser amigo do rei. Mas chega dessas baboseiras literárias, estou cansando o senhor. Acho que não devia ter vindo. Veja o senhor, há anos que eu não chorava. Esqueça. Esqueça-me. Não, doutor, eu é que peço desculpas. Definitivamente, não devia ter vindo. Adeus. Adeus, doutor. Vou lá tomar mais um copo dessa cerveja choca que é a minha existência.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Diálogo

Poesia, cara?
Métrica clara.
Estupidez rara.
Vá pro diabo que o carregue!

sábado, 16 de outubro de 2010

Ruptura

Um sábado esquecido de 1990.
 
Enrolado recém-nascido no cobertor, ele jazia indiferente numa noite chuvosa. Estava consciente, por quê? Uma xícara inacabada de café e meio cigarro ardendo sobre o assoalho. Um livro aberto sobre o peito. Nietzsche mais chuva é bom. Não é? De vez em quando, assoava o nariz, maldita alergia! Olhava o catarro verde-amarelo com ar divertido, ou algo parecido com diversão. Não tinha nojo. Bebeu mais um gole do líquido negro, frio, que seja. Deixou o Ecce Homo definitivamente de lado. E, esforçando-se sobremaneira, libertou-se da morna prisão de lã. Não gostava das vicissitudes da vida, elas eram por demais inoportunas. Se bem que no fundo, bem lá dentro daquilo que chamam de consciência, ele sabia que a coisa toda era culpa dele. Lavou a cara, olhou-se no espelho do pequeno banheiro inundado pela luz cor de âmbar. Viu dois olhos opacos, um nariz sujo de catarro - droga de alergia! - e uma boca mais risco do que boca. Pegou a toalha vermelho-sangue com pulso duro e esfregou-a com força no rosto, quem sabe ela mudasse algum traço naquela tela assimétrica. Rindo pela primeira vez, lembrou-se de quantas vezes havia se masturbado naquele lavabo mínimo. Homenagens prestadas. Eufemismos. Afastou as reminiscências, hoje não queria ser nostálgico. Nostalgia infame, essa. Apagou a luz. Apanhou o cigarro do chão da sala e sorveu a última gota que descansava no côncavo da xícara. Pensou em Brigitte, como é mesmo o nome verdadeiro dela? Brigitte... Na sua transformação menino-homem, a francesa de mentira ocupava papel de destaque. Não gostaria de entregar-se assim às memórias, mas via que era ineficaz. Dirigiu-se à varanda e deixou-se lavar o corpo. Por que não a alma? Desatou a correr pela grama, louco, feliz, inexplicável, inesperado. Foda-se tudo, pensou. Promoveria a própria vicissitude. A vicissitude do ser. Estava acostumado com a melancolia acompanhando-o diariamente. Mas hoje não. Hoje não.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Tentativa

A preguiça me consome, mais voraz do que nunca, e eu me pergunto por que diabos ainda insisto nessa merda de conto, sabendo que ele não vai acabar. Por que continuo fritando os miolos, esperançoso, em vez de dar uma trepada, sentindo os tremores deliciosos e ouvindo os gemidos cadenciados dela, que me enchem de tesão. Essa maldita fixação que tenho pelas palavras, droga! É forte, deveras forte. O lápis trêmulo na mão, ansiando por concluir o inconcluível, quando eu queria mesmo era apagar. Apagar a mim mesmo e apagar a chama fulgurante daquele corpo. Eu já me disse para esquecer os números. Esquecer. Deixar que as coisas venham quando tiverem de vir. "Vai, bota um fone no ouvido e relaxa, seu idiota. Larga mão de ficar esquentando com uns rabiscos de grafite sobre o papel!". Mas não consigo concordar com a consciência. Sei o que é melhor; sigo no que acaba comigo. No que me mata. Ah, que vontade de roçar a língua naquelas curvas! Provar cada arrepio, cada mínimo suspiro de prazer. Só que as palavras me prendem, essas vadias. Essas vadias que me são imprescindíveis para viver. Desejo, tara, obsessão. Qualquer nome cabe, e não cabe nenhum nome. Tem um quê de visceral que foge ao meu entendimento. Sei apenas que é assim. Sim, é contraditório. Antitético. Amo as palavras. Odeio-as. Elas me aproximam e afastam da minha fonte, tão sempre fonte. Quero beber. Quero gozar. Quero escrever. Quero parar. É sempre indagação inútil.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Viagem

Na biblioteca escura, a única luz era proveniente do globo iluminado, analisado atentamente pela garotinha. Aqui é a França, da Torre Eiffel. Sempre que via fotos da imensa estrutura férrea parisiense, ela se imaginava lá em cima, contemplando a magnitude da cidade-luz. Tem o canal da Mancha, depois é a Inglaterra. Ela vira muita coisa sobre a terra da rainha. Fantasiava os chás, os ônibus vermelhos, as cabines telefônicas e, sobretudo, era fixa a ideia do Big Ben parado. Seria divertido. Ou caótico. A gente vai mais pra lá, daí tem a Suíça. Duas coisas: um Rolex e os chocolates. Apenas. Agora desce um monte, e chega na África do Sul. Lá tem diamantes e marfim, ela ouvira falar. Quem sabe quando fosse mais velha. Vai pra direita mais um tanto, e para na Austrália. Ela vira a foto de um coala, que lindinho!, um dia ela teria um coala. Girando e girando o globo, atravessou o planeta inteiro. Perdeu-se, alegre e triste, em lembranças, datas, imagens, sonhos, até que chegou ao Brasil. Pronto, estou no Brasil. Estou aqui. E agora? E agora? Mal sabia que aquele 'e agora?' seria presença constante por toda uma vida. Coitada, tão novinha e já fadada a crescer em meio a crises. Apagou o globo, sentou-se na imensa cadeira de couro. Era grande demais para ela. A cadeira e todo o resto. Tudo era grande demais.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Processo

SENTIR
S A  N   G    R     A      R
IMAGINAR
A S S O M B R A (R) E N A S C E R
BUSCAR
COM  -  PLETAR 
V I V E R
crescer
AMAAAAR
ESCREVÉR
            TRANSCENDER

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Recompensa

A joaninha sobe obstinada pela verde haste da rosa, escalando os acúleos com determinação. Cai. Recomeça a trajetória. Outra queda, novo reinício. Suas anteninhas trêmulas captam o pungente aroma que vem de cima. Está lá, ela sabe. Arrasta suas bolinhas, sempre ascendendo. Chega, enfim, à corola avermelhada, onde delicia-se com o dulcíssimo néctar, nutritiva recompensa pelo não-esmorecer.

domingo, 3 de outubro de 2010

Sorvete

- Eu quero chocolate e baunilha.
- Saindo uma casquinha de chocolate e baunilha pro campeão aqui!
- É casquinha de chocolate, né?
- Claro, Pedrinho, eu sei que é a sua favorita!
- Obrigado, seu Antônio!

...

