A família toda reunida na sala, assistindo ao costumeiro programa noturno. É uma noite tipicamente dominical. Vovô e vovó, em meio a bocejos e escarros, também estão presentes. Uma cena linda. Chegam os comerciais e Pedrinho rompe o silêncio para sanar uma dúvida. - Papai, de onde eu vim? Todos os olhares passam a ter um único destino. Os tios não escondem o espanto. Vovó, ruborizada, pega da agulha e começa um tricô há muito inacabado. Vovô finge que dorme, os óculos na ponta do nariz. - Bem, filho, você saiu da barriga da mamãe. Ufa, pensou o pai, me safei dessa. Agora ele vai voltar a ver tevê e eu fico em paz. - Isso eu já sabia, papai! Quero saber é como fui parar lá dentro! Os tios disfarçam, tentam parecer invisíveis. As mãos da vovó se movem com mais rapidez, e o vermelho no rosto aumenta incrivelmente. Vovô começa a roncar, implorando para ser convincente. - Olha, filho - diz, entre suores, o pai -, o papai colocou uma sementinha na barriga da mamãe. A sementinha cresceu, cresceu e virou você! Agora sim, ele tinha se saído bem, não?
O pai olha para vovó, que responde com um olhar de "não sei de nada, o filho é seu". Vovô segue firme no ronco. E os tios? - Mas, papai, como é que você colocou essa sementinha na barriga da mamãe? O pai recomeça a suar, vendo que não haveria escapatória. Um tio se levantou, ia ao banheiro. Outro foi fumar lá fora. A tia foi ver se o cachorro tinha água. O tricô da vovó estava quase acabando, o que não era uma boa notícia. Os roncos do vovô passaram a chiados irônicos, como se ele quisesse dizer "você vai ter que explicar". Mas como explicar o sexo a uma criança de cinco anos, como?! As mãos trêmulas, o embargo na voz, o pai finalmente começa. - Então, filho, eu e a mamãe...
Súbito, um ruído baixo e breve. Mamãe - que até agora não tinha se manifestado - estava com o controle remoto na mão. - Olha, filho, tá passando desenho! Pedrinho se volta para o televisor, extasiado. É o seu desenho favorito. O pai olha, apreensivo, ao redor, esperando alguma reincidência do filho. Ao cruzar seu olhar com o da mãe, vê o sorriso esboçado no rosto dela, dizendo "me agradeça". Os tios voltam, incertos, e retomam seus lugares. Vovó guarda o tricô quase pronto na sacola, e agora o único vermelho em seu rosto é a leve cor da maquiagem. Vovô acorda e boceja. - O que foi que aconteceu? Papai abre as mãos e estica os dedos, aliviando a tensão. Está mais tranquilo agora. Por esta vez, ele conseguira. Sentada na sala, a família reunida. É um lindo quadro de domingo!