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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Qualquer data cabe.
Para quem quiser,

Sinto uma vontade tão grande, tão enorme, tão visceral. Eu preciso me entregar a alguma coisa que me leve completamente, que sugue minhas lágrimas de alguma forma, por Deus, definitiva. Quero me lançar em algum rumo que não tenha rumo, poder desfrutar meus vícios à vontade, sem ninguém que venha me levantar. Porque eu quero ficar caído. No chão. Entende? Cansei dessa babaquice de ser a pessoa perfeita, educada e cordata de quem todo mundo gosta. Eu quero é me afogar em mares de álcool, em chaminés de cigarro, em céus e em lábios – os de cima e os de baixo. Preciso ser, droga, ter a possibilidade de usar minha barba no comprimento que eu quiser, deixar a tampa do vaso levantada. Ninguém tem noção de como me encanta toda essa marginalidade. Essa marginalidade. Com o câncer e a cirrose eu me entendo depois, não preciso de gente cacarejando nos meus ouvidos. É isso que eu procuro. É isso que desejo. Eu tenho de ficar lá, rastejando, com bafo de cerveja e de tabaco. Por favor, não quero mais essa merda de vida. Merda. Vida.

Sem mais.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Qualquer Lugar, 14 de dezembro de 1990.

Mijei sentado esta manhã. Foda-se o que vão pensar. Mijei sentado com um copo de cerveja, dourada como a urina que eu expelia. Fiquei lá na privada, com as lembranças vindo como formigas carregando folhas. Pensava na merda em que está chafurdada minha vida, e pensei até sair a última gota. Chacoalhei, e foi como tivesse chacoalhado a mente - desanuviou-se a cabeça e roteirei o dia. Vidro sobre mármore, na pia, manchas líquidas que me evocavam seus lábios. Não fique se martelando, eu também não sei. E tampouco faço ideia do motivo de eu estar escrevendo isto. Sabe quando você sente a necessidade? É claro, ninguém manda uma carta contando como urinou no dia em questão. Mas até que é bom você ficar sabendo. Assim, não vai poder começar o invariável discurso de como eu sou machista e aquela porra toda que você sabe que diz. É engraçado, mas depois de um tempo irrita. Enfim, é isso. Hoje eu mijei sentado.

Te amo.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Algum Lugar, 23 de março de 1990.
Querida,
    Sabe, já pensei em ser mais cavalheiresco, dizer eu te amo, expressar meus sentimentos, oferecer ajuda pr'aquelas coisas que você diz não conseguir fazer. Já pensei em tudo isso. Mas acontece que, se eu o fizesse, não seria eu. Você sabe que eu tenho essa casca grossa, que minhas mãos ásperas não fazem carinho da forma que você deseja. É meu jeito de ser, querida, não que eu queira ser assim. E - eu sei que você sabe - até esse "querida" está sendo dificílimo para mim. Talvez por isso eu só consiga dizer o que estou dizendo por meio escrito. As palavras sempre foram minha válvula de escape, a única forma de eu dar vazão ao que acontece lá dentro. E, sim, eu sei que já troquei você por essas minhas companheiras, inúmeras vezes. Sei que fui ausente. Me desculpe. Peço-lhe, agora (se é que estou em condições de pedir algo), não que aceite, mas que perdoe tal ausência minha. E que, quando ler isto aqui, saiba que estou lhe falando a verdade, apenas não sei demonstrar meu amor. Não demonstrar é diferente de não sentir. E eu sinto tanta coisa... Tanta coisa...
Difícil, mas carinhosamente,
do seu.