- Ei, menina, você não gosta de sorvete?
- Gosto, mas minha mãe disse que ela não pode comprar. Esse aí tá gostoso?
- Aham, é de chocolate e baunilha.
- Meu sabor preferido é chocolate. Eu queria tanto um sorvete!
- Mas a sua mãe não pode mesmo comprar?
- Não. Ela disse que não dá pra ficar gastando dinheiro com bobagem. Eu queria tanto.
- Quer um pouquinho do meu?
- É sério?!
- Aham, pode ficar com tudo.
- Puxa, obrigada! Nem acredito!
- Você quer brincar comigo? O meu nome é Pedro.
- O meu, chomp, é Mariana.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Outubro

"Mas se eu tiro do lamento um novo canto, outra vida vai nascer. Vou achar um novo amor, vou morrer só quando for. A jogar o meu braço no mundo, fazer meu outubro de homem, matar com amor essa dor. Vou fazer desse chão minha vida, meu peito é que era deserto. O mundo já era assim." ♪♫

Milton Nascimento

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Na Chuva

"I'm singin' in the rain, just singin' in the rain.
What a glorious feeling, I'm happy again." ♪♫ 

Fazendo girar o guarda-chuva, caminhava sem se importar com as frias gotas que lhe molhavam o terno amarfanhado. Ouvia a água bater no asfalto e estalar plec-plec no tecido negro, negro como o céu daquela noite pluvial. Dava uns poucos passos, ensaiava uma medíocre mas belíssima coreografia, até sapateava! Um Gene Kelly contemporâneo e embriagado. Ofereceu o braço à senhorita imaginária, vamos, vamos nos divertir. Ao chegarem a uma poça, estendeu o paletó, era cavalheiro. E ria, como ria, com todos aqueles dentes irregulares e brilhantes a exibirem-se, envaidecidos. Aspirou com vontade o perfume floral que emanava da ela abstrata. Cantou um bolero antigo, de que ele lembrava apenas o ritmo. Criava a letra na hora. Tomou-a para dançar, embalados pelo bolero inventado. Não, ele não dava a mínima para os olhares que condenavam. Aliás, não era uma plateia? Cantava e rodopiava, cambaleante, agarrado à cintura da bela dama. Súbito, viu as luzes vermelhas. Uns perturbadores pardos, que não tinham respeito algum a shows, interromperam o bailado. A força e voz, calaram o bolero. E ele foi para casa, sem parceira, sem tú eres mi dueña, amor, sem qualquer vestígio do bêbado encantador que foi até a chegada da polícia.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Pedido

"Quando eu não estiver por perto,
canta aquela música que a gente ria.
É tudo que eu cantaria e, quando
eu for embora, você cantará." ♪♫

É tão triste ver você agarrada ao velho portarretrato, chorando e chorando e se perguntando o porquê. Quem dera eu pudesse explicá-lo. Quem dera você pudesse me ouvir. Mas aqui estou eu, confinado a vagar sozinho até não sei mais quando, até que um dia eu reecontre a moça que está tão radiante naquela foto. Foi um dia maravilhoso, não foi? Seus olhos brilhavam um brilho castanho-esverdeado, e seu sorriso estava mais lindo do que nunca. E lá estávamos nós, posando exibidos para as lentes. Ah, se o tempo congelasse! Não chore assim, dói demais ver suas lágrimas molharem a superfície fria do vidro, atrás do qual está o registro daquele dia perfeito. Isso, cante, cante, isso mesmo! Aquela música, a nossa música. Lembra como ríamos, gargalhávamos, tolos, bregas e apaixonados? Cante - enquanto você canta eu estou com você. Eu daria o que não tenho para que nos tocássemos mais uma vez. Para que eu visse novamente sua pele arrepiada com o meu cantar desafinado ao pé do ouvido. Sinto sua pele, sinto você, para sempre, embora eu não seja mais que uma coleção de fotografias e lembranças em sua mente. Mas tenha calma. Um dia nós nos teremos de volta. Até lá, não pare de cantar, por favor, não pare. Como eu queria que me visse! Cante, isso, isso, cante...

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Menta

"Fiz um drops de hortelã da bala que eu te dei,
para atirar o porém da frase que eu nunca fiz"

 A bala ia-se derretendo e a refrescância pungente impregnava a língua da mulher. Chupava sempre as balas de menta. Talvez para atenuar qualquer fumo ou álcool teimosos que permanecessem na boca. Ou para melhorar o hálito e agradar os velhos nojentos que lhe roubavam de si própria toda noite. Aparência é aparência. E não podia ser outro sabor. Recusava a cereja e o tutti-frutti, o morango e a banana. Tinha que ser menta. Fora o último gosto que dividira com o primeiro e único amor, já sepultado, numa disputa apaixonada pela bala, que perambulara lá e cá no vão das bocas coladas, entre dentes e firmamentos e saliva. Era o que restava daquele beijo derradeiro, antes de ele voltar a casa e nunca chegar. Chuva e carro não combinam. Ela vencera a disputa, ficara com a bala - a finíssima lâmina açucarada que quase nem era mais bala. Desde então, a menta confortava-a e a fazia lembrar dele, enquanto se submetia ao repugnante desconforto cotidiano. Agora ela colocava cor nas faces, e já desembrulhava mais uma companheirinha verde. Gostava do barulho do plástico se contorcendo, estalando. Coloriu os lábios de escarlate, um escarlate meio velho, ajeitou a meia preta gradeada como rede, rede de pescador. Ele disse-lhe que era pescador. Dançou a bala na boca e pensou nele novamente. Calçou os sapatos, vermelhos e muito altos, e apagou a luz. Finalmente, misturando fumaça e hortelã, seguiu relutante em direção ao dever indesejado, deixando o rastro etéreo e cinza, que se dissolvia bailando no ar atrás de si.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Acústico

Um rádio longínquo e mal-sintonizado mais chia do que toca. Barulho de colher e panela na cozinha. Um vento repentino que faz farfalharem as cortinas azuis do meu quarto. São esses os sons. Além, é claro, do risc-risc do grafite carbonizando no papel tudo (quase) aquilo que me passa na cabeça. É uma música antiga, gosto dela, mas não sei a letra nem lembro o nome. O ritmo leve me desvia totalmente do assunto  sobre o qual eu planejara escrever. Deixo-me levar pela melodia. Deixo que as palavras fluam, como estivesse psicografando a mim mesmo. É bom. Por um instante, penso que essa música poderia substituir ao menos um comprimido. Mas não. Daqui a pouco a música acaba. A música acaba e começa outra. Por que as coisas têm de mudar, meu Deus? Quando tudo está bem, alguém mete o dedo no botão do rádio e troca de estação. Ou então a música acaba. Ou, pior ainda, o rádio é desligado. Por quê? Começou agora a batida pulsante da música eletrônica, oposto total da suavidade anterior. O jantar está pronto. Carimbo na mente a única frase que consegui agarrar da música, fujona! Amanhã procuro a letra completa. Ou depois de amanhã. Ou depois. Sei lá. Onde está o equilíbrio?

