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sexta-feira, 8 de julho de 2011

Abriu a porta e deixou que a luz do sol - por incrível que pareça, fazia sol - inundasse seu rosto. Esperava que a luz entrasse pelo nariz, como o ar gelado que soprava vento e balançava as folhas das árvores e deixava a biruta ali perto mostrando a direção do sopro. Debruçou-se na grade da sacada, os cabelos castanho-escuros caindo pelos ombros, voando, refletindo a luminosidade da manhã. Levou a mão à boca e roeu a unha do polegar, enquanto olhava os carros passarem, apressados, lá embaixo - borrões pretos, prateados, vermelhos que avançavam no frenesi de mais um dia. Quanto movimento! Fechou os olhos e se concentrou no som dos pneus e dos motores e dos pássaros, volantes como os fios marrons - belíssimas ondulações. Respirou a luz mais profundamente, seu interior se tornando claro, brilhante. E o calor entrava, e a brisa também, e tudo ia ficando tão novo... Cabelos dançarinos e unhas roídas numa fotossíntese de sentimento. Sinestesia nas alturas. Sexta-feira de manhã.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Mordimento

Na pia, a costumeira anarquia de objetos. Imersa na água espumenta, a escova morta. Amarela, cerdas macias, ainda com resquícios do gel dental azul com sabor de menta americana. O sabonete obstruía o ralo. Meteu a mão na massa mole e escorregadia e lavou a cara. Saiu sem se secar. Ao passar pela sala, pisando no macio tapete ornado com motivos orientais, sentiu a pontada familiar de nostalgia e arrependimento. Gostaria de retroceder no tempo, fazer com que as coisas acontecessem de outro modo. Mudaria, contudo, se o calendário voltasse? Ele mesmo tinha dúvidas se não faria tudo igual. Pediu perdão em silêncio, agora enxugando o rosto com a camiseta. Dirigiu-se à janela, e as recordações não cessavam. Palavras duras, soltas quase sem querer. Brilho metálico. Lágrimas. Viu o rosto em pranto, "por quê? por quê, meu filho?". O sol se desescondeu e incidiu em cheio no rosto dele. Foi bom. Vislumbrou as bolinhas vermelhas e vinho destacadas contra o mar de verde, lá fora, e sentiu a salivação. Foi colher as acerolas. Era a fruta preferida da mãe.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Menta

"Fiz um drops de hortelã da bala que eu te dei,
para atirar o porém da frase que eu nunca fiz"

 A bala ia-se derretendo e a refrescância pungente impregnava a língua da mulher. Chupava sempre as balas de menta. Talvez para atenuar qualquer fumo ou álcool teimosos que permanecessem na boca. Ou para melhorar o hálito e agradar os velhos nojentos que lhe roubavam de si própria toda noite. Aparência é aparência. E não podia ser outro sabor. Recusava a cereja e o tutti-frutti, o morango e a banana. Tinha que ser menta. Fora o último gosto que dividira com o primeiro e único amor, já sepultado, numa disputa apaixonada pela bala, que perambulara lá e cá no vão das bocas coladas, entre dentes e firmamentos e saliva. Era o que restava daquele beijo derradeiro, antes de ele voltar a casa e nunca chegar. Chuva e carro não combinam. Ela vencera a disputa, ficara com a bala - a finíssima lâmina açucarada que quase nem era mais bala. Desde então, a menta confortava-a e a fazia lembrar dele, enquanto se submetia ao repugnante desconforto cotidiano. Agora ela colocava cor nas faces, e já desembrulhava mais uma companheirinha verde. Gostava do barulho do plástico se contorcendo, estalando. Coloriu os lábios de escarlate, um escarlate meio velho, ajeitou a meia preta gradeada como rede, rede de pescador. Ele disse-lhe que era pescador. Dançou a bala na boca e pensou nele novamente. Calçou os sapatos, vermelhos e muito altos, e apagou a luz. Finalmente, misturando fumaça e hortelã, seguiu relutante em direção ao dever indesejado, deixando o rastro etéreo e cinza, que se dissolvia bailando no ar atrás de si.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Nostalgia

"Prefiro o clássico de um vinho tinto.
Abaixo o novo padrão e sua glória." (G. F. Jarbas)

Ele se perguntava se toda a sua felicidade compor-se-ia de imagens congeladas e fragmentos de coisas acontecidas. Se ela seria apenas a síntese dos indeléveis momentos já vivenciados. Por que não havia a empolgação com o agora ou a ansiedade receosa do amanhã? Por que parecia que as únicas coisas boas - incluindo música e gente - eram de tempos anteriores? Talvez nascera na época errada. Ah, se pudesse voltar algumas décadas! Gostava do preto-e-branco, de vozes esquecidas, de velhas tradições. Sentia-se deslocado. Mais, sentia saudade de algo que não vivera. Uma espécie de déjà vu abstrato. Como isto se explica? Não conseguia entender, em absoluto. Todos os seus verbos conjugavam-se no pretérito.

domingo, 1 de agosto de 2010

Retrato

"Há um menino, há um moleque,
morando sempre no meu coração;
toda vez que o adulto balança
ele vem pra me dar a mão." ♪♫

Lembro-me de que, na sala, uma fotografia repousava calmamente sobre o aparador. Dentro da moldura, o passado congelado. Um menino, ainda inconsciente das dificuldades da vida, sorria de forma descontraída para a câmera. Uma bola, um livro e uma fatia de melancia acompanhavam o garoto e exibiam-se diante da lente. A conhecida nostalgia me invade novamente, a saudade de um tempo que bem podia voltar. Um tempo em que as preocupações eram do que iríamos brincar amanhã e o que a mamãe prepararia para o almoço.  Infelizmente, não se pode segurar a areia da ampulheta, ou fazer com que as folhas do calendário não virem. O curso dos dias é incontrolável. Um rapaz já crescido visualiza a tal moldura à sua frente, olha o riso solto do garoto preso até não sei mais quando. É, o tempo passa. O tempo passa e temos de acompanhar esta pasagem. Nós mudamos. O jovem olha novamente o retrato, recordando os sons, sabores, cheiros e texturas da infância. Sim, ele mudou. Mudou muito, aliás. Mas sente que, nos recônditos de sua alma, ainda é a criança dos olhos vivos e gargalhada aberta. De repente, o odor frutal toma conta e ele vê as mãos. Estão sujas do caldo da melancia. Um menino está absorto, enlevado pela fotografia de um rapaz. Há uma bola, um livro e uma fatia de melancia. Por um instante, o rapaz dá por si confinado no portarretratos, enquanto um garotinho olha fixo para ele. Nessa hora, é impossível distinguir a criança do rapaz.