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terça-feira, 21 de junho de 2011

Profissões #1

O mecânico se apaixonou. Derreteu-se a graxa que lhe constituía o coração. Finalmente encontrara a rebimboca que casava com a sua parafuseta.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

O Coração

"Ah, coração, teu engano foi esperar por um bem
de um coração leviano que nunca será de ninguém."  

O paciente deu entrada no hospital, implorando por ajuda. Tinha o coração pulsante na palma da mão. Saíra sem qualquer aviso do peito. Subira à boca, e o paciente sentiu gosto de sangue e de desilusão. Pulara-lhe boca afora, o coração. E agora pulsava, triste e vermelho, sobre a pele amarelada do paciente. Como poderia viver sem o coração? Mas o coração estava ali. E pulsava! Ora, devolver o coração ao seu lugar de origem não devia ser tão difícil. Ou devia? E as batidas continuavam, gritando. Espirrando sangue e mentiras. No começo, era uma taquicardia - batia tão rápido que qualquer um que visse pensava que não iria aguentar. Depois, foi acalmando, e tomou aquele ritmo cadenciado, uma bossa-nova tranquila e rubra. Parecia resignar-se. Até que se contraiu num tango, dramático, suplicante, chorando chorando. 

Pois sim! Poderia o coração ser tão voluntarioso e entregar-se às mudanças de estação deste jeito? O paciente queria respostas. Levava o coração batendo, mas no lugar errado. E sugeriu quem sabe engoli-lo de volta, mas não, iria provavelmente ao estômago e daí por diante era um destino trágico. Tinha de haver um jeito. Enquanto isso, os branquinhos procuravam toda sorte de explicações e, mais ainda, de soluções para o problema do coração-que-salta-pra-fora. O prontuário dizia algo vago sobre desilusão e mentiras. Desilusão e mentiras... Claro, a causa primeira! A origem da primeira taquicardia do paciente - uma profusão de curvas e de cabelos e de voz lânguida que lhe satisfazia todas as vontades. Chamaram-na. Ela não se apressou. Escolheu a melhor cor para as curvas e para os lábios, uma presilha em forma de libélula para conter os fios e treinou em especial a languidez. Chegou. Viu o paciente em pranto, ainda segurando o coração, que já tinha passado do tango para um bolero, no me platiques más. Os branquinhos encheram a causa primeira de perguntas, cujas respostas foram ofuscadas pela... pela... pela consistência da causa primeira. Por fim, ficou dito meio sem dizer que talvez fosse melhor mesmo o paciente engolir o coração e digeri-lo. O cérebro é muito mais importante. Não é? 

A causa primeira foi-se embora rebolando, não sem antes borrar-se a cor na maca de um apartamento desocupado e depois retocar-se. Estava quase saindo do hospital, a causa primeira, quando lançou um último olhar ao paciente, coitado, continuava ouvindo a música do coração. Os olhos do paciente eram um misto de tristeza, de ódio e de pedido desesperado de ajuda. O coração tinha que estar dentro dele! Dentro, não fora! Riu-se toda, a causa primeira, e saiu à luz do belo dia que fazia lá fora. Sentiu vontade de borrar-se a cor novamente. É um idiota, pensava a causa primeira, fazendo a soma na cabeça de quantos corações já havia feito sair do peito, subir à boca e pular boca afora. Claro que sempre antes vinha a primeira taquicardia. Que podia ser uma, duas, três... O paciente sentia que não podia mais aguentar o concerto e anunciou aos branquinhos que desistiria. Os branquinhos lhe disseram que não, que haveria um jeito, haveria um jeito... Bem, houve um jeito. O paciente pôs o coração perto da orelha. Escutou a última canção cardíaca, um instrumental de fim de filme, se não se enganava. - Não mais desilusões. Nem mentiras. Depois, saiu gargalhando com o coração pendendo das mãos amarelas, deixando os branquinhos atônitos, e o atirou (pulsante ainda!) numa lata de lixo qualquer. Continuava com o cérebro. Era mais importante.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Convite

- Não.
- Por que não?
- Porque não quero, ué.
- Tem que ter um motivo.
- ...
- O motivo sou eu, né?
- ...
- Fale alguma coisa!
- Sim, o motivo é você.
- Eu sabia.
- Se sabia, por que perguntou?
- Queria ter certeza.
- Pois agora você está certo, tchau.
- Espera!
- Por que deveria?
- Você sabe que deveria.
- Sei, é?!
- Sabe. E sabe também que gosta de mim.
- Você só pode estar louco.
- Todos somos loucos, querida.
- Você é mais do que louco.
- E me orgulho disso.
- Orgulho? Onde estava com a cabeça quando atendi à sua ligação?
- Pare com essa cena. Você quer, eu sei.
- Escute: se você não passar aqui em meia hora...
- Isso é um sim?
- Meia hora!
Clique.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Camboriú

