quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A Pedra

a pedra estava
no meio do caminho uma pedra
caminho do qual a gente desviava
por causa da pedra
obstáculo
mas a menina foi lá
e limpou a poeira da pedra
e viu que não era pedra
era um diamante

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Pulgas e Percevejos

Tudo nesta casa está tomado. Eu estou. E não adianta jogar inseticida pelos cantos, pelas paredes, pela memória. A luz alaranjada da lâmpada incandescente me entra nos olhos rascante, clareando os recessos mais escondidos - que, desde Freud, tento esconder até a eternidade. Há vários deles, bichos que vêm se arrastando, ou voando céleres, e corroem móveis e almas. Deixando rastros de lembranças, páginas velhas que alimentaram traças. Não se pode lê-las, nunca mais.

Festa perdida e intrépida, infame, repleta do açúcar que atrai infinitas formigas, fá-las tremularem as antenas, reunindo a multidão de Meca ao fim de mais um Ramadã. E eu, no jejum de sentimento, a refestelar-me glicídico, ainda que salte à vista, clara e tátil, a certeza do erro. Haveria modo de digerir esse doce, ou mesmo me digerir, para por fim nas ferroadas? É impossível dormir, com todo o corpo a explodir em feridas que se exibem destituídas de qualquer vestígio de pudor. Putas feridas.

Combinação perigosa. Pulga e percevejo, barata e gafanhoto, besouro e escaravelho. Um sarau estrondoso a ecoar onde quer que eu esteja, misto de serenata e militância - protesto trovador consumindo o que me resta de lucidez. Caço-os, procuro-os, imerso no amarelo luminoso, feito de raios e consciência; pífia tentativa. Faço-me rocambole na cama, suicídio lento e derretido que se junta às picadas e mordidas dos insetos da mente.

domingo, 20 de novembro de 2011

Samba Canção

Te escuto
no compasso
cadente e ritmado
de um disco na vitrola

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O buraco da tomada parece menor do que quando você estava aqui. Ou foi a coordenação motora que desertou do meu barco junto contigo? Se eu pudesse quantificar a dor, numa escala de zero a dez, seria treze. Localizada? Não, definitivamente. Sinto-a na cabeça, no peito, nos braços, no estômago, nas pernas e no saco. Sinto-a na escova de dentes que tu deixou em cima da pia do banheiro. Na tua falta que te faz mais presente do que nunca. Eu conseguia controlar o dinheiro. Mas você foi embora, com a mala azul e a camiseta do Aerosmith rasgada na manga. E eu apenas ouço, com o copo na mão, there's a hole in my soul. E precisando da minha carteira de cigarros que estava sobre a mesinha do computador.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Irremediável

- Velho, tu tá bebendo demais hoje...
- Tô bebendo de menos, isso sim. Mas hein, sabe quando tu se vê na estrada e à tua frente tem dois caminhos?
- Porra, de novo com essa história de indecisão?!
- Não é isso...
- E o que é, então?
- É que, na real, não importa o caminho que tu escolhe.
- Como não importa?
- Não faz diferença, a gente nunca vai chegar ao fim da estrada.