terça-feira, 21 de setembro de 2010

o
eu
que
há em mim
não é capaz de
entender aquilo que
lava um oceano inteiro
no belo eu que há em você.
naquele mesmo eu que há
em mim, existe uma,
só uma gota

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Encontro

As luzes dos postes passavam em intervalos mais ou menos regulares, à medida que ele avançava em sua trilha solitária. O barulho do vento, as pisadas no asfalto, as batidas do coração. O negrume da noite envolvia tudo e ele andava sem rumo, movido por um súbito e estranho ímpeto. O único que sabia era a necessidade de caminhar. Para onde, ele ignorava. Martelava sua mente um comando. Ande, apenas isso. Talvez não houvesse causa. Volveu os olhos ao firmamento – bela palavra essa, firmamento – e contemplou a lua, circundada por um halo multicor. Tropeçou. Concentrou-se novamente no caminho; os cadarços desamarrados, como sempre. Quando deu por si, viu a grade carcomida e enferrujada dos portões do cemitério. Ele não havia, pelo menos não de forma consciente, planejado ir até a morada dos mortos. Mas, já que ali estava, entrou. Nunca se imaginara naquele lugar àquela hora, e sentiu uma torrente de adrenalina percorrer-lhe o sangue. Gostou da sensação, da mórbida mistura de satisfação, medo e outros temperos que conferiam um sabor agridoce à tão ímpar experiência. Encontrou a enorme cruz. Não mais controlava as ações. Estava tomado por algo inexplicável. Confuso, fúnebre e divertido – tudo ao mesmo tempo. Ajoelhou-se. Disse de si para si coisas ininteligíveis. Por fim, encontrou uma defunta estonteante. Ei-lo, o motivo. Destino, talvez? Ele conversou, riu e amou a noite inteira. Depois, ao primeiro clarão solar, deixou velas e lápides para trás. Descarregara a tensão. Seria loucura?

domingo, 19 de setembro de 2010

Domingos

Era o seu casulo doméstico. A tevê ligada naquele velho programa dominical, a chuva banhando tudo lá fora, e o cobertor devorando-a num abraço quente. Os olhos sem vida, repetindo metodicamente o que acontecia todo final-de-semana. Não gostava de pessoas. Tinha medo delas. Vez ou outra, as mãos se moviam e pressionavam o botão do controle remoto. Tudo automático. O batom borrado, o preto nos olhos, ali estava. Inútil. Acompanhada de solidão numa tarde de domingo. Chove mais, ela pensava. As gotas cadentes e o frio despertavam-lhe algo mais ou menos próximo da felicidade. É claro que ela imaginava como seria se fosse diferente. Embrulhava-se mais no cobertor e o pensamento esvanecia. Repudiava ímpetos de motivação e qualquer coisa que pudesse fazê-la sentir-se melhor. Ela sabia que era uma vergonha. Que sua vida não fazia nem faria diferença. Que ela nunca voaria mariposa. Marlboro Red perdido nos lábios, esperava os ponteiros girarem, implorava que girassem rápido. Envolta no calor felpudo, inexpressiva. Um dia o fim chegaria, com certeza. Quanto mais cedo, melhor. Odiava a própria estagnação, a medíocre droga da metamorfose não-concluída. Mas não era capaz de acabar com tudo sozinha. Esperava, então, o momento, no ritual invariável da clausura. E seguia assim. Apenas uma lagarta.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Ébrio

É     B     R     I     O

B            O            I

R     O     D    A     R

I             A           B

O     I      R     B    É

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Queda

Num único olhar
Você me conquista
Imune não sou
Ao seu golpe de vista

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Catar Feijão

A João Cabral de Melo Neto.

Se catar feijão se limita com escrever,
Comê-lo se limita com a leitura
Mastiga-se, engole-se as palavras
Os meandros cerebrais são análogos ao tubo digestivo
No fim, para uns, ficam os nutrientes, a energia!
Para outros, não há absorção;
Há apenas fezes.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Algum Lugar, 23 de março de 1990.
Querida,
    Sabe, já pensei em ser mais cavalheiresco, dizer eu te amo, expressar meus sentimentos, oferecer ajuda pr'aquelas coisas que você diz não conseguir fazer. Já pensei em tudo isso. Mas acontece que, se eu o fizesse, não seria eu. Você sabe que eu tenho essa casca grossa, que minhas mãos ásperas não fazem carinho da forma que você deseja. É meu jeito de ser, querida, não que eu queira ser assim. E - eu sei que você sabe - até esse "querida" está sendo dificílimo para mim. Talvez por isso eu só consiga dizer o que estou dizendo por meio escrito. As palavras sempre foram minha válvula de escape, a única forma de eu dar vazão ao que acontece lá dentro. E, sim, eu sei que já troquei você por essas minhas companheiras, inúmeras vezes. Sei que fui ausente. Me desculpe. Peço-lhe, agora (se é que estou em condições de pedir algo), não que aceite, mas que perdoe tal ausência minha. E que, quando ler isto aqui, saiba que estou lhe falando a verdade, apenas não sei demonstrar meu amor. Não demonstrar é diferente de não sentir. E eu sinto tanta coisa... Tanta coisa...
Difícil, mas carinhosamente,
do seu.

domingo, 5 de setembro de 2010

Autocrítica

Tudo bem, eu sei que minhas tentativas de piada não foram bem-sucedidas. Mas fico feliz em ver você rindo delas, apenas para não me constranger. Você é tão... Sim, eu tentarei parar de criticar meus próprios gracejos; não mais diminuir a mim mesmo. Você disse “não seja tão autocrítico”. Mas é involuntário. Sempre haverá um defeito que eu sentirei a necessidade urgente de corrigir. Gosto de sua confusão com as minhas brincadeiras, não sabendo se falo a verdade ou o oposto do que estou dizendo. Confusa e linda. Não se incomode com meu perfeccionismo, ele vem automático. E prometo que tentarei desusar o sentido figurado, ou qualquer jogo de palavras que te confunda ainda mais. Saiba, porém, que é magnificamente bela a idéia de você com o cenho franzido tentando decifrar o obscuro das minhas palavras. Não me queira mal por isso, por gostar de te ver confusa. De fato, é belíssimo. E, como disse, não consigo evitar.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Angústia

Droga de espera que não finda! Pungente. Pesada. Terrível. A mente produz toda sorte de desfechos, de possibilidades, de trajetos. Serei ou não punido? Serei ou não punido? Qualquer castigo é melhor que essa incerteza.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Nostalgia

"Prefiro o clássico de um vinho tinto.
Abaixo o novo padrão e sua glória." (G. F. Jarbas)

