sexta-feira, 24 de maio de 2013

Tobogã

"When I get to the bottom, I go back
to the top of the slide, where I stop
and I turn and I go for a ride
'till I get to the bottom and I see you again"

A chuva bombardeia a janela. Munido da caneca de café forte, ligo a vitrola e espero você chegar. Súbita, molhada, você abre a porta e me lança um sorriso cúmplice e carregado de intenções. Joga a bolsa num canto e me convida sem proferir palavra, enquanto tira o casaco, inundando-me com o âmbar dos seus olhos. Num canto da sala, o vinil gira sob a agulha e eu rodo em pensamentos delirantes, aceitando prontamente o convite. Cai o café no assoalho, tímido. E te recebo nos meus braços, ávido por mergulhar nas águas infindas escondidas debaixo dos jeans.

***

Voltamos ao Éden e nos descobrimos desprotegidos. Perdemo-nos entre firmamentos e dentes e línguas - o duelo das línguas num único vão, com céus a brilhar por sobre elas. Dedos, mãos que percorrem trajetos sinuosos e arrepiam, eriçando pelos, provocando suspiros e ais. Hastear bandeira e prestar continência, sentindo o seu hálito cálido nos ouvidos. E descer pelo tobogã. Meus lábios e eu deslizamos nas curvas do escorregador, frenéticos e deslumbrados pela ímpar magnitude. Atravesso vales, campos; escalo montanhas. Procuro-te na maravilhosa confusão de descer, simultaneamente célere e lento, pelas voltas repletas de adrenalina. Tuas mãos a acariciar-me os cabelos e indicando-me a rota, teus músculos que tremem a cada centímetro avançado, até que finalmente eu chego à imensidão hídrica do teu corpo. Sacio-me, arfante também, nadando e sorvendo; afogando-me. E, depois de chegar ao fim, retorno ao topo e um beijo longo me deixa pronto para escorregar novamente e te ver por inteiro mais uma vez.

***

Quero saber a resposta, o que é guardado no âmago, bem dentro de você. O que sei é que você quer que eu a faça. E, à medida que eu me meto a teu construtor, moldo igualmente a mim mesmo. E as formas se encaixam, sou eu adentrando teus recessos escuros, que se iluminam e me recebem. É dança singular na parceria; nenhum de nós sabe dançar, mas fazemos balé perfeito, cadência com ritmo que pedem apenas para continuar eternamente. Eu cria realmente que estava acima de você, muitas milhas acima. Mas olho para o âmbar e percebo que estou embaixo. Visão sublime, que poderia nunca mais acabar. E todos os prelúdios se anastomosam numa única nota, um acorde furioso de guitarra, quando eu te seguro e você me segura. E ambos experimentamos a transcendência, numa babel sinestésica de sons, cheiros e sabores. Das alturas, eu volto deslizando e você me retribui o passeio pelo tobogã. Minhas últimas gotas caem no seu mar e nos unem pelos séculos amém. As línguas, enfim, digladiam uma última vez. E caímos, exaustos e enrodilhados, serpentes, com a vitrola gemendo o riff metálico, cujo som ecoa por todo o apartamento.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Ônibus

com destino a algum lugar, sacoleja
a velha lata amarela, continente de tantas cabeças
jovens e fones, velhos e bengalas
mães e seus filhos chorando com pulmões de remador
[enquanto ela tenta segurar também as sacolas
haja braço!

o adesivo afixado nas janelas avisa:
"cuidado com furtos no interior do veículo"
que importa a matéria roubada
se os semblantes exibem infindáveis boletins de ocorrência?

– próxima parada!

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Duas Vezes Solidão

Tem certas noites que eu não durmo
Com alguma inconsciência reprimida
Que surge no ritmo da batida
De um blues que ouvi no mês passado

E, por só conseguir ficar acordado
Levanto da cama e saio pra rua
No desejo de que fosse tua
A saliva com a qual cuspo fraqueza

Cortes, pancadas, dor siamesa
A dor que sinto eu por você
Estamos à nossa própria mercê
E o bel prazer do tempo nos corrói

Quando eu queria ser mais um herói
Torto, canhestro e desconhecido
Investi num amor falido
E os superpoderes não valeram nada

Firo-me andando na madrugada
De novo teus lábios me dizem não
E eu vivo duas vezes solidão
Tua voz me surge sempre como insônia

Tentar dormir, tentar tirar
Tirar de vez do peito o som
O som que faz o meu lembrar
Do que podia até ser bom
Fingir, mas não acreditar
Que eu estou feliz assim
Para quem sabe então ficar
Menos de você em mim
Eu fantasio o seu sim
Não tem começo, mas tem fim.