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sábado, 9 de abril de 2011

Factual

"Me mandei pra Curitiba 
e como eu gosto dessa vida, ah!, eu sei." ♪♫

E eu me pego lembrando uma certa viagem. Viagem séria, coisa importante. Que decidiria o resto da minha vida. Lembrando as serras, a barriga gelada, a ansiedade extrema e, por fim, a recepção. Quem diria que no fim das contas eu ficaria por aqui? Olho esse céu de chumbo, olho esse ar agitado, olho a corrida frenética de gente e de carros e de vida. Ouço o som dos aviões aqui perto. Ouço o barulho da cerveja caindo no copo e dos ossos e dos músculos nas aulas de anatomia. A maratona de pega caderno, põe jaleco, tira jaleco, pega caderno de novo, empresta o livro de mil páginas, tira xerox e tira xerox e tira xerox. Esse vento frio que me entra no nariz, vai pra cabeça e pro peito; essas garoas tuas que chegam sem avisar e me pegam desprevenido toda vez, esqueci o guarda-chuva. Essa coisa verde que contrasta com o plúmbeo lá de cima; esse jeito de acolhida silenciosa, de museus e de jardins. Parecido com um álbum de fotos, fotos em preto-e-branco que vão adquirindo cor a cada passo, a cada volta dos ponteiros do relógio. Quem diria... Nessa lúcida maluquice cotidiana, imergi a mim mesmo. Pulei de cabeça. E olha que nem sei nadar! Mas que diferença faz saber nadar, se o que eu quero mesmo é me afogar nessas águas desconhecidas? Essas águas desconhecidas que me puxam para si com tanta força, tanta força...

domingo, 23 de janeiro de 2011

Iguassu

Do tupi-guarani, 
"Ig": água. "Assu": grande.

De fato, era muita água. Água grande. Toda aquela preciosidade se derramando pedra abaixo; caindo, com fúria, sobre a fenda de M'Boi. Indigenamente shakespeariano, me vem à mente o amor de Naipi e Tarobá, a pedra e a palmeira. E eu cá, sedento pelo cauim contemporâneo, louro de cevada; na passarela, molhado, apreciando a magnitude hídrica. Resolvo fazer um pedido - também sou turista, afinal. Viro-me de costas e cerro as pálpebras. O som das quedas se fortalece. Lanço minha moeda, e ela gira tão bailarina no ar! E brilha úmida, cara coroa cara coroa. Por fim, junta-se às outras lá no fundo, inúmeros desejos, inúmeras gentes, inúmeros tempos. O arco-íris me sorri um sorriso cúmplice e curioso, como dissesse "conte-me". Abaixo a cabeça, sorrindo também, e vou-me embora, repleto de gotas - fragmentos do suicídio do rio Iguaçu. Olho para trás uma única vez, derradeiro recado para o aro-íris. - É segredo!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Camboriú

O cheiro úmido e salgado atingia-me as narinas, e eu lembrava outros tempos, tempos fugidos que eu não poderia alcançar novamente. As ondas quebrando em muita espuma, verde branco verde branco. Areia quente. Então a vi. Um rabo-de-cavalo displicente a lhe cair pelas costas, sobre o roxo bem roxo da saída de praia. Belíssimas pernas, pernas estonteantes, que seguiam até findarem em ternos pés, cujas unhas eram pintadas de azul. Não, não consigo descrever a profusão de sentimentos pela qual fui tomado. Por Deus, era linda demais! E eu cá, a uns quinze metros, reles mortal metido numa bermuda e todo molhado de mar. Contemplei-a um instante mais, até que ela volveu o rosto à minha direção. Sorriu. Retribuí, exibindo meus dentes não tão brancos como os dela. Súbito, uma prancha passou por mim. Finalmente vi os braços do surfista envolverem a minha miragem. As duas bocas se encontraram. E eu, sentindo-me triste e tolo ao mesmo tempo, tive de me contentar com a visão do papai noel de dez metros de altura, que adornava, grave e vermelho, o calçadão da Avenida Atlântica.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Curitiba

Elucubrações românticas de um vestibulando.

À subida das serras, eu fantasiava toda a sorte de cenários, vislumbrando ambientes surreais, oníricos, com a ansiedade percorrendo meu corpo a Mach 3. Chega logo, eu pensava. E por fim cheguei. Curitiba me recebeu altiva, numa noite tão noite que pululava de estrelas no céu e no chão, estrelas caídas. Ao descer, inundei-me com o ar frio carregado de saúde e de letras. Era ali, sim era ali que eu teria de ficar. Nas esquinas e travessas, me deparava com Paulos e Helenas e Daltons, cujos amores, histórias e poesia não tinham e não têm fim. A Botânica, o Passeio, a Ópera. Cada vez era maior a certeza de que não poderia ser outro lugar. Queria ser médico, queria ser vampiro, queria ser marginal. Contemporaneidade. Envolver-me na caçada, buscar a cidade perdida; quem sabe alguém a encontrasse. Um ligeiro sol mostrou sua figura, apenas para conferir aquele punhado exato de luminosidade à paisagem que se exibia ante meus olhos. O sol cansou e começou aquele véu de noiva de neblina fina, tão convidativo a uma sopa com queijo e uma xícara de café. Foi assim. Avaliado estive e avaliei também. E despedi-me do meu utópico objeto de lar futuro, desejoso de voltar e quedar-me ali até não sei mais quando.