sábado, 17 de setembro de 2011

Entrei no quarto e vi o abandono tão cuidado de todo esse tempo que você esteve fora. A capa do Laranja Mecânica aberta no criado-mudo, a cama com os lençóis remexidos há mil anos. Manchas de café, pó e pelos no chão que delatavam a falta que você faz. Não porque você provavelmente chegaria e me olharia com aquele olhar bravo mas brincalhão, me mandando pegar uma vassoura, um rodo, um pano e arrumar toda a bagunça, mas no final limpando tudo você mesma. Não é por isso. É pela sua ausência em mim. Em todo o nosso mundo. O batom na pia do banheiro, ao lado do vidro de perfume - aquele perfume que parecia feito exclusivamente para você. A escova de dentes vermelha, a pinça (que várias vezes você tentou utilizar em mim, sem sucesso), tudo. Tudo, convertido no vácuo de agora. Por vezes eu fico alheio aos movimentos cotidianos, pensando se haveria outro modo. Aí é mais uma cerveja que eu abro, e nessas horas parece que todo o líquido que eu bebo sobre e se dirige aos olhos. Por quê? Tento ouvir qualquer coisa, uma conversa, um som chiado de rádio mal-sintonizado, algo que me faça desviar o foco da sua imagem negativa. Eu sei que o que eu fiz é imperdoável. Inadmissível. Mas eu achava que ia esquecer. Esquecer a noite, a noite cheia de estrelas e uma lua tímida decalcada no negro do céu. Esquecer a sua pele aos poucos adquirindo cor, primeiro violeta, depois um azul claro que até chegava a ser bonito. Mas agora eu posso ver. Que as decisões tomadas foram inúteis. Que eu não esqueci. E que, pelo contrário, você nunca esteve tão presente. No quarto, na casa. Principalmente, no entanto, por mais que eu tente evitar, você está presente em mim.
Verônica era verborrágica
prolixidade com gosto de sobremesa
profusão de mentes, completamente
absolutamente
mas o melhor de Verônica
era quando ela não dizia palavras
(as tantas palavras que dizia)
apenas fonemas exasperados e sem sentido

sábado, 27 de agosto de 2011

Sem tempo para palavras cruzadas

A vida é se há liberdade. Eu sou livre? Creio que não seja corajoso o bastante para admitir que não, embora meus cigarros me condenem rapidamente. Na verdade, os cigarros são o menor dos meus males, o problema é que à primeira vista eles parecem maiores do que realmente são. Mas não estamos aqui para falar de tabaco, e sim de liberdade. Ou podemos continuar com o assunto, ou mudar, enfim, ser livre é ser mutante, metamórfico. É isso, não? Tomo uns goles de um vinho ruim - comprei porque era barato - e deixo que o álcool faça efeito. Porque o álcool é livre, provavelmente mais livre que eu, e ele age livremente sobre mim. O gosto adocicado, mais açúcar que outra coisa, estimula a minha língua, o que me leva a pensar em bocas e beijos e pescoços. Isso é ser livre? Quando ia ao banheiro e ficava lá sentado, com a revista de palavras-cruzadas no colo, a caneta balançando ou sendo mordida, a cabeça procurando a solução para a charada, me pergunto se nesse momento eu era livre. Coquetel (?): arma incendiária utilizada em protestos. Vertical, sete letras. Fogo. Aí eu puxo a descarga e tudo vai embora, no turbilhão de água que segue rodopiando aparentemente sem fim. A água que leva os dejetos embora não é livre. Os dejetos também não, pelo menos agora é o que consigo entender da natureza do dejeto. A barba que cresce - até demais! - é livre até eu vir com a lâmina e tolhê-la para que cresça de novo. E eu me corto e o sangue cai, maculando a brancura da louça da pia. Teria o sangue alguma liberdade? Instrumento de sopro, oito letras, horizontal. Outro daqueles momentos aos quais não sei atribuir a devida taxa de liberdade. E o sopro me traz a música e a música, sim, é livre. A música é tão livre quanto é livre o destino do voo de uma mariposa, se é que o voo da mariposa é livre, mas o que importa é que a metáfora faça sentido. Se não fizer, também, não há diferença, a ideia de liberdade é onipresente (ainda que variável) e independe de quaisquer artifícios. Um gole mais, um trago mais, e o que tem de ser livre vai sendo-o dentro de mim. Irmão do pai, três letras. Sem direção, porque família nem sempre tem direção. Família não é livre de todo. Quiçá não é nada livre. O que é liberdade, realmente, definitivamente? Difícil responder, e mesmo raciocionar sobre a questão. Se estivesse numa revistinha, tendo a resposta sentido e número de letras pré-determinados, seria mais fácil. Mas aí estão um milhão de coisas a serem feitas, coisas complicadas, com prazos rígidos. Não há tempo para resolver palavras-cruzadas.

