segunda-feira, 28 de março de 2011

Ade

Saudade comprida. Saudade que tem começo, mas perdeu-se e não quis final. Um beijo dramático no espírito das coisas que já passaram e o espírito volta com a nostalgia de todas as horas. A cabeça levando em banho-maria os conceitos que têm de crescer como pão-de-ló. E quando o fogo acaba? Quando a gente sente que já não dá mais, ou que até dá, mas muito mal dado? Saudade demorada. Saudade que não usa relógio. As perguntas fáceis, dúvidas simples, fragmentos de inocência que já não existem mais. Agora tudo é ade. Maturidade, responsabilidade, que vêm indissolúveis da tão desejada liberdade. Mas o eco e a rima só fazem aumentar a ânsia. E a saudade. Mais um ade. O primeiro ade. O ade que sempre existiu, e que vai existir pra sempre.

segunda-feira, 21 de março de 2011

porque na verdade é tudo isso
e tudo isso é poesia
o tudo isso dos olhos
o tudo isso da boca
o tudo isso lá de dentro
o tudo isso de quando se sente aquilo que se sentiu

terça-feira, 15 de março de 2011

Aleatório

A luz forte, fluorescente, entra como faca nos olhos. Mas não quer fazer mal. É uma sensação de leveza, que contrasta em tudo com o peso em volta. A faca está apenas passando manteiga nos pensamentos quentes, e a manteiga vai derretendo derretendo e me lembrando daquele cheiro de pipoca de cinema. E, como num filme antigo, as imagens vêm passando lentas e apressadas, risquinhos pretos pululando na tela. Aí eu apago a lâmpada e tiro a faca da cabeça, e a uso para passar a manteiga num pão. Pão italiano. Casca dura, miolo macio. E penso em água, água pura, de mina. A água passa pelo corpo e revitaliza as coisas que encontra por lá. Até que o filme acaba, o pão acaba, a água seca e eu fico apenas leve, no escuro. Sem faca, só a leveza e um buraco nos olhos.

sábado, 12 de março de 2011

A dor de existir, pura e simplesmente.

sexta-feira, 4 de março de 2011

É aquela coisa cinza e vaporosa que cobre o céu num dia frio. Tão cinza e tão vaporosa quanto a fumaça encorpada que rodopia no ar. Uma sacada e um cobertor. Era tudo uma confusão, um jogo de luz e sombra que ninguém sabia como controlar. Mas parecia que agora ele tinha reencontrado o prumo. Ou, pelo menos, estava reecontrando. Isso era bom. Sabe, quando não há alma viva para atrapalhar e você aprecia aqueles momentos de solidão gostosa, quem sabe com um vermelho pendendo dos lábios, ardente, ou talvez uma xícara de café forte, ou ainda os dois juntos. A cabeça desanuvia e você esquece que tem problemas, que tem crises, que tem mil e uma coisas para estudar. Aí você pensa naquela música triste que te fala tanto sobre alguma coisa qualquer, e se sente envolto numa aura de nostalgia que, apesar da aparência, é tão boa. Tão boa. E sente saudade de coisas que nunca aconteceram, e olha pro céu e vê o cinza, e vê o cinza na sua frente, e imerge num mar de cinza. Um cinza quente, fluido, acolhedor. Então, você se dá conta de que está lá, na sacada, enrolado num cobertor felpudo, sentindo a brisa gelada bater no seu rosto e te lembrar que você existe. E você fica com medo de a brisa apagar o cigarro, mas no fundo sabe que a brisa só quer brincar com você. E, por fim, fica feliz, uma felicidade diferente daquelas que a gente sente às vezes, um misto de êxtase com sono, um estado de espírito sem igual. E fecha os olhos, apreciando ao máximo esse prazer.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Cotidiano

Brigitte levantou-se. Ou, pelo menos, o que restara dela, menos por vontade própria que pela obrigação de todo dia. O vermelho borrado na boca e as manchas escuras no pescoço delatavam-na. Mais uma noite. Amarrando a faixa do robe vagabundo, estalou os dedos dos pés – inexplicável prazer matutino. Irônico, isso de “prazer”. Definitivamente irônico. Queria ser não-adjetivada, não-subordinada, não-regida. Na verdade, queria apenas ser. Olhou pela janela, e esperou que viesse o segundo sol, ou qualquer porra de novidade que a fizesse se sentir viva. Mas só havia um, e brilhava forte, como zombasse da moça seminua. As unhas desbotadas, roídas até a carne, seguraram a cortina com força. Tinha uma explicação. Não tinha uma explicação. Foda-se a explicação. Foi ao banheiro e torceu o registro, deixando a água morna cair livre, liberdade da qual ela mesma não podia gozar. Sentou-se. As lágrimas se misturavam com as gotas caídas do chuveiro. Maldisse a vida que levava, como sempre. Torceu o registro de novo e se enrolou numa toalha puída, um abraço de algodão velho mais ou menos reconfortante. Olhou o vestido minúsculo que jazia acusador no chão do quarto. Ao lado, um espartilho preto. Um enlouquecedor espartilho preto. Que, se pudesse, nunca mais usaria. Enfim, abriu o guarda-roupa. Calça jeans, tênis, camiseta branca com a logo da extinta firma do pai. Pai... E assim, mais limpa - aliás, menos suja -, saiu. Renata trancou a porta; deixou Brigitte mofando. Até a lua aparecer.