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sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Enxerto

repostagem

Foi num dia de muita chuva que a vi passar pela primeira e última vez. O céu todo vestido de cinza, chorando lágrimas doces que caíam oblíquas ao bel prazer do vento. Suas mãos trêmulas tentando proteger o cigarro aceso, já pela metade, pendente dos lábios roxos, tulipa num jardim de Amsterdã. A marquise sob a qual eu ponderava entre esperar o temporal passar ou ir de qualquer jeito não era muito grande. Vi o cachecol balançando e o rastro de fumaça branca e densa que saía da casinha de joão-de-barro que ela improvisou. Constrangido sorriso mútuo, um ou outro comentário sobre o aguaceiro, essas trivialidades. E o silêncio que, mesmo no espaço apertado da área seca debaixo da marquise, deu um jeito de se enfiar entre nós como se fosse uma coisa física, tocável, visível.

***

Até que fui atingido pela névoa da cachoeira de cachos castanhos, cujo perfume me trouxe novamente a imagem da tulipa e do seu balé à brisa holandesa. Nunca estive na Holanda. Susto, ela percebeu. Virou-se de frente pra mim e pediu desculpas. Tudo bem, não há problema. E realmente não havia. Minha cabeça, cheia de coisas inúteis e preocupações bestas, desanuviou – o que demorava a acontecer com a grande tela cor de chumbo, cortada por prata vez ou outra. Não nomes, não ocupação, apenas comentários adicionais sobre o tempo feio. E uma surpresa.

***

Li infinitas feições naquele curto espaço de tempo. Súbito, a grande bola amarela apareceu, estancaram-se as gostas e desmoronou-se, por conseguinte, a casinha de joão-de-barro. Senti o roçar das franjas de lã no pescoço e previ seus passos graves rumo a um destino o qual eu não fazia ideia. Não faço ideia. Não a escutei quando disse uma fórmula de despedida qualquer – pergunto-me se chegou a fazê-lo. Lembro-me apenas de assistir à cena de fora, eu mesmo espectador e personagem simultaneamente. O encontro das pétalas macias, ela,  e das folhas secas, eu. Duas bocas; o corpo sentindo a haste da planta, uma da outra. Depois, a meia-volta. A ponta do cachecol rodopiando novamente. Minhas mãos erguendo a gola da jaqueta para depois se enterrarem nos bolsos. Meus pés respingando a água de inúmeras poças que encontrei pelo caminho. E o cheiro de tulipas que encanta e assombra meu pensamento até hoje.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Tobogã

"When I get to the bottom, I go back
to the top of the slide, where I stop
and I turn and I go for a ride
'till I get to the bottom and I see you again"

A chuva bombardeia a janela. Munido da caneca de café forte, ligo a vitrola e espero você chegar. Súbita, molhada, você abre a porta e me lança um sorriso cúmplice e carregado de intenções. Joga a bolsa num canto e me convida sem proferir palavra, enquanto tira o casaco, inundando-me com o âmbar dos seus olhos. Num canto da sala, o vinil gira sob a agulha e eu rodo em pensamentos delirantes, aceitando prontamente o convite. Cai o café no assoalho, tímido. E te recebo nos meus braços, ávido por mergulhar nas águas infindas escondidas debaixo dos jeans.

***

Voltamos ao Éden e nos descobrimos desprotegidos. Perdemo-nos entre firmamentos e dentes e línguas - o duelo das línguas num único vão, com céus a brilhar por sobre elas. Dedos, mãos que percorrem trajetos sinuosos e arrepiam, eriçando pelos, provocando suspiros e ais. Hastear bandeira e prestar continência, sentindo o seu hálito cálido nos ouvidos. E descer pelo tobogã. Meus lábios e eu deslizamos nas curvas do escorregador, frenéticos e deslumbrados pela ímpar magnitude. Atravesso vales, campos; escalo montanhas. Procuro-te na maravilhosa confusão de descer, simultaneamente célere e lento, pelas voltas repletas de adrenalina. Tuas mãos a acariciar-me os cabelos e indicando-me a rota, teus músculos que tremem a cada centímetro avançado, até que finalmente eu chego à imensidão hídrica do teu corpo. Sacio-me, arfante também, nadando e sorvendo; afogando-me. E, depois de chegar ao fim, retorno ao topo e um beijo longo me deixa pronto para escorregar novamente e te ver por inteiro mais uma vez.