Ele se perguntava se toda a sua felicidade compor-se-ia de imagens congeladas e fragmentos de coisas acontecidas. Se ela seria apenas a síntese dos indeléveis momentos já vivenciados. Por que não havia a empolgação com o agora ou a ansiedade receosa do amanhã? Por que parecia que as únicas coisas boas - incluindo música e gente - eram de tempos anteriores? Talvez nascera na época errada. Ah, se pudesse voltar algumas décadas! Gostava do preto-e-branco, de vozes esquecidas, de velhas tradições. Sentia-se deslocado. Mais, sentia saudade de algo que não vivera. Uma espécie de déjà vu abstrato. Como isto se explica? Não conseguia entender, em absoluto. Todos os seus verbos conjugavam-se no pretérito.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Camuflagem

"Rapte-me, camaleoa.
Adapte-me ao seu ne me quitte pas." ♪♫

Definitivamente, ela era mestra. Multifacetada, sabia que rosto usar em cada situação. Não demonstrava fraquezas - a não ser quando elas eram falsas e revelá-las fazia parte do jogo. Sem contar o hiato que havia entre ela de dia e a Brigitte noturna. À noite, ela se transformava. Transformações eram sua especialidade. Houve um dia, porém, em meio ao seu teatro francês, no qual ela se percebeu transparente. Visível na essência. Sentiu que aquele, então, não era alguém comum. Ele a via. E via de modo completamente distinto de todo os outros que já estiveram nos seus braços. Nesse dia, banhada em suor, o batom borrado, ela soube que não mais precisaria se esconder. Súbito, toda a sua coleção de máscaras caiu e desfez-se em vários pedaços. Ali estava ela, animal indefeso. Pelo branco contra mata escura. Os dotes camaleônicos já se tornavam falhos. Numa estranha combinação de fatores, num momento igualmente estranho, embalada pelo desagradável som dos gemidos do quarto vizinho, ela se mostrava por inteiro. Ela era feliz. Pela primeira vez.

sábado, 28 de agosto de 2010

Ironia

"O bloco de notas me encara, incisivamente,
esperando que eu faça algo.
Que eu escreva algo.
Ócio criativo acaba comigo." (Mariane Lobo)

As teclas da máquina sorriam ferozes, qual várias fileiras de gastos dentes de madrepérola. A fita ansiava por enfim gravar no papel as ideias daquele que passara as últimas horas ali sentado. Mas parecia que elas não queriam sair de sua cabeça. Aliás, elas estavam lá dentro? As mãos não se moviam, exceto para encher mais uma xícara de café ou acender outro cigarro. - Merda! A folha alva, sem as manchas negras que fazem viajar. Em branco. Como o papel, assim a mente dele parecia estar. Os cabelos desgrenhados, os olhos cheios de névoa e pesados, ele precisava de um conforto. Felizmente, o conforto estava logo atrás, nu, enrolado num lençol. Um anjo? A moça acordou, seus olhos lânguidos e aflitos simultaneamente. Pediu para que não lutasse contra a ordem natural das coisas. Deixe fluir, dizia, deixe fluir. Ele voltou para a cama e, envolto naqueles macios braços que lhe roçavam o peito, imaginou o que escreveria, se é que conseguiria escrever. Pensou na velha máquina, a poucos metros, que já havia algum tempo não fazia o tec-tec tão agradável aos ouvidos. Como faísca em rastro de pólvora, ele por fim soube o que daria nova vida àqueles dentes. Riu-se. Como é que não pensei nisso antes? Finalmente, sentou-se uma vez mais. E escreveu sobre um homem que não conseguia escrever, mas que tinha um abrigo sempre pronto a acolhê-lo nos momentos de frustração.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Indistinção

Condição social e penúria.

Depois da subida das águas
A lama, a doença, a morte
Iguais se fizeram as mágoas
E as mazelas de infindo porte

Em meio à desgraça tamanha
Não há pedra ou metal reluzente
Que elimine a tristeza que ganha
Ou acabe com a dor dessa gente

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Jantar

- Você é um idiota.
- Vá se foder!
- Não apele deste jeito. Você não precisa.
- Não preciso? Olhe só quem fala. Por que você começa com isso?
- Quer mesmo que eu diga?
- Por favor, não. Já sei a resposta. Conheço sua ladainha.
- Se conhecesse de fato, não repetiria seus erros.
- Cale a boca. E me passe o sal.
- Você é hipertenso, já esqueceu?
- Pelo amor de Deus, você não cansa?!
- Em se tratando de você, não.
- Quer fazer o favor de passar o sal?
- Tome, mas não me responsabilize pelo infarto.
- Eu sei me cuidar, porra!
- É claro que sabe. Como um bebê.
- Onde está o vinho?
- Foi você quem guardou.
- Droga! Esqueci de colocá-lo para gelar.
- De novo?! Já é a quarta...
- Não comece.
- Tudo bem, eu me calo, seu esclerosado de merda.
- Obrigado.
- ...
- ...
- ...
- Cecília?
- Que foi?
- Eu te amo.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Assassinato

Quando percebi o brilho da lâmina – e sua proximidade assustadora – senti que era tarde. Ela me agarrara sem dó, jogara-me nesta fria superfície e saíra. Agora, está de volta, e eu soube então o destino que me era reservado. Soube que iria morrer. Que tirariam minha pele. Que eu seria esquartejada. Que eu estaria literalmente frita. Por um momento, posso ver meus companheiros sardentos, os momentos de alegria que não mais poderei viver. Vejo-a pronta para o ataque, brandindo uma impiedosa faca. Sim, eu já havia escutado histórias de colegas que eram brutalmente sacrificados, apenas para satisfazer um desejo; mas nunca imaginei que tal pudesse acontecer comigo. Ela saiu outra vez, tenho um pouco de tempo restante. Lembro-me de um pesadelo que tive há alguns meses – outro pesadelo estou vivendo agora – no qual eu e meus amigos caíamos, aos pedaços, num mar de líquido viscoso. E quente. Muitíssimo quente. Minha última visão fora uma coisa amarela, que parecia estar em todo lugar, naquele ambiente. Uma cobra comprida, estreita, meio dobrada. E amarela.

Chega de nos lembrarmos dos sonhos, voltemos à realidade – que eu não sei dizer se é melhor ou pior que as reminiscências oníricas. É triste ver que estou indo pelo mesmo caminho que minha prima, coitada. Aquela sem-coração que me ameaçou com a faca pegou minha prima também. E o mais terrível: assassinou-a da pior forma – espremeu a pobre (que não fizera nada de mau) e parecia muito satisfeita ao ver saírem as vísceras de minha priminha pelos orifícios do instrumento de tortura. Eu presenciei esta cena, e confesso que sofri muito. Acredito que me encontrarei com ela em algum lugar. Um lugar onde haja muita terra e muito verde. Onde não exista metal e óleo. Ah, meu Deus! Lá vem a senhora do alumínio. E do ferro, e do aço inoxidável. Junto com ela, em suas mãos, a maldita faca. É, eu vou morrer. Só agora percebo a efemeridade da vida. E só agora lembro-me de que não me apresentei, que tola! Nesse momento derradeiro, permita-me dizer quem sou e de onde vim. Vamos aproveitar os míseros segundos que me restam. Nasci num campo muito bonito, com meus companheiros por perto, em meio às folhas. Tive, contudo, de vir parar aqui, neste espaço frio e apertado junto às frutas. Que humilhação!

