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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Quintal

pés que tomam banho n’água do céu
e mãos que lhes desnudam
frutas, frutos, furtos furtivos
saboreando o agridoce
com o cheiro de infância
e a roupa toda suja

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Percepção

Descia as escadas rolantes em êxtase, impressionado com a grandeza do lugar e com as luzes de natal. Tudo era tão... Os olhos brilhantes e as mãos ávidas por poder tocar em todo aquele fascínio. Cheiro de pipoca e farfalhar de sacolas. Virava a cabeça, apontava, sorria. Como era bonito! Por um instante se viu com um brinquedo novo, um jipe elétrico talvez. Uma bola de verdade. Ousou até ganhar um computador. Fechou as pálpebras, sorrindo. Anotou na memória a sinestesia que vivia. Quem sabe no futuro ele poderia... Tropeçou ao final da escada, o sapato ficara preso. Caiu. Chorou. Ouviu as risadas. Não, aquele mundo não era dele.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Viagem

Na biblioteca escura, a única luz era proveniente do globo iluminado, analisado atentamente pela garotinha. Aqui é a França, da Torre Eiffel. Sempre que via fotos da imensa estrutura férrea parisiense, ela se imaginava lá em cima, contemplando a magnitude da cidade-luz. Tem o canal da Mancha, depois é a Inglaterra. Ela vira muita coisa sobre a terra da rainha. Fantasiava os chás, os ônibus vermelhos, as cabines telefônicas e, sobretudo, era fixa a ideia do Big Ben parado. Seria divertido. Ou caótico. A gente vai mais pra lá, daí tem a Suíça. Duas coisas: um Rolex e os chocolates. Apenas. Agora desce um monte, e chega na África do Sul. Lá tem diamantes e marfim, ela ouvira falar. Quem sabe quando fosse mais velha. Vai pra direita mais um tanto, e para na Austrália. Ela vira a foto de um coala, que lindinho!, um dia ela teria um coala. Girando e girando o globo, atravessou o planeta inteiro. Perdeu-se, alegre e triste, em lembranças, datas, imagens, sonhos, até que chegou ao Brasil. Pronto, estou no Brasil. Estou aqui. E agora? E agora? Mal sabia que aquele 'e agora?' seria presença constante por toda uma vida. Coitada, tão novinha e já fadada a crescer em meio a crises. Apagou o globo, sentou-se na imensa cadeira de couro. Era grande demais para ela. A cadeira e todo o resto. Tudo era grande demais.

domingo, 3 de outubro de 2010

Sorvete

- Eu quero chocolate e baunilha.
- Saindo uma casquinha de chocolate e baunilha pro campeão aqui!
- É casquinha de chocolate, né?
- Claro, Pedrinho, eu sei que é a sua favorita!
- Obrigado, seu Antônio!

...

- Ei, menina, você não gosta de sorvete?
- Gosto, mas minha mãe disse que ela não pode comprar. Esse aí tá gostoso?
- Aham, é de chocolate e baunilha.
- Meu sabor preferido é chocolate. Eu queria tanto um sorvete!
- Mas a sua mãe não pode mesmo comprar?
- Não. Ela disse que não dá pra ficar gastando dinheiro com bobagem. Eu queria tanto.
- Quer um pouquinho do meu?
- É sério?!
- Aham, pode ficar com tudo.
- Puxa, obrigada! Nem acredito!
- Você quer brincar comigo? O meu nome é Pedro.
- O meu, chomp, é Mariana.

domingo, 25 de julho de 2010

Sementinha

A família toda reunida na sala, assistindo ao costumeiro programa noturno. É uma noite tipicamente dominical. Vovô e vovó, em meio a bocejos e escarros, também estão presentes. Uma cena linda. Chegam os comerciais e Pedrinho rompe o silêncio para sanar uma dúvida. - Papai, de onde eu vim? Todos os olhares passam a ter um único destino. Os tios não escondem o espanto. Vovó, ruborizada, pega da agulha e começa um tricô há muito inacabado. Vovô finge que dorme, os óculos na ponta do nariz. - Bem, filho, você saiu da barriga da mamãe. Ufa, pensou o pai, me safei dessa. Agora ele vai voltar a ver tevê e eu fico em paz. - Isso eu já sabia, papai! Quero saber é como fui parar lá dentro! Os tios disfarçam, tentam parecer invisíveis. As mãos da vovó se movem com mais rapidez, e o vermelho no rosto aumenta incrivelmente. Vovô começa a roncar, implorando para ser convincente. - Olha, filho - diz, entre suores, o pai -, o papai colocou uma sementinha na barriga da mamãe. A sementinha cresceu, cresceu e virou você! Agora sim, ele tinha se saído bem, não?

O pai olha para vovó, que responde com um olhar de "não sei de nada, o filho é seu". Vovô segue firme no ronco. E os tios? - Mas, papai, como é que você colocou essa sementinha na barriga da mamãe? O pai recomeça a suar, vendo que não haveria escapatória. Um tio se levantou, ia ao banheiro. Outro foi fumar lá fora. A tia foi ver se o cachorro tinha água. O tricô da vovó estava quase acabando, o que não era uma boa notícia. Os roncos do vovô passaram a chiados irônicos, como se ele quisesse dizer "você vai ter que explicar". Mas como explicar o sexo a uma criança de cinco anos, como?! As mãos trêmulas, o embargo na voz, o pai finalmente começa. - Então, filho, eu e a mamãe...

Súbito, um ruído baixo e breve. Mamãe - que até agora não tinha se manifestado - estava com o controle remoto na mão. - Olha, filho, tá passando desenho! Pedrinho se volta para o televisor, extasiado. É o seu desenho favorito. O pai olha, apreensivo, ao redor, esperando alguma reincidência do filho. Ao cruzar seu olhar com o da mãe, vê o sorriso esboçado no rosto dela, dizendo "me agradeça". Os tios voltam, incertos, e retomam seus lugares. Vovó guarda o tricô quase pronto na sacola, e agora o único vermelho em seu rosto é a leve cor da maquiagem. Vovô acorda e boceja. - O que foi que aconteceu? Papai abre as mãos e estica os dedos, aliviando a tensão. Está mais tranquilo agora. Por esta vez, ele conseguira. Sentada na sala, a família reunida. É um lindo quadro de domingo!