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domingo, 17 de julho de 2011

Laboratório

Um ser humano é o meu amor.
De músculos, de carne e osso,
pele e cor. ♪♫

O cadáver nu na mesa fria tinha a boca meio torta, congelada num eterno sorriso deslocado. Não parecia, agora, mais assustador do que os mortos de velório, sempre enfiados em algodão, ternos e caixões. Um olho fechado, o outro entreaberto – como cuidasse para ninguém injuriá-lo durante o sono. Este detalhe do olho alimentava alguns medos; era, porém, o aviso na porta do laboratório que se incumbia do choque inicial dos novatos na anatomia. Hic locus est ubi mors gaudet sucurrere vitae. As grandes e prateadas palavras latinas sempre causavam uma reação impressionada dos estudantes, reação essa que todo ano fazia o professor Molina esconder uma discreta risada de canto. Eram uns ingênuos, esses alunos, pensava. E o cadáver dissecado continuava deitado a cada turma, espreitando o seu redor com aquele meio globo caramelado à mostra.

Professor Molina, com seu terno azul-marinho de risca-de-giz, impecável sob o jaleco imaculadamente branco, adentrou a sala III do laboratório. Era fevereiro, estava quente. Sacou da caixa o par de luvas e pediu para o assistente trazer as bacias com os corações. Havia vários deles – inteiros e seccionados, vermelhos e acinzentados. E de corações o professor entendia. Era cirurgião cardíaco, cada corte milimétrico do seu bisturi lhe valia muito dinheiro. Alisando o cabelo penteado com extremo cuidado, lançou um ligeiro olhar para o indivíduo inerte e seco na mesa ali ao lado. Os músculos à mostra, marrons. Os alfinetes com marcadores – que estrutura está apontada pela seta 21? Até que, fazendo-o desligar-se do cadáver, os corações chegaram. Nas bandejas, como fossem uma estranha refeição. Calçou as luvas, talheres para o jantar.

– Atenção, esta aqui é a aurícula direita, uma projeção muscular do átrio, que lhe confere maior capacidade.

Molina olhava, impaciente, seu relógio – que, segundo as piadas hiperbólicas correntes em toda a universidade, havia lhe custado tanto quanto seu BMW sedã preto, que atraía inúmeros olhares no estacionamento dos professores. Queria que a aula terminasse logo. A sensação familiar já se manifestara e ele queria resolver isso o mais rápido possível. Sentia os dedos, recobertos pelo látex branco, se contraírem, pressionando a borda da bancada. Conferiu a hora mais uma vez – sua voz discorrendo sobre artérias coronárias; sua mente, pensando na recompensa que viria mais adiante.

– Professor, de onde mesmo parte o ramo circunflexo?

Ele respondeu à questão, ríspido, apressado, e a aula acabou. Tentou ser menos rude ao se despedir dos alunos – a maioria com os jalecos sujos, meu Deus do céu – e chamou novamente o assistente. Pediu-lhe que guardasse os corações e que ninguém o interrompesse na hora seguinte. O assistente fez que sim com a cabeça e saiu, enquanto Molina pegava o telefone – também caríssimo, como tudo o que era seu – e apertava algumas teclas. Mirou outra vez o corpo ali na mesa. A “peça”, como os anatomistas costumavam chamar. E sentiu que o momento tinha chegado.

***

Mariana precisava falar com o professor Molina. Faltara à última aula teórica e não tivera a oportunidade de ver sua nota. Sabia que ele havia acabado de lecionar para o primeiro período e pensou que talvez ele estivesse livre para atendê-la. Passou pela porta do laboratório, já acostumada ao pequeno arrepio que sentia ao ler a frase em latim. Este é o lugar em que a morte se compraz em auxiliar a vida. Ainda assim, gostava de trabalhar com os corpos – e suas partes. Era divertido.

Percorrendo o longo corredor verde, a estudante não via ninguém. Nem João, o técnico que assistia os professores, dava sinal. Resolveu ir à sala III, onde aconteciam as aulas práticas; o professor provavelmente estaria lá. Deu mais uns poucos passos e girou a maçaneta.

– Professor, o senhor está aí? Eu gostaria de...

Súbito, Mariana ficou muda. Não acreditava naquilo que seus olhos e cérebro diziam que estava vendo. Suas tentativas de entender a cena que ali se exibia não foram, absolutamente, satisfatórias. Olhou o jaleco cuidadosamente dobrado na bancada, juntamente com o famigerado terno azul-marinho de risca-de-giz. Sobre ele, o Rolex. Finalmente, viu de novo o cadáver dissecado, na mesa de inox, virado de bruços. E o professor Molina, em cima dele, a roupa de baixo nos tornozelos, com uma cara tão perplexa quanto a sua.