Oh, a faca está se aproximando! Sinto a lâmina atravessar-me o abdômen, provocando uma dor excruciante. Estou morrendo. Ouço alguma coisa borbulhar, não muito longe. A assassina olha para mim com frieza e exclama, parecendo satisfeita: – Crianças, adivinhem o que teremos para o almoço! Ensandecidos gritos infantis de alegria rompem o silêncio quando sou descoberta. Sinto faltar-me o ar, vou morrer! Agora. Muito prazer. Eu sou – digo, eu era – a batata.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Surto

Há monstros em minha cabeça. Eles tentam fugir a todo momento e, para tanto, aproveitam-se das minhas fraquezas. Eles gritam, correm, querem que eu enlouqueça. Dão-me ordens, ordens indecorosas, mas não as posso recusar. O barulho aqui dentro alcança impensáveis decibéis que dizem ser imaginários. Não são. Eu os ouço, isso dói. Acham que é mentira, zombam de mim, enquanto os monstros fazem a festa, mandando fazer coisas horríveis. Não fui eu quem quebrou aquele pescoço. Não fui eu quem segurou o cabo daquela faca. Não fui eu quem apertou aquele gatilho. Foram eles, foram os monstros. Eles não me deixam em paz. Sinto dor, dor, o ruído é insuportável. Estou molhado, tremendo, meus olhos ardem. Peço aos monstros que parem, não aguento mais. Mas eles não param. Eles gritam, "mate, mate, mate!". Tenho de obedecê-los, ainda que a contragosto. Minha cabeça não é minha. Os montros a dominaram. De repente, uma parede se materializa de encontro a meu rosto. Mais dor. Um pequeno riacho rubro macula a imensidão branca. Eu odeio o branco. O branco machuca meus olhos. A parede luta com minhas mãos, com meu tronco, minhas pernas. Os gritos dos monstros chegam à minha boca e escapam. Não é a minha voz. Parem, parem, parem! Sinto mãos fortes segurarem meu corpo, que não é meu. A visão desfocada, reconheço um brilho metálico. Os monstros não param, continuo a gritar. Algo estranho cai em minha corrente sanguínea. Dói muito; pelo menos agora os monstros calaram. Um calor gostoso invade o corpo que peguei de volta. Os monstros foram embora, caio pesadamente no chão. E o breu toma conta de tudo, pondo fim à minha tortura.

domingo, 15 de agosto de 2010

Desabafo

Absolutamente pessoal - coisa rara.

Às vezes tenho vontade de explodir em palavras; vomitar todos os impulsos e ideias que há em minha caixa craniana. Sonhos, medos, ficção, desgostos. Mas parece que nesses momentos a mente dá um tilt e não consigo escrever coisa alguma. Meu caderno tem inúmeros começos, mas nada que vingue, que deslanche. Sei que tenho de deixar as coisas correrem naturalmente e que na hora certa as frases fluirão. Mas isto é difícil. Sinto-me imaginariamente pressionado a produzir. Mas quando produzo forçosamente, não gosto do resultado. É por isso que tenho alguns textos que não considero merecedores de postagem - ou que posto e depois apago. Enfim, senti-me obrigado a externar todo este turbilhão que destrói aqui dentro. E uma conversa muito especial já me abriu os olhos e acalmou um pouco o peito. Agora, só me resta agradecer e esperar que o caos do cérebro se torne ordem e coerência.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Petulância

"Como a água que desce a cachoeira
e não pergunta se pode passar." ♪♫

Você me disse que sou petulante. Sim, acho que sou. Inconveniente, inoportuno, impertinente, chame-me do que quiser. Você me disse que destruo tudo. Destruo sua romântica ilusão com minha palavra. Pois até pode ser. Mas é para mim que você corre nos seus momentos de descontrole. É nessa boca - que destrói suas utopias - que você encontra o que procura eternamente. Sou eu, este petulante, quem lhe oferece prazer e abrigo. Ah, minha querida, tache-me do adjetivo que for. Quer uma gramática? O bicho que se machucou faz barulho, você sabe. Não seja hipócrita. Afinal, como diria o menestrel, todo mundo é lobo por dentro.

sábado, 7 de agosto de 2010

Despedida

Deixar-te-ei. Ainda que nunca mais acorde com suas gostosas reclamações falsas sobre a aparência. Mesmo sem ter aquele almoço preparado com carinho fumegando à minha espera. Mesmo sem nossas risadas banais por causa de uma distração mútua. Ainda que não assistamos àquele filme ou ouçamos aquela música de novo. Deixar-te-ei.  Não mais haverá nossas brigas tolas, para que depois nos reconciliássemos entre lençóis. Findarão as noites de cerveja e conversa sob o céu, que sempre terminavam no mesmo beijo ébrio. Não iremos mais àquele bar, tomar nossa piña colada tão comum às sextas-feiras. Não trocaremos novamente experiências, como você me ensinando a comer de palitinho ou eu te explicando a diferença entre um merlot e um cabernet sauvignon. Deixar-te-ei. Trocar lâmpadas não será tão divertido como era, com você toda preocupada com a possibilidade de uma queda. As festas serão vazias, não verei mais aquelas belas pernas executarem com perfeição os passos de uma dança qualquer. Nada será igual. Deixar-te-ei, ainda que haja muitas boas lembranças. Porque fui cego. Você, carinhosa e companheira; proferia as mais sinceras juras de amor. Quem dera essas recordações se esvaíssem e eu não tivesse de conviver para sempre com sua perfídia martelando dentro de mim. Tanta coisa bonita. Seu teatro era perfeito. Mas acabou. Deixar-te-ei agora, já que, fingindo, sempre fingindo, você me deixou faz tempo.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Chuva

"Energia dessa água sagrada,
que nos abençoa da cabeça aos pés." ♪♫

As gotas frias tamborilam no asfalto. O céu se veste momentaneamente de chumbo, e derrama a água que lava e purifica. Temporal de luz e cor. A névoa fina dança no balé vaporoso. Energia que desce do céu. Pisar em poças, abrir a boca, retornar à infância. Sem medo, vergonha ou pudor. Sem censura. Correr livremente, saboreando os instantes de renovação molhada. Sozinho, ou acompanhado de quem quiser. O ciclo que recomeça, mais uma vez. Tente. Experimente. Potencialize-se. Já tomou banho de chuva?

domingo, 1 de agosto de 2010

Retrato

"Há um menino, há um moleque,
morando sempre no meu coração;
toda vez que o adulto balança
ele vem pra me dar a mão." ♪♫

