"I'm singin' in the rain, just singin' in the rain.
What a glorious feeling, I'm happy again." ♪♫
Fazendo girar o guarda-chuva, caminhava sem se importar com as frias gotas que lhe molhavam o terno amarfanhado. Ouvia a água bater no asfalto e estalar plec-plec no tecido negro, negro como o céu daquela noite pluvial. Dava uns poucos passos, ensaiava uma medíocre mas belíssima coreografia, até sapateava! Um Gene Kelly contemporâneo e embriagado. Ofereceu o braço à senhorita imaginária, vamos, vamos nos divertir. Ao chegarem a uma poça, estendeu o paletó, era cavalheiro. E ria, como ria, com todos aqueles dentes irregulares e brilhantes a exibirem-se, envaidecidos. Aspirou com vontade o perfume floral que emanava da ela abstrata. Cantou um bolero antigo, de que ele lembrava apenas o ritmo. Criava a letra na hora. Tomou-a para dançar, embalados pelo bolero inventado. Não, ele não dava a mínima para os olhares que condenavam. Aliás, não era uma plateia? Cantava e rodopiava, cambaleante, agarrado à cintura da bela dama. Súbito, viu as luzes vermelhas. Uns perturbadores pardos, que não tinham respeito algum a shows, interromperam o bailado. A força e voz, calaram o bolero. E ele foi para casa, sem parceira, sem tú eres mi dueña, amor, sem qualquer vestígio do bêbado encantador que foi até a chegada da polícia.