***

Quero saber a resposta, o que é guardado no âmago, bem dentro de você. O que sei é que você quer que eu a faça. E, à medida que eu me meto a teu construtor, moldo igualmente a mim mesmo. E as formas se encaixam, sou eu adentrando teus recessos escuros, que se iluminam e me recebem. É dança singular na parceria; nenhum de nós sabe dançar, mas fazemos balé perfeito, cadência com ritmo que pedem apenas para continuar eternamente. Eu cria realmente que estava acima de você, muitas milhas acima. Mas olho para o âmbar e percebo que estou embaixo. Visão sublime, que poderia nunca mais acabar. E todos os prelúdios se anastomosam numa única nota, um acorde furioso de guitarra, quando eu te seguro e você me segura. E ambos experimentamos a transcendência, numa babel sinestésica de sons, cheiros e sabores. Das alturas, eu volto deslizando e você me retribui o passeio pelo tobogã. Minhas últimas gotas caem no seu mar e nos unem pelos séculos amém. As línguas, enfim, digladiam uma última vez. E caímos, exaustos e enrodilhados, serpentes, com a vitrola gemendo o riff metálico, cujo som ecoa por todo o apartamento.

sábado, 17 de setembro de 2011

Verônica era verborrágica
prolixidade com gosto de sobremesa
profusão de mentes, completamente
absolutamente
mas o melhor de Verônica
era quando ela não dizia palavras
(as tantas palavras que dizia)
apenas fonemas exasperados e sem sentido

domingo, 1 de maio de 2011

Digitais

dedos percorrem
trechos de pele
sinuoso trajeto
me perco no tato
nas sensações
que brotam, que emanam
dos sujos lençóis

sábado, 26 de fevereiro de 2011

A fumaça que passa da tua boca pra minha. Aquele gosto de cigarro misturado com a bala de menta que você desembrulhou há cinco minutos. A tentativa pífia de não me entregar ao teu corpo, me embriagar na tua saliva, me derreter no teu calor. Montanhas e vales, pistas, curvas. Tuas unhas vermelhas rasgando-me a carne, como o amanhã nunca mais fosse chegar. Lasciva, mas também ingênua. Quantas facetas já me foram reveladas? E enquanto um breve impulso percorre minha cabeça, você já me leva para o outro caminho. E me dá a transcendência, numa babel de sons e cheiros e sabores. E, depois, é barco em porto seguro. Rubor. Os dois compartilhando a fumaça que passa da tua boca pra minha. Aconchegados. Inebriados. Satisfeitos.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Gravidade

eu caio
tu cais
caímos nós, inebriados
e nossas roupas
elas também caem
tudo vem abaixo belo
apenas nus, não mais graves

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

No seu íntimo se escondem aqueles 
sentimentos incautos e sóbrios. 
Os ébrios, ah!, os ébrios você já me apresentou. 
Conheci-os nas horas derretidas 
em que nossas línguas duelavam 
no mesmo vão.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Horizontais

Na cama quente
Eu e você
Entrelaçados
Eu e você
Amores loucos
Eu e você
Delírio, breu
Você e eu