domingo, 17 de julho de 2011

Laboratório

Um ser humano é o meu amor.
De músculos, de carne e osso,
pele e cor. ♪♫

O cadáver nu na mesa fria tinha a boca meio torta, congelada num eterno sorriso deslocado. Não parecia, agora, mais assustador do que os mortos de velório, sempre enfiados em algodão, ternos e caixões. Um olho fechado, o outro entreaberto – como cuidasse para ninguém injuriá-lo durante o sono. Este detalhe do olho alimentava alguns medos; era, porém, o aviso na porta do laboratório que se incumbia do choque inicial dos novatos na anatomia. Hic locus est ubi mors gaudet sucurrere vitae. As grandes e prateadas palavras latinas sempre causavam uma reação impressionada dos estudantes, reação essa que todo ano fazia o professor Molina esconder uma discreta risada de canto. Eram uns ingênuos, esses alunos, pensava. E o cadáver dissecado continuava deitado a cada turma, espreitando o seu redor com aquele meio globo caramelado à mostra.

Professor Molina, com seu terno azul-marinho de risca-de-giz, impecável sob o jaleco imaculadamente branco, adentrou a sala III do laboratório. Era fevereiro, estava quente. Sacou da caixa o par de luvas e pediu para o assistente trazer as bacias com os corações. Havia vários deles – inteiros e seccionados, vermelhos e acinzentados. E de corações o professor entendia. Era cirurgião cardíaco, cada corte milimétrico do seu bisturi lhe valia muito dinheiro. Alisando o cabelo penteado com extremo cuidado, lançou um ligeiro olhar para o indivíduo inerte e seco na mesa ali ao lado. Os músculos à mostra, marrons. Os alfinetes com marcadores – que estrutura está apontada pela seta 21? Até que, fazendo-o desligar-se do cadáver, os corações chegaram. Nas bandejas, como fossem uma estranha refeição. Calçou as luvas, talheres para o jantar.

– Atenção, esta aqui é a aurícula direita, uma projeção muscular do átrio, que lhe confere maior capacidade.

Molina olhava, impaciente, seu relógio – que, segundo as piadas hiperbólicas correntes em toda a universidade, havia lhe custado tanto quanto seu BMW sedã preto, que atraía inúmeros olhares no estacionamento dos professores. Queria que a aula terminasse logo. A sensação familiar já se manifestara e ele queria resolver isso o mais rápido possível. Sentia os dedos, recobertos pelo látex branco, se contraírem, pressionando a borda da bancada. Conferiu a hora mais uma vez – sua voz discorrendo sobre artérias coronárias; sua mente, pensando na recompensa que viria mais adiante.

– Professor, de onde mesmo parte o ramo circunflexo?

Ele respondeu à questão, ríspido, apressado, e a aula acabou. Tentou ser menos rude ao se despedir dos alunos – a maioria com os jalecos sujos, meu Deus do céu – e chamou novamente o assistente. Pediu-lhe que guardasse os corações e que ninguém o interrompesse na hora seguinte. O assistente fez que sim com a cabeça e saiu, enquanto Molina pegava o telefone – também caríssimo, como tudo o que era seu – e apertava algumas teclas. Mirou outra vez o corpo ali na mesa. A “peça”, como os anatomistas costumavam chamar. E sentiu que o momento tinha chegado.

***

Mariana precisava falar com o professor Molina. Faltara à última aula teórica e não tivera a oportunidade de ver sua nota. Sabia que ele havia acabado de lecionar para o primeiro período e pensou que talvez ele estivesse livre para atendê-la. Passou pela porta do laboratório, já acostumada ao pequeno arrepio que sentia ao ler a frase em latim. Este é o lugar em que a morte se compraz em auxiliar a vida. Ainda assim, gostava de trabalhar com os corpos – e suas partes. Era divertido.

Percorrendo o longo corredor verde, a estudante não via ninguém. Nem João, o técnico que assistia os professores, dava sinal. Resolveu ir à sala III, onde aconteciam as aulas práticas; o professor provavelmente estaria lá. Deu mais uns poucos passos e girou a maçaneta.

– Professor, o senhor está aí? Eu gostaria de...