Lembro-me de que, na sala, uma fotografia repousava calmamente sobre o aparador. Dentro da moldura, o passado congelado. Um menino, ainda inconsciente das dificuldades da vida, sorria de forma descontraída para a câmera. Uma bola, um livro e uma fatia de melancia acompanhavam o garoto e exibiam-se diante da lente. A conhecida nostalgia me invade novamente, a saudade de um tempo que bem podia voltar. Um tempo em que as preocupações eram do que iríamos brincar amanhã e o que a mamãe prepararia para o almoço.  Infelizmente, não se pode segurar a areia da ampulheta, ou fazer com que as folhas do calendário não virem. O curso dos dias é incontrolável. Um rapaz já crescido visualiza a tal moldura à sua frente, olha o riso solto do garoto preso até não sei mais quando. É, o tempo passa. O tempo passa e temos de acompanhar esta pasagem. Nós mudamos. O jovem olha novamente o retrato, recordando os sons, sabores, cheiros e texturas da infância. Sim, ele mudou. Mudou muito, aliás. Mas sente que, nos recônditos de sua alma, ainda é a criança dos olhos vivos e gargalhada aberta. De repente, o odor frutal toma conta e ele vê as mãos. Estão sujas do caldo da melancia. Um menino está absorto, enlevado pela fotografia de um rapaz. Há uma bola, um livro e uma fatia de melancia. Por um instante, o rapaz dá por si confinado no portarretratos, enquanto um garotinho olha fixo para ele. Nessa hora, é impossível distinguir a criança do rapaz.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Via Láctea

"Pegar carona nessa cauda de cometa;
ver a Via Láctea, estrada tão bonita.
Brincar de esconde-esconde numa nebulosa..." ♪♫

Já parou para observar o céu noturno? O negro pontilhado de luz, o brilho redondo da lua, a calma e a paz que se podem encontrar ao simples mirar do firmamento. Universo. A origem e o fim dos questionamentos humanos. Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? A resposta é múltipla, plural, e não podemos encontrar mais do que hipóteses. Mas, apesar de toda essa atmosfera de impossibilidade - ou justamente por causa dela -, é fascinante tentar decifrar os mistérios cósmicos. Uma cadeira reclinável, um cobertor e doses nada homeopáticas de café. Isso mais uma noite clara de inverno. Olhe para cima e imagine-se lá, descobrindo os segredos celestes. Garanto que é bom. Aqui do chão, vejo o belíssimo cinturão de estrelas, caminho leitoso que encanta há gerações. Essa grandiosidade inexplicável é o que atrai, seduz e prende. É exatamente essa falta de certeza que tem motivado mais e mais perguntas. Deleito-me, reles mortal, com tal espetáculo da natureza. A Via Láctea circunda a Terra num abraço luminoso, unindo-nos à intrincada amarração sideral. Galáxias e nebulosas, planetas e buracos-negros. Os astros dançam à minha volta e eu me perco na vastidão lática. Nós também somos o universo.

domingo, 25 de julho de 2010

Sementinha

A família toda reunida na sala, assistindo ao costumeiro programa noturno. É uma noite tipicamente dominical. Vovô e vovó, em meio a bocejos e escarros, também estão presentes. Uma cena linda. Chegam os comerciais e Pedrinho rompe o silêncio para sanar uma dúvida. - Papai, de onde eu vim? Todos os olhares passam a ter um único destino. Os tios não escondem o espanto. Vovó, ruborizada, pega da agulha e começa um tricô há muito inacabado. Vovô finge que dorme, os óculos na ponta do nariz. - Bem, filho, você saiu da barriga da mamãe. Ufa, pensou o pai, me safei dessa. Agora ele vai voltar a ver tevê e eu fico em paz. - Isso eu já sabia, papai! Quero saber é como fui parar lá dentro! Os tios disfarçam, tentam parecer invisíveis. As mãos da vovó se movem com mais rapidez, e o vermelho no rosto aumenta incrivelmente. Vovô começa a roncar, implorando para ser convincente. - Olha, filho - diz, entre suores, o pai -, o papai colocou uma sementinha na barriga da mamãe. A sementinha cresceu, cresceu e virou você! Agora sim, ele tinha se saído bem, não?

O pai olha para vovó, que responde com um olhar de "não sei de nada, o filho é seu". Vovô segue firme no ronco. E os tios? - Mas, papai, como é que você colocou essa sementinha na barriga da mamãe? O pai recomeça a suar, vendo que não haveria escapatória. Um tio se levantou, ia ao banheiro. Outro foi fumar lá fora. A tia foi ver se o cachorro tinha água. O tricô da vovó estava quase acabando, o que não era uma boa notícia. Os roncos do vovô passaram a chiados irônicos, como se ele quisesse dizer "você vai ter que explicar". Mas como explicar o sexo a uma criança de cinco anos, como?! As mãos trêmulas, o embargo na voz, o pai finalmente começa. - Então, filho, eu e a mamãe...

Súbito, um ruído baixo e breve. Mamãe - que até agora não tinha se manifestado - estava com o controle remoto na mão. - Olha, filho, tá passando desenho! Pedrinho se volta para o televisor, extasiado. É o seu desenho favorito. O pai olha, apreensivo, ao redor, esperando alguma reincidência do filho. Ao cruzar seu olhar com o da mãe, vê o sorriso esboçado no rosto dela, dizendo "me agradeça". Os tios voltam, incertos, e retomam seus lugares. Vovó guarda o tricô quase pronto na sacola, e agora o único vermelho em seu rosto é a leve cor da maquiagem. Vovô acorda e boceja. - O que foi que aconteceu? Papai abre as mãos e estica os dedos, aliviando a tensão. Está mais tranquilo agora. Por esta vez, ele conseguira. Sentada na sala, a família reunida. É um lindo quadro de domingo!

sábado, 24 de julho de 2010

Café

Um haicai disforme - e preto

Da moagem e da torra do grão
Vem a quente e mágica bebida
O infinito dissolvido na infusão

Livre

E hoje começo sem rumo ou planejamento. É apenas o ímpeto que me faz pegar do papel e carbonizar os impulsos eletromagnéticos que me percorrem os neurônios a toda velocidade. Sons, sabores, cheiros, tudo misturado. Sinestésico. Lápis de cor, giz de cera, aquarela. Acordes surrealistas, deixemos o inconsciente aflorar. Café, bebida mágica! Lucy está aqui - a garota dos olhos de caleidoscópio. Aforismas de Hipócrates, sonhos freudianos. Lápis, caneta e sabe-se lá o quê. Escrevo livremente hoje, como se a criação fosse agora e tudo fosse a primeira vez. Gargalhadas familiares, sangue nas veias de todos nós. Histórias. Rins, coração e pulmões. Cigarro e álcool. Não sei se estou bem. Falta-me consciência, talvez. Será? Pode ser que o que me falta seja controle. Pele quente e áspera. Febre? Vai, capricórnio teimoso, realiza! Lâmpadas fluorescentes ofuscam-me a visão. Risos pueris com doses generosas de açúcar. Empolgação que inunda, transborda. Creio que descobri onde isso vai parar. É o concerto onírico. Tremem-me as mãos e o lápis balança furiosamente. Água de torneira. Que o Valium seja minha salvação.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Cigarro e Hotel

"E achava que ia ser herói,
fumando um Hollywood, vendendo saúde;
navegando doido, doido, doido, doido e sujo de sal." ♪♫

