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terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Pulgas e Percevejos

Tudo nesta casa está tomado. Eu estou. E não adianta jogar inseticida pelos cantos, pelas paredes, pela memória. A luz alaranjada da lâmpada incandescente me entra nos olhos rascante, clareando os recessos mais escondidos - que, desde Freud, tento esconder até a eternidade. Há vários deles, bichos que vêm se arrastando, ou voando céleres, e corroem móveis e almas. Deixando rastros de lembranças, páginas velhas que alimentaram traças. Não se pode lê-las, nunca mais.

Festa perdida e intrépida, infame, repleta do açúcar que atrai infinitas formigas, fá-las tremularem as antenas, reunindo a multidão de Meca ao fim de mais um Ramadã. E eu, no jejum de sentimento, a refestelar-me glicídico, ainda que salte à vista, clara e tátil, a certeza do erro. Haveria modo de digerir esse doce, ou mesmo me digerir, para por fim nas ferroadas? É impossível dormir, com todo o corpo a explodir em feridas que se exibem destituídas de qualquer vestígio de pudor. Putas feridas.

Combinação perigosa. Pulga e percevejo, barata e gafanhoto, besouro e escaravelho. Um sarau estrondoso a ecoar onde quer que eu esteja, misto de serenata e militância - protesto trovador consumindo o que me resta de lucidez. Caço-os, procuro-os, imerso no amarelo luminoso, feito de raios e consciência; pífia tentativa. Faço-me rocambole na cama, suicídio lento e derretido que se junta às picadas e mordidas dos insetos da mente.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Era a primeira vez que matava um frango. Segurava a ave pelos pés e a outra mão circundava o pescoço (como seu pai lhe instruíra), estava prestes a começar. Mas sentia-se incapaz. Já matara outros bichos, bichos pequenos, baratas, aranhas, lagartixas. Mas eles pareciam insignificantes demais para se relutar em matá-los. Com o frango era diferente. Eram três quilos de peito, coxas, penas e canto. Não dava para matar algo tão grande. Só que teria de dar. Fechou os olhos e puxou a cabeça. O animal começou a se contorcer, batendo e batendo e batendo as asas, tentativa iníqua de escapar da morte. Ele apertou ainda mais as pálpebras e seguiu puxando. A cada vértebra que estalava, sentia-se pior. E o frango batia as asas, era pena por todo lado. Por fim, o trabalho foi feito. Cessaram os movimentos e um pouco de sangue escorreu pelo bico amarelo. Ele abriu a vista e contemplou o resultado daqueles minutos infinitos. Levou-o para dentro, a mãe cozinhava. Mais tarde, comeu o risoto com gosto, saboreando cada fibra da carne branca e macia de um frango qualquer.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Recompensa

A joaninha sobe obstinada pela verde haste da rosa, escalando os acúleos com determinação. Cai. Recomeça a trajetória. Outra queda, novo reinício. Suas anteninhas trêmulas captam o pungente aroma que vem de cima. Está lá, ela sabe. Arrasta suas bolinhas, sempre ascendendo. Chega, enfim, à corola avermelhada, onde delicia-se com o dulcíssimo néctar, nutritiva recompensa pelo não-esmorecer.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Acústico

Um rádio longínquo e mal-sintonizado mais chia do que toca. Barulho de colher e panela na cozinha. Um vento repentino que faz farfalharem as cortinas azuis do meu quarto. São esses os sons. Além, é claro, do risc-risc do grafite carbonizando no papel tudo (quase) aquilo que me passa na cabeça. É uma música antiga, gosto dela, mas não sei a letra nem lembro o nome. O ritmo leve me desvia totalmente do assunto  sobre o qual eu planejara escrever. Deixo-me levar pela melodia. Deixo que as palavras fluam, como estivesse psicografando a mim mesmo. É bom. Por um instante, penso que essa música poderia substituir ao menos um comprimido. Mas não. Daqui a pouco a música acaba. A música acaba e começa outra. Por que as coisas têm de mudar, meu Deus? Quando tudo está bem, alguém mete o dedo no botão do rádio e troca de estação. Ou então a música acaba. Ou, pior ainda, o rádio é desligado. Por quê? Começou agora a batida pulsante da música eletrônica, oposto total da suavidade anterior. O jantar está pronto. Carimbo na mente a única frase que consegui agarrar da música, fujona! Amanhã procuro a letra completa. Ou depois de amanhã. Ou depois. Sei lá. Onde está o equilíbrio?

terça-feira, 21 de setembro de 2010

o
eu
que
há em mim
não é capaz de
entender aquilo que
lava um oceano inteiro
no belo eu que há em você.
naquele mesmo eu que há
em mim, existe uma,
só uma gota

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Cadarços Desamarrados

Tropeços fazem parte de nossa vida. Caímos, levantamos e retomamos o rumo. E é isso o que nos faz aprender. É o que nos ensina como viver. O que seria de nós se nunca errássemos? Se fôssemos sempre bons? As quedas são fortalecedoras, são estimulantes, nos fazem perceber os equívocos do caminho. A partir delas, evoluímos enquanto seres humanos, e mais correntes são quebradas. Por conseqüência, vamos deixando a condição de prisioneiros e conquistamos mais liberdade. Liberdade. É tão estranho pensar que seja necessário cair para ser livre. Paradoxal, eu diria. Mas, por mais estranho que possa parecer, liberdade adquire-se a duras penas. No entanto, quanto mais liberdade conseguimos, menos medo sentimos de tropeçar. É que, livres, sabemos que as quedas virão apenas a nosso favor. Percebemos que as “pedras no caminho” nada mais são que uma escola. É como andar com cadarços desamarrados. O cair é iminente, sabe-se do risco que se corre, se porventura a gente pisar num deles. Porém, ao mesmo tempo, os pés têm mais espaço e o calçado fica mais confortável.  É assim a nossa vida – um grande sapato. Podemos andar seguros, mas com os dedos apertados; ou podemos até cair, mas sem incômodos pés doloridos. Enfim, a escolha é nossa. Afinal, cair é preciso. E é muito melhor cair sem uma dor a mais para atrapalhar. Sejamos livres, pois. Desamarremos nossos cadarços.