Brigitte levantou-se. Ou, pelo menos, o que restara dela, menos por vontade própria que pela obrigação de todo dia. O vermelho borrado na boca e as manchas escuras no pescoço delatavam-na. Mais uma noite. Amarrando a faixa do robe vagabundo, estalou os dedos dos pés – inexplicável prazer matutino. Irônico, isso de “prazer”. Definitivamente irônico. Queria ser não-adjetivada, não-subordinada, não-regida. Na verdade, queria apenas ser. Olhou pela janela, e esperou que viesse o segundo sol, ou qualquer porra de novidade que a fizesse se sentir viva. Mas só havia um, e brilhava forte, como zombasse da moça seminua. As unhas desbotadas, roídas até a carne, seguraram a cortina com força. Tinha uma explicação. Não tinha uma explicação. Foda-se a explicação. Foi ao banheiro e torceu o registro, deixando a água morna cair livre, liberdade da qual ela mesma não podia gozar. Sentou-se. As lágrimas se misturavam com as gotas caídas do chuveiro. Maldisse a vida que levava, como sempre. Torceu o registro de novo e se enrolou numa toalha puída, um abraço de algodão velho mais ou menos reconfortante. Olhou o vestido minúsculo que jazia acusador no chão do quarto. Ao lado, um espartilho preto. Um enlouquecedor espartilho preto. Que, se pudesse, nunca mais usaria. Enfim, abriu o guarda-roupa. Calça jeans, tênis, camiseta branca com a logo da extinta firma do pai. Pai... E assim, mais limpa - aliás, menos suja -, saiu. Renata trancou a porta; deixou Brigitte mofando. Até a lua aparecer.
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quarta-feira, 2 de março de 2011
sábado, 16 de outubro de 2010
Ruptura
Um sábado esquecido de 1990.
Enrolado recém-nascido no cobertor, ele jazia indiferente numa noite chuvosa. Estava consciente, por quê? Uma xícara inacabada de café e meio cigarro ardendo sobre o assoalho. Um livro aberto sobre o peito. Nietzsche mais chuva é bom. Não é? De vez em quando, assoava o nariz, maldita alergia! Olhava o catarro verde-amarelo com ar divertido, ou algo parecido com diversão. Não tinha nojo. Bebeu mais um gole do líquido negro, frio, que seja. Deixou o Ecce Homo definitivamente de lado. E, esforçando-se sobremaneira, libertou-se da morna prisão de lã. Não gostava das vicissitudes da vida, elas eram por demais inoportunas. Se bem que no fundo, bem lá dentro daquilo que chamam de consciência, ele sabia que a coisa toda era culpa dele. Lavou a cara, olhou-se no espelho do pequeno banheiro inundado pela luz cor de âmbar. Viu dois olhos opacos, um nariz sujo de catarro - droga de alergia! - e uma boca mais risco do que boca. Pegou a toalha vermelho-sangue com pulso duro e esfregou-a com força no rosto, quem sabe ela mudasse algum traço naquela tela assimétrica. Rindo pela primeira vez, lembrou-se de quantas vezes havia se masturbado naquele lavabo mínimo. Homenagens prestadas. Eufemismos. Afastou as reminiscências, hoje não queria ser nostálgico. Nostalgia infame, essa. Apagou a luz. Apanhou o cigarro do chão da sala e sorveu a última gota que descansava no côncavo da xícara. Pensou em Brigitte, como é mesmo o nome verdadeiro dela? Brigitte... Na sua transformação menino-homem, a francesa de mentira ocupava papel de destaque. Não gostaria de entregar-se assim às memórias, mas via que era ineficaz. Dirigiu-se à varanda e deixou-se lavar o corpo. Por que não a alma? Desatou a correr pela grama, louco, feliz, inexplicável, inesperado. Foda-se tudo, pensou. Promoveria a própria vicissitude. A vicissitude do ser. Estava acostumado com a melancolia acompanhando-o diariamente. Mas hoje não. Hoje não.
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Menta
"Fiz um drops de hortelã da bala que eu te dei,
para atirar o porém da frase que eu nunca fiz"
A bala ia-se derretendo e a refrescância pungente impregnava a língua da mulher. Chupava sempre as balas de menta. Talvez para atenuar qualquer fumo ou álcool teimosos que permanecessem na boca. Ou para melhorar o hálito e agradar os velhos nojentos que lhe roubavam de si própria toda noite. Aparência é aparência. E não podia ser outro sabor. Recusava a cereja e o tutti-frutti, o morango e a banana. Tinha que ser menta. Fora o último gosto que dividira com o primeiro e único amor, já sepultado, numa disputa apaixonada pela bala, que perambulara lá e cá no vão das bocas coladas, entre dentes e firmamentos e saliva. Era o que restava daquele beijo derradeiro, antes de ele voltar a casa e nunca chegar. Chuva e carro não combinam. Ela vencera a disputa, ficara com a bala - a finíssima lâmina açucarada que quase nem era mais bala. Desde então, a menta confortava-a e a fazia lembrar dele, enquanto se submetia ao repugnante desconforto cotidiano. Agora ela colocava cor nas faces, e já desembrulhava mais uma companheirinha verde. Gostava do barulho do plástico se contorcendo, estalando. Coloriu os lábios de escarlate, um escarlate meio velho, ajeitou a meia preta gradeada como rede, rede de pescador. Ele disse-lhe que era pescador. Dançou a bala na boca e pensou nele novamente. Calçou os sapatos, vermelhos e muito altos, e apagou a luz. Finalmente, misturando fumaça e hortelã, seguiu relutante em direção ao dever indesejado, deixando o rastro etéreo e cinza, que se dissolvia bailando no ar atrás de si.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Camuflagem
"Rapte-me, camaleoa.
Adapte-me ao seu ne me quitte pas." ♪♫
Adapte-me ao seu ne me quitte pas." ♪♫
Definitivamente, ela era mestra. Multifacetada, sabia que rosto usar em cada situação. Não demonstrava fraquezas - a não ser quando elas eram falsas e revelá-las fazia parte do jogo. Sem contar o hiato que havia entre ela de dia e a Brigitte noturna. À noite, ela se transformava. Transformações eram sua especialidade. Houve um dia, porém, em meio ao seu teatro francês, no qual ela se percebeu transparente. Visível na essência. Sentiu que aquele, então, não era alguém comum. Ele a via. E via de modo completamente distinto de todo os outros que já estiveram nos seus braços. Nesse dia, banhada em suor, o batom borrado, ela soube que não mais precisaria se esconder. Súbito, toda a sua coleção de máscaras caiu e desfez-se em vários pedaços. Ali estava ela, animal indefeso. Pelo branco contra mata escura. Os dotes camaleônicos já se tornavam falhos. Numa estranha combinação de fatores, num momento igualmente estranho, embalada pelo desagradável som dos gemidos do quarto vizinho, ela se mostrava por inteiro. Ela era feliz. Pela primeira vez.
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