segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Camuflagem

"Rapte-me, camaleoa.
Adapte-me ao seu ne me quitte pas." ♪♫

Definitivamente, ela era mestra. Multifacetada, sabia que rosto usar em cada situação. Não demonstrava fraquezas - a não ser quando elas eram falsas e revelá-las fazia parte do jogo. Sem contar o hiato que havia entre ela de dia e a Brigitte noturna. À noite, ela se transformava. Transformações eram sua especialidade. Houve um dia, porém, em meio ao seu teatro francês, no qual ela se percebeu transparente. Visível na essência. Sentiu que aquele, então, não era alguém comum. Ele a via. E via de modo completamente distinto de todo os outros que já estiveram nos seus braços. Nesse dia, banhada em suor, o batom borrado, ela soube que não mais precisaria se esconder. Súbito, toda a sua coleção de máscaras caiu e desfez-se em vários pedaços. Ali estava ela, animal indefeso. Pelo branco contra mata escura. Os dotes camaleônicos já se tornavam falhos. Numa estranha combinação de fatores, num momento igualmente estranho, embalada pelo desagradável som dos gemidos do quarto vizinho, ela se mostrava por inteiro. Ela era feliz. Pela primeira vez.

sábado, 28 de agosto de 2010

Ironia

"O bloco de notas me encara, incisivamente,
esperando que eu faça algo.
Que eu escreva algo.
Ócio criativo acaba comigo." (Mariane Lobo)

As teclas da máquina sorriam ferozes, qual várias fileiras de gastos dentes de madrepérola. A fita ansiava por enfim gravar no papel as ideias daquele que passara as últimas horas ali sentado. Mas parecia que elas não queriam sair de sua cabeça. Aliás, elas estavam lá dentro? As mãos não se moviam, exceto para encher mais uma xícara de café ou acender outro cigarro. - Merda! A folha alva, sem as manchas negras que fazem viajar. Em branco. Como o papel, assim a mente dele parecia estar. Os cabelos desgrenhados, os olhos cheios de névoa e pesados, ele precisava de um conforto. Felizmente, o conforto estava logo atrás, nu, enrolado num lençol. Um anjo? A moça acordou, seus olhos lânguidos e aflitos simultaneamente. Pediu para que não lutasse contra a ordem natural das coisas. Deixe fluir, dizia, deixe fluir. Ele voltou para a cama e, envolto naqueles macios braços que lhe roçavam o peito, imaginou o que escreveria, se é que conseguiria escrever. Pensou na velha máquina, a poucos metros, que já havia algum tempo não fazia o tec-tec tão agradável aos ouvidos. Como faísca em rastro de pólvora, ele por fim soube o que daria nova vida àqueles dentes. Riu-se. Como é que não pensei nisso antes? Finalmente, sentou-se uma vez mais. E escreveu sobre um homem que não conseguia escrever, mas que tinha um abrigo sempre pronto a acolhê-lo nos momentos de frustração.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Indistinção

Condição social e penúria.

Depois da subida das águas
A lama, a doença, a morte
Iguais se fizeram as mágoas
E as mazelas de infindo porte

Em meio à desgraça tamanha
Não há pedra ou metal reluzente
Que elimine a tristeza que ganha
Ou acabe com a dor dessa gente

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Jantar

- Você é um idiota.
- Vá se foder!
- Não apele deste jeito. Você não precisa.
- Não preciso? Olhe só quem fala. Por que você começa com isso?
- Quer mesmo que eu diga?
- Por favor, não. Já sei a resposta. Conheço sua ladainha.
- Se conhecesse de fato, não repetiria seus erros.
- Cale a boca. E me passe o sal.
- Você é hipertenso, já esqueceu?
- Pelo amor de Deus, você não cansa?!
- Em se tratando de você, não.
- Quer fazer o favor de passar o sal?
- Tome, mas não me responsabilize pelo infarto.
- Eu sei me cuidar, porra!
- É claro que sabe. Como um bebê.
- Onde está o vinho?
- Foi você quem guardou.
- Droga! Esqueci de colocá-lo para gelar.
- De novo?! Já é a quarta...
- Não comece.
- Tudo bem, eu me calo, seu esclerosado de merda.
- Obrigado.
- ...
- ...
- ...
- Cecília?
- Que foi?
- Eu te amo.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Assassinato

Quando percebi o brilho da lâmina – e sua proximidade assustadora – senti que era tarde. Ela me agarrara sem dó, jogara-me nesta fria superfície e saíra. Agora, está de volta, e eu soube então o destino que me era reservado. Soube que iria morrer. Que tirariam minha pele. Que eu seria esquartejada. Que eu estaria literalmente frita. Por um momento, posso ver meus companheiros sardentos, os momentos de alegria que não mais poderei viver. Vejo-a pronta para o ataque, brandindo uma impiedosa faca. Sim, eu já havia escutado histórias de colegas que eram brutalmente sacrificados, apenas para satisfazer um desejo; mas nunca imaginei que tal pudesse acontecer comigo. Ela saiu outra vez, tenho um pouco de tempo restante. Lembro-me de um pesadelo que tive há alguns meses – outro pesadelo estou vivendo agora – no qual eu e meus amigos caíamos, aos pedaços, num mar de líquido viscoso. E quente. Muitíssimo quente. Minha última visão fora uma coisa amarela, que parecia estar em todo lugar, naquele ambiente. Uma cobra comprida, estreita, meio dobrada. E amarela.