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Tentativa

A preguiça me consome, mais voraz do que nunca, e eu me pergunto por que diabos ainda insisto nessa merda de conto, sabendo que ele não vai acabar. Por que continuo fritando os miolos, esperançoso, em vez de dar uma trepada, sentindo os tremores deliciosos e ouvindo os gemidos cadenciados dela, que me enchem de tesão. Essa maldita fixação que tenho pelas palavras, droga! É forte, deveras forte. O lápis trêmulo na mão, ansiando por concluir o inconcluível, quando eu queria mesmo era apagar. Apagar a mim mesmo e apagar a chama fulgurante daquele corpo. Eu já me disse para esquecer os números. Esquecer. Deixar que as coisas venham quando tiverem de vir. "Vai, bota um fone no ouvido e relaxa, seu idiota. Larga mão de ficar esquentando com uns rabiscos de grafite sobre o papel!". Mas não consigo concordar com a consciência. Sei o que é melhor; sigo no que acaba comigo. No que me mata. Ah, que vontade de roçar a língua naquelas curvas! Provar cada arrepio, cada mínimo suspiro de prazer. Só que as palavras me prendem, essas vadias. Essas vadias que me são imprescindíveis para viver. Desejo, tara, obsessão. Qualquer nome cabe, e não cabe nenhum nome. Tem um quê de visceral que foge ao meu entendimento. Sei apenas que é assim. Sim, é contraditório. Antitético. Amo as palavras. Odeio-as. Elas me aproximam e afastam da minha fonte, tão sempre fonte. Quero beber. Quero gozar. Quero escrever. Quero parar. É sempre indagação inútil.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Camuflagem

"Rapte-me, camaleoa.
Adapte-me ao seu ne me quitte pas." ♪♫

Definitivamente, ela era mestra. Multifacetada, sabia que rosto usar em cada situação. Não demonstrava fraquezas - a não ser quando elas eram falsas e revelá-las fazia parte do jogo. Sem contar o hiato que havia entre ela de dia e a Brigitte noturna. À noite, ela se transformava. Transformações eram sua especialidade. Houve um dia, porém, em meio ao seu teatro francês, no qual ela se percebeu transparente. Visível na essência. Sentiu que aquele, então, não era alguém comum. Ele a via. E via de modo completamente distinto de todo os outros que já estiveram nos seus braços. Nesse dia, banhada em suor, o batom borrado, ela soube que não mais precisaria se esconder. Súbito, toda a sua coleção de máscaras caiu e desfez-se em vários pedaços. Ali estava ela, animal indefeso. Pelo branco contra mata escura. Os dotes camaleônicos já se tornavam falhos. Numa estranha combinação de fatores, num momento igualmente estranho, embalada pelo desagradável som dos gemidos do quarto vizinho, ela se mostrava por inteiro. Ela era feliz. Pela primeira vez.

domingo, 18 de julho de 2010

Flor de Laranjeira

Vi-a. Resplandescente e alva, com muito sangue a adornar os lábios. Contemplei-a. Os contornos voluptuosos sob o preto da seda enchiam-me de furor e desejo. O colo nu, os quadris enlouquecedores, o pescoço delgado, os olhos lânguidos – tudo nela era harmônico e coerente, uma sinfonia para os olhos. Trazia presa nos cabelos uma flor de laranjeira. Ah, como era linda! Na cama com dossel, as horas magníficas e derretidas em companhia dela. Reminiscências d’As Mil e Uma Noites, os contos de Sherazade. E tudo em nós convergia ao amor leviano. Bocas que se perdiam, línguas que se encontravam, braços e pernas à procura de combater a solidão. Quedei-me eu manchado pelo seu sangue.  Sua pele branca, cândida, macia, roçando a aspereza queimada de minha tez. Intumescidos estávamos, por inteiro. Inebriados. Entregues ao puro, velho e simples gozo. O êxtase. E, unido a ela, como dependesse disso minha sobrevivência, entregamo-nos ao estupor do sono. Dali a pouco, despertamos. Alvorada, sol raiando. Ela já coberta do negro, entreviam-se os belos seios. Eu, vestido de todo, fui-me embora. Fomo-nos embora. Inesquecível, deveras inesquecível. Momentos ímpares, singulares, indeléveis na memória. Na alcova, resquícios do entrelaçamento de nós dois. Sobre os lençóis, exalando uma última lufada de perfume, descansava, plácida e sublime, uma flor de laranjeira.