Meus olhos, vermelhos de tudo, ardem. Será a fumaça? Perdi as contas dos cigarros que já traguei hoje. Na boca, o sabor da menta, do couro e do tabaco. Cheiro minhas mãos, o odor do fumo está impregnado na pele. O pequeno bastão branco pende, trêmulo, entre meus dedos. Vem e me invade aquela conhecida sensação, mistura deliciosa de prazer e medo. O que faço é certo? Debruçado sobre o parapeito da janela, a uns bons sete metros de altura, olho o negro do céu e deixo o vento frio roçar-me livremente a face. Os vidros se estendem à minha direita. É estranho pensar num lugar que abrigue tanta gente distinta, cada qual com sua história, sob o mesmo teto. Lá embaixo, alguém cruza a rua com passos lentos. A dança do etéreo gás cinza e o leve brilho alaranjado acompanham o vulto em sua trajetória. Somos irmanados no vício. Tenho vontade de voar, correr no firmamento, com a cabeça livre de banalidades e censuras. Por um momento, estou em meio às nuvens, numa agradabilíssima noite de inverno. Há uma pessoa com o tronco pairando sobre o chão, a mais ou menos sete metros de altura. Está fumando, enfiado numa janela de hotel. É engraçado estar em dois lugares ao mesmo tempo. Divirto-me na imensidão celeste, diáfana, mas tenho de voltar a mim mesmo. Ouço uma voz longínqua. Pouco a pouco, vai ficando nítida. - Não pode fumar no quarto! Por Deus, é a camareira. Afinal, fecho a janela e recolho-me à nulidade de todo dia.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Cadarços Desamarrados

Tropeços fazem parte de nossa vida. Caímos, levantamos e retomamos o rumo. E é isso o que nos faz aprender. É o que nos ensina como viver. O que seria de nós se nunca errássemos? Se fôssemos sempre bons? As quedas são fortalecedoras, são estimulantes, nos fazem perceber os equívocos do caminho. A partir delas, evoluímos enquanto seres humanos, e mais correntes são quebradas. Por conseqüência, vamos deixando a condição de prisioneiros e conquistamos mais liberdade. Liberdade. É tão estranho pensar que seja necessário cair para ser livre. Paradoxal, eu diria. Mas, por mais estranho que possa parecer, liberdade adquire-se a duras penas. No entanto, quanto mais liberdade conseguimos, menos medo sentimos de tropeçar. É que, livres, sabemos que as quedas virão apenas a nosso favor. Percebemos que as “pedras no caminho” nada mais são que uma escola. É como andar com cadarços desamarrados. O cair é iminente, sabe-se do risco que se corre, se porventura a gente pisar num deles. Porém, ao mesmo tempo, os pés têm mais espaço e o calçado fica mais confortável.  É assim a nossa vida – um grande sapato. Podemos andar seguros, mas com os dedos apertados; ou podemos até cair, mas sem incômodos pés doloridos. Enfim, a escolha é nossa. Afinal, cair é preciso. E é muito melhor cair sem uma dor a mais para atrapalhar. Sejamos livres, pois. Desamarremos nossos cadarços.

domingo, 18 de julho de 2010

Flor de Laranjeira

Vi-a. Resplandescente e alva, com muito sangue a adornar os lábios. Contemplei-a. Os contornos voluptuosos sob o preto da seda enchiam-me de furor e desejo. O colo nu, os quadris enlouquecedores, o pescoço delgado, os olhos lânguidos – tudo nela era harmônico e coerente, uma sinfonia para os olhos. Trazia presa nos cabelos uma flor de laranjeira. Ah, como era linda! Na cama com dossel, as horas magníficas e derretidas em companhia dela. Reminiscências d’As Mil e Uma Noites, os contos de Sherazade. E tudo em nós convergia ao amor leviano. Bocas que se perdiam, línguas que se encontravam, braços e pernas à procura de combater a solidão. Quedei-me eu manchado pelo seu sangue.  Sua pele branca, cândida, macia, roçando a aspereza queimada de minha tez. Intumescidos estávamos, por inteiro. Inebriados. Entregues ao puro, velho e simples gozo. O êxtase. E, unido a ela, como dependesse disso minha sobrevivência, entregamo-nos ao estupor do sono. Dali a pouco, despertamos. Alvorada, sol raiando. Ela já coberta do negro, entreviam-se os belos seios. Eu, vestido de todo, fui-me embora. Fomo-nos embora. Inesquecível, deveras inesquecível. Momentos ímpares, singulares, indeléveis na memória. Na alcova, resquícios do entrelaçamento de nós dois. Sobre os lençóis, exalando uma última lufada de perfume, descansava, plácida e sublime, uma flor de laranjeira.

Ego

Estive ontem com Narciso. Olhamo-nos n'água, em reflexo. Co'as ninfas a encher o recanto, ouvi nítida a base de Freud. Narciso me disse: eu.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Eleanor Rigby

"Ah, look at all the lonely people!" ♪♫
 
Eleanor Rigby apanhou o último grão de arroz, que repousava placidamente no chão da igreja. Havia pouco tempo, mais um casamento se realizara. Eleanor pensava, melancólica, na felicidade dos noivos. Guardou o grão na bolsa, hoje tinha acumulado uma boa quota. Foram vários enlaces. Muitos, mais do que ela gostaria de se lembrar. Os vincos na pele delatavam a imensa quantidade de arroz que ela apanhara. Desceu as escadas e foi. Ela vive em um sonho - e sabe disso. Na sacristia, padre McKenzie rascunha o sermão da próxima homilia. Ele tem consciência de que ninguém o ouvirá. Os casamentos eram o único toque especial. O amor inundava o ambiente e amenizava a solidão do pobre clérigo. Ninguém o ouvirá, mas o padre continua escrevendo. Um dia, ele pensa (sonha), alguém escutará um sermão seu. É noite. Eleanor espera na janela, portando um rosto que guarda num jarro perto da porta. Quem ela aguarda? Para quem é esta face? No mesmo instante, o padre remenda suas meias, trabalha. Ninguém o vê. Com o que ele se preocupa? Alguém passará por lá? O tempo avança, e a porta da morte se abre para Eleanor. Foi enterrada na igreja, naquela igreja onde havia juntado tantos grãos de arroz - as miúdas lembranças de uma alegria que ela não pode viver. Ninguém apareceu. Andando com passos tristes, padre McKenzie limpa a sujeira das mãos. Tinha lido o sermão, embora aquela que poderia ouvi-lo estivesse morta. Ninguém foi salvo por ele. Nem Eleanor, nem ninguém. Enfim, a solidão costumeira. Companheira fiel. As pessoas solitárias, de onde vêm? De onde são? Olhe, por favor! Olhe todas as pessoas solitárias.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Insônia