Chega de nos lembrarmos dos sonhos, voltemos à realidade – que eu não sei dizer se é melhor ou pior que as reminiscências oníricas. É triste ver que estou indo pelo mesmo caminho que minha prima, coitada. Aquela sem-coração que me ameaçou com a faca pegou minha prima também. E o mais terrível: assassinou-a da pior forma – espremeu a pobre (que não fizera nada de mau) e parecia muito satisfeita ao ver saírem as vísceras de minha priminha pelos orifícios do instrumento de tortura. Eu presenciei esta cena, e confesso que sofri muito. Acredito que me encontrarei com ela em algum lugar. Um lugar onde haja muita terra e muito verde. Onde não exista metal e óleo. Ah, meu Deus! Lá vem a senhora do alumínio. E do ferro, e do aço inoxidável. Junto com ela, em suas mãos, a maldita faca. É, eu vou morrer. Só agora percebo a efemeridade da vida. E só agora lembro-me de que não me apresentei, que tola! Nesse momento derradeiro, permita-me dizer quem sou e de onde vim. Vamos aproveitar os míseros segundos que me restam. Nasci num campo muito bonito, com meus companheiros por perto, em meio às folhas. Tive, contudo, de vir parar aqui, neste espaço frio e apertado junto às frutas. Que humilhação!

Oh, a faca está se aproximando! Sinto a lâmina atravessar-me o abdômen, provocando uma dor excruciante. Estou morrendo. Ouço alguma coisa borbulhar, não muito longe. A assassina olha para mim com frieza e exclama, parecendo satisfeita: – Crianças, adivinhem o que teremos para o almoço! Ensandecidos gritos infantis de alegria rompem o silêncio quando sou descoberta. Sinto faltar-me o ar, vou morrer! Agora. Muito prazer. Eu sou – digo, eu era – a batata.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Surto

Há monstros em minha cabeça. Eles tentam fugir a todo momento e, para tanto, aproveitam-se das minhas fraquezas. Eles gritam, correm, querem que eu enlouqueça. Dão-me ordens, ordens indecorosas, mas não as posso recusar. O barulho aqui dentro alcança impensáveis decibéis que dizem ser imaginários. Não são. Eu os ouço, isso dói. Acham que é mentira, zombam de mim, enquanto os monstros fazem a festa, mandando fazer coisas horríveis. Não fui eu quem quebrou aquele pescoço. Não fui eu quem segurou o cabo daquela faca. Não fui eu quem apertou aquele gatilho. Foram eles, foram os monstros. Eles não me deixam em paz. Sinto dor, dor, o ruído é insuportável. Estou molhado, tremendo, meus olhos ardem. Peço aos monstros que parem, não aguento mais. Mas eles não param. Eles gritam, "mate, mate, mate!". Tenho de obedecê-los, ainda que a contragosto. Minha cabeça não é minha. Os montros a dominaram. De repente, uma parede se materializa de encontro a meu rosto. Mais dor. Um pequeno riacho rubro macula a imensidão branca. Eu odeio o branco. O branco machuca meus olhos. A parede luta com minhas mãos, com meu tronco, minhas pernas. Os gritos dos monstros chegam à minha boca e escapam. Não é a minha voz. Parem, parem, parem! Sinto mãos fortes segurarem meu corpo, que não é meu. A visão desfocada, reconheço um brilho metálico. Os monstros não param, continuo a gritar. Algo estranho cai em minha corrente sanguínea. Dói muito; pelo menos agora os monstros calaram. Um calor gostoso invade o corpo que peguei de volta. Os monstros foram embora, caio pesadamente no chão. E o breu toma conta de tudo, pondo fim à minha tortura.

domingo, 15 de agosto de 2010

Desabafo

Absolutamente pessoal - coisa rara.

