quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Lixa

Sinto a tua falta nos mínimos detalhes desta casa. Inclusive no rolo de papel higiênico barato que comprei justamente porque era barato. Não é como aqueles que você comprava, folha dupla e desenhos de coelhinhos ou carneirinhos impressos na maciez branca que até dava mais vontade de cagar. Eu adorava isso em você, essa tua preocupação com a sensação que teria ao se limpar. No início eu cheguei a pensar que fosse um cuidado premeditado com a textura daquele pedaço inexplorado de pele, para mantê-lo incólume quando eu o fosse desbravar. Mas nós nunca chegamos a esse ponto, apesar de termos escondido uma versão de bolso do kama sutra embaixo da pasta de documentos na terceira gaveta do criado-mudo. Ainda assim, gostava de ver tua obstinação ao abastecermos o carrinho de compras, quando ficávamos mais tempo na seção de higiene pessoal do que na de hortifrutis – e olha que você era vegana.

Você dizia que é nosso dever cuidar do corpo em toda a sua extensão, mesmo lá. Afinal de contas, o ânus era de fato o primeiro orifício formado quando ainda não passávamos de um amontoado de células se dividindo sem parar, e lembrava as aulas do pré-vestibular e da faculdade, trazendo palavras difíceis como “deuterostômio” e dizendo que isso nos deixava no topo da cadeia evolutiva, juntamente com as estrelas-do-mar. Eu fingia recordar esses conceitos antigos, embora na realidade o maior legado do cursinho para mim tenha sido o  “puta velha não rejeita tarado”, e achava lindamente engraçada tua avidez ferrenha em defender coisas das quais quase ninguém fala a respeito, como a boa limpeza do cu. E isso é o que me dá tanta saudade, esse teu jeito incomum, poder discutir escatologias durante o jantar, falar de vômito e diarreia com a mesma naturalidade com que conversávamos sobre a nova cor da parede da sala, a situação política do país ou os efeitos do aquecimento global.

Quando a situação entre nós ficou insustentável e você decidiu ir embora, eu entendi. Mesmo assim, chorei mais do que ao ver aquele filme que veio errado dentro da capinha, queríamos uma comédia leve para a quarta-feira e acabamos desidratados, pondo a culpa no dono da locadora. Na tentativa de limpar o rosto, senti o toque aveludado dos coraçõezinhos em relevo e aí sim foi que a comporta abriu e as águas seguem rolando até hoje. Porque nas linhas demarcadas e nos picotes do papel estão as linhas e os poros da tua mão, do teu rosto, de você por inteiro, analisando minuciosamente as embalagens nas gôndolas do supermercado, escolhendo animais entre todo um zoológico disponível e fazendo discursos sobre o ato de evacuar.

Mas hoje eu comprei o mais barato, que não tem bichinhos e passa como lixa ao ser usado. Que nem o teu olhar quando você bateu a porta e não voltou mais.