Pela quarta vez, eu me levanto. Ando em círculos, vou ao banheiro, ligo a televisão. Desligo a televisão. Ligo-a mais uma vez. Perdi a conta de quantos copos d’água bebi. Torno a me deitar, cubro a cabeça, aguardando impaciente que o sono venha. Mas ele não vem. A mente divaga - e de nada adianta eu contar carneirinhos. As costas doem, o corpo todo. Miro o relógio com olhar enfadonho. A sensação é a de que os ponteiros estão fixos, congelados. Congelado, é exatamente assim que o tempo me parece. Fico a esperar os segundos avançarem, os minutos, as horas... Mas não. Está tudo no mesmo lugar. A cama range, range de novo, e de novo, com o meu virar constante. Fecho os olhos. Quando penso que já foi uma hora, a decepção baixa como nuvem carregada. Apenas cinco minutos. Sento. Dirijo-me novamente à geladeira. Não, acabou o leite. Disseram-me que leite morno é bom. Droga, amanhã vou estar um caco. Posso ver de antemão os olhos vermelhos, o roxo das pálpebras, a curva das costas, o nada que será meu dia. Passa, tempo, passa! Não suporto mais ficar assim. Um tarja-preta, penso, far-me-ia bem. Borrões indefinidos de vida atravessam-me o crânio. É incrível como o cérebro insone acelera. Creio que faz de propósito. Justamente porque quero dormir, ele trabalha em potência máxima. Volvo ao colchão, implorando para que as garras de um sonho me agarrem para nunca mais. Meu Deus, tenho de acordar cedo, não renderei nada. Eu disse "acordar"? Quanta ironia! Rolo sobre os lençóis uma vez mais. Pi-pi-pi-pi. Pi-pi-pi-pi. Pi-pi-pi-pi. Invade-me um desejo louco de atirar o maldito despertador contra a parede. Levanto-me pela última vez. Agora é definitivo. Bom dia!

sábado, 26 de junho de 2010

Alguém, por ele mesmo

Muito prazer, eu sou um fracassado. Não tive cão, não tive amor, não tive filho. Não chorei de dor, não sofri de saudade, não cativei ninguém. Os nãos fazem parte de minha vida. Vida? Do alto de toda minha desgraça, rememoro as oportunidades que perdi, os beijos que não dei, os carinhos que não recebi. Quis ser escritor, recusava-me a pegar da caneta. Quis atuar, recusava-me a decorar o texto. Quis ser bem-sucedido, recusava-me a me dedicar. Quis ter vida, recusava-me a viver. Opção, é claro, a culpa é minha. É por isso que lês essa seqüência de total nulidade. Não fiz nada de valia, não fiz nada de importante, não sou digno de memória. Nunca ajudei alguém, nunca plantei árvore, nunca ousei. Nunca fiz algo de que pudesse me arrepender. Consequentemente, nada tenho a dizer sobre os lastimáveis anos de minha existência. Por Deus, sou um merda até mesmo para discorrer sobre mim! Dá-me um antídoto. Dá-me um remédio. Melhor: dá-me um veneno. Quem sabe na morte eu possa dar sentido à minha vida. E, por favor, sê quem eu não fui, simplesmente pela falta de coragem.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Paisagem na Janela

"Da janela lateral do quarto de dormir
vejo uma igreja, um sinal de glória;
vejo um muro branco e no voo um pássaro;
vejo uma grade e um velho sinal..." ♪♫

É incrível ver como um universo inteiro possa caber aqui, em minha janela. Um teatro de opostos vem e se apresenta diante dos meus olhos. O sol bate de viés e ilumina cada detalhe. A emoção da criança ao apreciar uma bala; e a esperança morta do velho ao engolir um comprimido. O belo campestre feito de água, pasto e cavalo; e o cinza sempre cinza da fumaça e dos edifícios. O cantar dos pássaros que se converte na buzina frenética e irritadiça dos congestionamentos. A inveja da vida dos outros; afinal, tudo o que é bom não é meu. O desejo de quem sabe viver um grande amor. Mas hoje não sei se rola, é cada vez mais difícil, nesse tempo de modernos e futurismos. E é assim, inundado pela magnífica paisagem na janela, rememorando os fatos que ainda não vivi, que eu me pego confinado à fantasia cotidiana. Acredite você, cá estou, a dialogar com a melancolia, caminhando atrás do sarcasmo e perseguindo a emoção. Fecho as cortinas, é o Big-Bang ao contrário.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Turíbulo

Sândalo, mirra e alfazema. As libações plúmbeas e fumarentas, que me elevavam do chão ao firmamento. A fumaça inebriante agarrava-me com suas mãos poderosas e transportava-me para um mundo de glória, honra e louvor. Vi a Força. Toquei-A. Mais, eu era a Força. Plenitude e comunhão eram o ambiente ao meu redor. O incenso ardia, a ponta alaranjada a queimar a essência; o carvão e o sal transformando-se em oração e graça. Do turíbulo emanavam os vapores da revelação. A vida me era revelada. Os cinco grãos a queimar, e eu a encher-me de imensidão. Sentia-me parte do universo. Ou o universo é que estava em mim? Inspirações cartesianas, ímpetos neoplatônicos. Ele está em tudo, enquanto tudo é n’Ele. A realidade combustível ampliava meu entendimento. Minha fé. Os aromas a difundir-se pelo ambiente, envolvendo-me num ar de ciência e clareza. O cheiro, a filosofia e Deus. Uni-me com o infinito, e viajei pelos séculos sem fim. Prosopopeia, prece, sentimento carbonífero. Dignações e perfumes eram guia, segurando-me pelas mãos.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Ventríloquo

A melancolia de um boneco.

Abro a boca e fecho-a. Minhas mãos movem-se em gestos amplos. Visto traje multicor, porquanto atraio olhares infantis. Neste palco, sob os holofotes, sinto-me dono de mim. Apenas por breve tempo,  penso que posso agir por mim mesmo, libertar-me e ir.  Ah, doce ilusão! Há mãos que continuam a me prender, estou no colo de meu senhor. Como é sublime o encantamento da meninada. Na retina de meus olhos vegetais, fica queimada a emoção da criança. O agradabilíssimo som dos risos. O crocante das pipocas mastigadas. O cheiro de sal, manteiga e alegria no ar. A sinestesia do espetáculo dentro do meu globo ocular. Infelizmente, no meu caso, não há solução. Este corpo de pinho e plástico pesa, quase tomba. Apenas um boneco. Uma marionete estilizada. Nada próprio, tampouco a personalidade. Meus pés se mexem porque o ventríloquo quer. Falo porque são as cordas vocais dele que vibram. Pode ser divertido, mas isso dói. E, desse objeto oco e sem vida, que usa roupa colorida mas só é manipulado, escapa um pedido. Não permitais que os ventríloquos da vida apoderem-se de vós. Cortai os fios, ponde-vos para funcionar independentemente. Peço-o com o desejo sódico da plateia, a emoção açucarada da puerícia e a decepção fatal de um companheiro de Pinóquio. A Fada Azul não me apareceu.  A verdade irrompe e me arrebata. É aí que espero: parai e percebei. Vós mesmos sois a Fada Azul.