Às vezes tenho vontade de explodir em palavras; vomitar todos os impulsos e ideias que há em minha caixa craniana. Sonhos, medos, ficção, desgostos. Mas parece que nesses momentos a mente dá um tilt e não consigo escrever coisa alguma. Meu caderno tem inúmeros começos, mas nada que vingue, que deslanche. Sei que tenho de deixar as coisas correrem naturalmente e que na hora certa as frases fluirão. Mas isto é difícil. Sinto-me imaginariamente pressionado a produzir. Mas quando produzo forçosamente, não gosto do resultado. É por isso que tenho alguns textos que não considero merecedores de postagem - ou que posto e depois apago. Enfim, senti-me obrigado a externar todo este turbilhão que destrói aqui dentro. E uma conversa muito especial já me abriu os olhos e acalmou um pouco o peito. Agora, só me resta agradecer e esperar que o caos do cérebro se torne ordem e coerência.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Petulância

"Como a água que desce a cachoeira
e não pergunta se pode passar." ♪♫

Você me disse que sou petulante. Sim, acho que sou. Inconveniente, inoportuno, impertinente, chame-me do que quiser. Você me disse que destruo tudo. Destruo sua romântica ilusão com minha palavra. Pois até pode ser. Mas é para mim que você corre nos seus momentos de descontrole. É nessa boca - que destrói suas utopias - que você encontra o que procura eternamente. Sou eu, este petulante, quem lhe oferece prazer e abrigo. Ah, minha querida, tache-me do adjetivo que for. Quer uma gramática? O bicho que se machucou faz barulho, você sabe. Não seja hipócrita. Afinal, como diria o menestrel, todo mundo é lobo por dentro.

sábado, 7 de agosto de 2010

Despedida

Deixar-te-ei. Ainda que nunca mais acorde com suas gostosas reclamações falsas sobre a aparência. Mesmo sem ter aquele almoço preparado com carinho fumegando à minha espera. Mesmo sem nossas risadas banais por causa de uma distração mútua. Ainda que não assistamos àquele filme ou ouçamos aquela música de novo. Deixar-te-ei.  Não mais haverá nossas brigas tolas, para que depois nos reconciliássemos entre lençóis. Findarão as noites de cerveja e conversa sob o céu, que sempre terminavam no mesmo beijo ébrio. Não iremos mais àquele bar, tomar nossa piña colada tão comum às sextas-feiras. Não trocaremos novamente experiências, como você me ensinando a comer de palitinho ou eu te explicando a diferença entre um merlot e um cabernet sauvignon. Deixar-te-ei. Trocar lâmpadas não será tão divertido como era, com você toda preocupada com a possibilidade de uma queda. As festas serão vazias, não verei mais aquelas belas pernas executarem com perfeição os passos de uma dança qualquer. Nada será igual. Deixar-te-ei, ainda que haja muitas boas lembranças. Porque fui cego. Você, carinhosa e companheira; proferia as mais sinceras juras de amor. Quem dera essas recordações se esvaíssem e eu não tivesse de conviver para sempre com sua perfídia martelando dentro de mim. Tanta coisa bonita. Seu teatro era perfeito. Mas acabou. Deixar-te-ei agora, já que, fingindo, sempre fingindo, você me deixou faz tempo.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Chuva

"Energia dessa água sagrada,
que nos abençoa da cabeça aos pés." ♪♫

As gotas frias tamborilam no asfalto. O céu se veste momentaneamente de chumbo, e derrama a água que lava e purifica. Temporal de luz e cor. A névoa fina dança no balé vaporoso. Energia que desce do céu. Pisar em poças, abrir a boca, retornar à infância. Sem medo, vergonha ou pudor. Sem censura. Correr livremente, saboreando os instantes de renovação molhada. Sozinho, ou acompanhado de quem quiser. O ciclo que recomeça, mais uma vez. Tente. Experimente. Potencialize-se. Já tomou banho de chuva?

domingo, 1 de agosto de 2010

Retrato

"Há um menino, há um moleque,
morando sempre no meu coração;
toda vez que o adulto balança
ele vem pra me dar a mão." ♪♫

Lembro-me de que, na sala, uma fotografia repousava calmamente sobre o aparador. Dentro da moldura, o passado congelado. Um menino, ainda inconsciente das dificuldades da vida, sorria de forma descontraída para a câmera. Uma bola, um livro e uma fatia de melancia acompanhavam o garoto e exibiam-se diante da lente. A conhecida nostalgia me invade novamente, a saudade de um tempo que bem podia voltar. Um tempo em que as preocupações eram do que iríamos brincar amanhã e o que a mamãe prepararia para o almoço.  Infelizmente, não se pode segurar a areia da ampulheta, ou fazer com que as folhas do calendário não virem. O curso dos dias é incontrolável. Um rapaz já crescido visualiza a tal moldura à sua frente, olha o riso solto do garoto preso até não sei mais quando. É, o tempo passa. O tempo passa e temos de acompanhar esta pasagem. Nós mudamos. O jovem olha novamente o retrato, recordando os sons, sabores, cheiros e texturas da infância. Sim, ele mudou. Mudou muito, aliás. Mas sente que, nos recônditos de sua alma, ainda é a criança dos olhos vivos e gargalhada aberta. De repente, o odor frutal toma conta e ele vê as mãos. Estão sujas do caldo da melancia. Um menino está absorto, enlevado pela fotografia de um rapaz. Há uma bola, um livro e uma fatia de melancia. Por um instante, o rapaz dá por si confinado no portarretratos, enquanto um garotinho olha fixo para ele. Nessa hora, é impossível distinguir a criança do rapaz.