A luz forte, fluorescente, entra como faca nos olhos. Mas não quer fazer mal. É uma sensação de leveza, que contrasta em tudo com o peso em volta. A faca está apenas passando manteiga nos pensamentos quentes, e a manteiga vai derretendo derretendo e me lembrando daquele cheiro de pipoca de cinema. E, como num filme antigo, as imagens vêm passando lentas e apressadas, risquinhos pretos pululando na tela. Aí eu apago a lâmpada e tiro a faca da cabeça, e a uso para passar a manteiga num pão. Pão italiano. Casca dura, miolo macio. E penso em água, água pura, de mina. A água passa pelo corpo e revitaliza as coisas que encontra por lá. Até que o filme acaba, o pão acaba, a água seca e eu fico apenas leve, no escuro. Sem faca, só a leveza e um buraco nos olhos.
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terça-feira, 15 de março de 2011
sábado, 24 de julho de 2010
Livre
E hoje começo sem rumo ou planejamento. É apenas o ímpeto que me faz pegar do papel e carbonizar os impulsos eletromagnéticos que me percorrem os neurônios a toda velocidade. Sons, sabores, cheiros, tudo misturado. Sinestésico. Lápis de cor, giz de cera, aquarela. Acordes surrealistas, deixemos o inconsciente aflorar. Café, bebida mágica! Lucy está aqui - a garota dos olhos de caleidoscópio. Aforismas de Hipócrates, sonhos freudianos. Lápis, caneta e sabe-se lá o quê. Escrevo livremente hoje, como se a criação fosse agora e tudo fosse a primeira vez. Gargalhadas familiares, sangue nas veias de todos nós. Histórias. Rins, coração e pulmões. Cigarro e álcool. Não sei se estou bem. Falta-me consciência, talvez. Será? Pode ser que o que me falta seja controle. Pele quente e áspera. Febre? Vai, capricórnio teimoso, realiza! Lâmpadas fluorescentes ofuscam-me a visão. Risos pueris com doses generosas de açúcar. Empolgação que inunda, transborda. Creio que descobri onde isso vai parar. É o concerto onírico. Tremem-me as mãos e o lápis balança furiosamente. Água de torneira. Que o Valium seja minha salvação.
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