terça-feira, 27 de novembro de 2012

Hungry Heart

Veja bem, não ouvimos mais Bruce Springsteen como se não houvesse nada a fazer no amanhã que tínhamos pela frente. Estamos a centenas de quilômetros separados, eu tomando uma cerveja quente com a barba por fazer enquanto você provavelmente está jogando baralho com o pessoal, como fazíamos quase toda noite. Eu sinto falta. Da vida simples de quando cursávamos o fundamental, da facilidade em reunir todo mundo e irmos à praça, eu fazia o tereré e você a pipoca, ou vice-versa. Toda essa poesia nostálgica e à primeira vista sem importância, cotidiana naquele tempo em que havia apenas dias de sol e mantas estendidas na grama tão verde. Não estou triste, como você e o resto da galera possam pensar. É só essa saudade que me bota uma camisa-de-força de quando em vez, e eu fico preso nela, apenas lembrando. Mas meu coração, assim como a música que a gente cantava num inglês completamente não-inglês, meu coração tem fome. Fome dessas coisas que agora não passam de imagens na cabeça. Fome de voltar para o céu azul e sem nuvens, do calor refrescado com o mate trincando, que inclusive dava dor de cabeça às vezes, de tão gelado. Essa fome. Eu achava que não haveria este jejum. Mas aí ele aparece, sorrateiro e invasivo, como um pequeno câncer. Um pequeno câncer que quimioterapia alguma cura.

domingo, 25 de novembro de 2012


Eu queria viver aquela boemia. Trocar o dia pela noite, chegar em casa quando o sol estivesse saindo da dele. Quem sabe até morrer de tuberculose aos vinte e poucos anos, como algum poeta do século dezenove. Não ter pressão sobre o que sou, falo, faço ou ingiro. A única pressão sendo a do lápis sobre o papel escrevendo furiosamente qualquer coisa que me passasse pela cabeça. Viver todas as paixões de meia hora que acontecem na madrugada, com força, com fogo. Desbravar os cantos mais obscuros da cidade, as ruas de paralelepípedos, os menos afortunados, a poética sujeira da periferia. Beber no gargalo uma garrafa inteira de uísque barato, comprado com as poucas notas amassadas que eu ganhasse com palavras tortas e sifilíticas tão impossíveis. Não me importar com o comprimento da barba ou o que quer que haja nesse sentido. Ter um bom grupo de companheiros românticos, no sentido literário da palavra, para que não levássemos a vida normal, pastel e sem graça de sempre. Para que algo de novo acontecesse todo dia. Para que eu tivesse um filho inesperado, ou fizesse um recital na praça. Para que eu pudesse exteriorizar sem medo toda a inquietação e bagunça que há aqui dentro. E alguém soubesse de mim.

domingo, 4 de novembro de 2012

Contínuo

já quis dizer tantas vezes
tantas vezes o que me faz ficar pra baixo
pra baixo da linha da tristeza
da tristeza que me bate quando estou sozinho
sozinho ando na rua de noite
de noite pensamentos ganham vida
vida nada mais é que um pedido de ajuda
ajuda para acabar com toda a dor
a dor de existir, pura e simplesmente
simplesmente uma pessoa, um ninguém
ninguém nunca me trouxe café na cama
na cama fico o dia inteiro
inteiro ou pela metade, nada faz diferença
diferença só existe na cabeça
na cabeça residem todos os meus amores
meus amores de inverno ou verão
verão do sol sem misericórdia
misericórdia, senhor, eu peço
peço com toda a minha força
força que retiro de não sei onde
onde eu deveria estar?
estar assim é meu cotidiano
cotidiano me bate no rosto
rosto marcado por cansaço
cansaço que se recusa a sair
sair de fininho não é opção
opção é quando se tem escolha
escolha se faz por pensar muito
muito tempo faz que alguma coisa eu já quis