sábado, 26 de fevereiro de 2011

A fumaça que passa da tua boca pra minha. Aquele gosto de cigarro misturado com a bala de menta que você desembrulhou há cinco minutos. A tentativa pífia de não me entregar ao teu corpo, me embriagar na tua saliva, me derreter no teu calor. Montanhas e vales, pistas, curvas. Tuas unhas vermelhas rasgando-me a carne, como o amanhã nunca mais fosse chegar. Lasciva, mas também ingênua. Quantas facetas já me foram reveladas? E enquanto um breve impulso percorre minha cabeça, você já me leva para o outro caminho. E me dá a transcendência, numa babel de sons e cheiros e sabores. E, depois, é barco em porto seguro. Rubor. Os dois compartilhando a fumaça que passa da tua boca pra minha. Aconchegados. Inebriados. Satisfeitos.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Parto

Estava lá, com o lápis na mão, sentindo o cheiro de frango da lasanha que colocara no microondas. Nada parecia fazer sentido, mesmo com tudo em volta dele gritando "essa é a realidade". Olhava em volta e via o caos armado no quarto. O estômago roncava. E ele não conseguia fazer palavras. Bebeu um gole da cerveja quente que jazia desde o dia anterior ao lado do colchão. Pensou em tudo aquilo que poderiam dizer dele. Não fazia diferença, tudo era verdade. Sabe-se lá. Ouvia Watching the Wheels, e a música o fez lembrar-se da vitrola e uma tarde de chuva. Ao mesmo tempo em que estava imensamente feliz por todo aquele novo universo, era justamente todo este novo universo que o fazia querer chorar. Querer colo. Ele estava nascendo. E, embora quisesse muito aventurar-se lá fora, sentia uma vontade louca de voltar ao útero.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Adaptação

Sentia aquela mancha de abstração no meio da realidade. Uma mistura de cansaço e preguiça e desânimo era o que lhe percorria o corpo, enquanto escutava os aviões - decolando ou aterrissando? -  passarem perto dali. Era tudo muito movimentado. Movimentado demais. É claro que ele tinha que se levantar dali, pôr as coisas em ordem. Levantar, pôxa. Mas havia algo mais forte. Droga, tinha que comprar vassoura e rodo, fazer comida, limpar a casa, além do calhamaço que precisava ser estudado. Que, sobre a mesa, irônico, ria dele. Olhou as latas de coca-cola no chão do quarto, as migalhas de pão. Os restos da alimentação nada saudável que andava levando. Paradoxo. Ele tinha que dar um jeito naquilo, mas onde estava a coragem? É isso, coragem. Continuou deitado no chão frio, as pernas sobre a cama, imaginando o que seria dele a partir daquele momento.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Esgoto

Estou em decadência. Sou uma decadência. Vamos escorrendo, minhas tentativas e eu, praquela fossa que não tem nada de novo, somente merda e pensamentos ignorados.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Fazia tempo que não chovia. E, quando a água começou a cair, suave, quase sem ruído, foi como se a bolha que o envolvia se tivesse rompido. Percebeu que não dá pra fugir da essência. Não dá. Se somos temporal, não funciona vestirmos cascas ensolaradas. Por falar nessa dicotomia, ainda bem que o céu pingava. Refrescar ao menos um pouco o clima. Achava que janeiro tinha sido quente, mas fevereiro chegou mais, com seus dias abrasadores. Fervereiro. Ele estava cansado do calor, cansado de dizer sempre a mesma coisa. Cansado. Ou seria melhor dizer desiludido? Ou, ainda, cansado e desiludido? Por que se matava com toda essa psicologia, em vez de se matar na ação? Pensar, pensar, pensar... Pensar enlouquece. Ele era louco. Lúcido. Lucy in the sky. Foi tomar banho de chuva, redundando como sempre.