terça-feira, 15 de março de 2011

Aleatório

A luz forte, fluorescente, entra como faca nos olhos. Mas não quer fazer mal. É uma sensação de leveza, que contrasta em tudo com o peso em volta. A faca está apenas passando manteiga nos pensamentos quentes, e a manteiga vai derretendo derretendo e me lembrando daquele cheiro de pipoca de cinema. E, como num filme antigo, as imagens vêm passando lentas e apressadas, risquinhos pretos pululando na tela. Aí eu apago a lâmpada e tiro a faca da cabeça, e a uso para passar a manteiga num pão. Pão italiano. Casca dura, miolo macio. E penso em água, água pura, de mina. A água passa pelo corpo e revitaliza as coisas que encontra por lá. Até que o filme acaba, o pão acaba, a água seca e eu fico apenas leve, no escuro. Sem faca, só a leveza e um buraco nos olhos.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Encontro

As luzes dos postes passavam em intervalos mais ou menos regulares, à medida que ele avançava em sua trilha solitária. O barulho do vento, as pisadas no asfalto, as batidas do coração. O negrume da noite envolvia tudo e ele andava sem rumo, movido por um súbito e estranho ímpeto. O único que sabia era a necessidade de caminhar. Para onde, ele ignorava. Martelava sua mente um comando. Ande, apenas isso. Talvez não houvesse causa. Volveu os olhos ao firmamento – bela palavra essa, firmamento – e contemplou a lua, circundada por um halo multicor. Tropeçou. Concentrou-se novamente no caminho; os cadarços desamarrados, como sempre. Quando deu por si, viu a grade carcomida e enferrujada dos portões do cemitério. Ele não havia, pelo menos não de forma consciente, planejado ir até a morada dos mortos. Mas, já que ali estava, entrou. Nunca se imaginara naquele lugar àquela hora, e sentiu uma torrente de adrenalina percorrer-lhe o sangue. Gostou da sensação, da mórbida mistura de satisfação, medo e outros temperos que conferiam um sabor agridoce à tão ímpar experiência. Encontrou a enorme cruz. Não mais controlava as ações. Estava tomado por algo inexplicável. Confuso, fúnebre e divertido – tudo ao mesmo tempo. Ajoelhou-se. Disse de si para si coisas ininteligíveis. Por fim, encontrou uma defunta estonteante. Ei-lo, o motivo. Destino, talvez? Ele conversou, riu e amou a noite inteira. Depois, ao primeiro clarão solar, deixou velas e lápides para trás. Descarregara a tensão. Seria loucura?

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Assassinato

Quando percebi o brilho da lâmina – e sua proximidade assustadora – senti que era tarde. Ela me agarrara sem dó, jogara-me nesta fria superfície e saíra. Agora, está de volta, e eu soube então o destino que me era reservado. Soube que iria morrer. Que tirariam minha pele. Que eu seria esquartejada. Que eu estaria literalmente frita. Por um momento, posso ver meus companheiros sardentos, os momentos de alegria que não mais poderei viver. Vejo-a pronta para o ataque, brandindo uma impiedosa faca. Sim, eu já havia escutado histórias de colegas que eram brutalmente sacrificados, apenas para satisfazer um desejo; mas nunca imaginei que tal pudesse acontecer comigo. Ela saiu outra vez, tenho um pouco de tempo restante. Lembro-me de um pesadelo que tive há alguns meses – outro pesadelo estou vivendo agora – no qual eu e meus amigos caíamos, aos pedaços, num mar de líquido viscoso. E quente. Muitíssimo quente. Minha última visão fora uma coisa amarela, que parecia estar em todo lugar, naquele ambiente. Uma cobra comprida, estreita, meio dobrada. E amarela.

Chega de nos lembrarmos dos sonhos, voltemos à realidade – que eu não sei dizer se é melhor ou pior que as reminiscências oníricas. É triste ver que estou indo pelo mesmo caminho que minha prima, coitada. Aquela sem-coração que me ameaçou com a faca pegou minha prima também. E o mais terrível: assassinou-a da pior forma – espremeu a pobre (que não fizera nada de mau) e parecia muito satisfeita ao ver saírem as vísceras de minha priminha pelos orifícios do instrumento de tortura. Eu presenciei esta cena, e confesso que sofri muito. Acredito que me encontrarei com ela em algum lugar. Um lugar onde haja muita terra e muito verde. Onde não exista metal e óleo. Ah, meu Deus! Lá vem a senhora do alumínio. E do ferro, e do aço inoxidável. Junto com ela, em suas mãos, a maldita faca. É, eu vou morrer. Só agora percebo a efemeridade da vida. E só agora lembro-me de que não me apresentei, que tola! Nesse momento derradeiro, permita-me dizer quem sou e de onde vim. Vamos aproveitar os míseros segundos que me restam. Nasci num campo muito bonito, com meus companheiros por perto, em meio às folhas. Tive, contudo, de vir parar aqui, neste espaço frio e apertado junto às frutas. Que humilhação!

Oh, a faca está se aproximando! Sinto a lâmina atravessar-me o abdômen, provocando uma dor excruciante. Estou morrendo. Ouço alguma coisa borbulhar, não muito longe. A assassina olha para mim com frieza e exclama, parecendo satisfeita: – Crianças, adivinhem o que teremos para o almoço! Ensandecidos gritos infantis de alegria rompem o silêncio quando sou descoberta. Sinto faltar-me o ar, vou morrer! Agora. Muito prazer. Eu sou – digo, eu era – a batata.