O cheiro úmido e salgado atingia-me as narinas, e eu lembrava outros tempos, tempos fugidos que eu não poderia alcançar novamente. As ondas quebrando em muita espuma, verde branco verde branco. Areia quente. Então a vi. Um rabo-de-cavalo displicente a lhe cair pelas costas, sobre o roxo bem roxo da saída de praia. Belíssimas pernas, pernas estonteantes, que seguiam até findarem em ternos pés, cujas unhas eram pintadas de azul. Não, não consigo descrever a profusão de sentimentos pela qual fui tomado. Por Deus, era linda demais! E eu cá, a uns quinze metros, reles mortal metido numa bermuda e todo molhado de mar. Contemplei-a um instante mais, até que ela volveu o rosto à minha direção. Sorriu. Retribuí, exibindo meus dentes não tão brancos como os dela. Súbito, uma prancha passou por mim. Finalmente vi os braços do surfista envolverem a minha miragem. As duas bocas se encontraram. E eu, sentindo-me triste e tolo ao mesmo tempo, tive de me contentar com a visão do papai noel de dez metros de altura, que adornava, grave e vermelho, o calçadão da Avenida Atlântica.

domingo, 25 de julho de 2010

Sementinha

A família toda reunida na sala, assistindo ao costumeiro programa noturno. É uma noite tipicamente dominical. Vovô e vovó, em meio a bocejos e escarros, também estão presentes. Uma cena linda. Chegam os comerciais e Pedrinho rompe o silêncio para sanar uma dúvida. - Papai, de onde eu vim? Todos os olhares passam a ter um único destino. Os tios não escondem o espanto. Vovó, ruborizada, pega da agulha e começa um tricô há muito inacabado. Vovô finge que dorme, os óculos na ponta do nariz. - Bem, filho, você saiu da barriga da mamãe. Ufa, pensou o pai, me safei dessa. Agora ele vai voltar a ver tevê e eu fico em paz. - Isso eu já sabia, papai! Quero saber é como fui parar lá dentro! Os tios disfarçam, tentam parecer invisíveis. As mãos da vovó se movem com mais rapidez, e o vermelho no rosto aumenta incrivelmente. Vovô começa a roncar, implorando para ser convincente. - Olha, filho - diz, entre suores, o pai -, o papai colocou uma sementinha na barriga da mamãe. A sementinha cresceu, cresceu e virou você! Agora sim, ele tinha se saído bem, não?

O pai olha para vovó, que responde com um olhar de "não sei de nada, o filho é seu". Vovô segue firme no ronco. E os tios? - Mas, papai, como é que você colocou essa sementinha na barriga da mamãe? O pai recomeça a suar, vendo que não haveria escapatória. Um tio se levantou, ia ao banheiro. Outro foi fumar lá fora. A tia foi ver se o cachorro tinha água. O tricô da vovó estava quase acabando, o que não era uma boa notícia. Os roncos do vovô passaram a chiados irônicos, como se ele quisesse dizer "você vai ter que explicar". Mas como explicar o sexo a uma criança de cinco anos, como?! As mãos trêmulas, o embargo na voz, o pai finalmente começa. - Então, filho, eu e a mamãe...

Súbito, um ruído baixo e breve. Mamãe - que até agora não tinha se manifestado - estava com o controle remoto na mão. - Olha, filho, tá passando desenho! Pedrinho se volta para o televisor, extasiado. É o seu desenho favorito. O pai olha, apreensivo, ao redor, esperando alguma reincidência do filho. Ao cruzar seu olhar com o da mãe, vê o sorriso esboçado no rosto dela, dizendo "me agradeça". Os tios voltam, incertos, e retomam seus lugares. Vovó guarda o tricô quase pronto na sacola, e agora o único vermelho em seu rosto é a leve cor da maquiagem. Vovô acorda e boceja. - O que foi que aconteceu? Papai abre as mãos e estica os dedos, aliviando a tensão. Está mais tranquilo agora. Por esta vez, ele conseguira. Sentada na sala, a família reunida. É um lindo quadro de domingo!