Súbito, Mariana ficou muda. Não acreditava naquilo que seus olhos e cérebro diziam que estava vendo. Suas tentativas de entender a cena que ali se exibia não foram, absolutamente, satisfatórias. Olhou o jaleco cuidadosamente dobrado na bancada, juntamente com o famigerado terno azul-marinho de risca-de-giz. Sobre ele, o Rolex. Finalmente, viu de novo o cadáver dissecado, na mesa de inox, virado de bruços. E o professor Molina, em cima dele, a roupa de baixo nos tornozelos, com uma cara tão perplexa quanto a sua.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Abriu a porta e deixou que a luz do sol - por incrível que pareça, fazia sol - inundasse seu rosto. Esperava que a luz entrasse pelo nariz, como o ar gelado que soprava vento e balançava as folhas das árvores e deixava a biruta ali perto mostrando a direção do sopro. Debruçou-se na grade da sacada, os cabelos castanho-escuros caindo pelos ombros, voando, refletindo a luminosidade da manhã. Levou a mão à boca e roeu a unha do polegar, enquanto olhava os carros passarem, apressados, lá embaixo - borrões pretos, prateados, vermelhos que avançavam no frenesi de mais um dia. Quanto movimento! Fechou os olhos e se concentrou no som dos pneus e dos motores e dos pássaros, volantes como os fios marrons - belíssimas ondulações. Respirou a luz mais profundamente, seu interior se tornando claro, brilhante. E o calor entrava, e a brisa também, e tudo ia ficando tão novo... Cabelos dançarinos e unhas roídas numa fotossíntese de sentimento. Sinestesia nas alturas. Sexta-feira de manhã.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Confessionário

segredos sagrados
segregados na boca
teimosa aproximação

terça-feira, 21 de junho de 2011

Profissões #1

O mecânico se apaixonou. Derreteu-se a graxa que lhe constituía o coração. Finalmente encontrara a rebimboca que casava com a sua parafuseta.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Caleidoscópio

O frio entrava pelos pés descalços, nus no piso azulejado, e subia, eriçando pelos, arrepiando. Precisava de qualquer coisa que aquecesse, por fora e por dentro. Um cobertor e um conhaque, já que a outra opção para esquentar por dentro estava tão fora de alcance. Fazia tanto tempo que... Estava, finalmente, renascendo. Ou, se melhor couber, ressuscitando. Este meu filho estava morto e reviveu, ou qualquer coisa que o valha. Alegremo-nos, pois. Não. Fragmentos de memória que lhe atravessavam a cabeça; pensamentos díspares, desconexos, e a lembrança desagradável de que havia prova no dia seguinte. Mas não importava; estava renassuscitando. Mordia a ponta do lápis a cada pausa, como se cada pausa lhe roubasse o ar. Não podia deixá-la escapar, não dessa vez, a vontade. O branco enchia-se de negro e uma história era contada. História ou estória? Pegou um cacho de uvas lá na cozinha, e que delícia era o estourar agridoce dos pequenos globos na boca. Uma colcha de retalhos de emoções, ou de coisas não-mostradas. Como quando a gente olha num caleidoscópio e vê tudo muito bonito. Tão bonito que nem precisa saber como aquela beleza se formou.

domingo, 5 de junho de 2011

Depois

olhos sonolentos
esfregam-se, tíbios
cai uma lágrima
era de amor?

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Anatomia #2

Ombro: ponto de fixação do membro superior ao tronco; permite movimentos fortes e amplos. Torna-se especialmente útil quando um amigo nos oferece o seu para aqueles momentos em que não estamos tão bem.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

O Coração

"Ah, coração, teu engano foi esperar por um bem
de um coração leviano que nunca será de ninguém."  

O paciente deu entrada no hospital, implorando por ajuda. Tinha o coração pulsante na palma da mão. Saíra sem qualquer aviso do peito. Subira à boca, e o paciente sentiu gosto de sangue e de desilusão. Pulara-lhe boca afora, o coração. E agora pulsava, triste e vermelho, sobre a pele amarelada do paciente. Como poderia viver sem o coração? Mas o coração estava ali. E pulsava! Ora, devolver o coração ao seu lugar de origem não devia ser tão difícil. Ou devia? E as batidas continuavam, gritando. Espirrando sangue e mentiras. No começo, era uma taquicardia - batia tão rápido que qualquer um que visse pensava que não iria aguentar. Depois, foi acalmando, e tomou aquele ritmo cadenciado, uma bossa-nova tranquila e rubra. Parecia resignar-se. Até que se contraiu num tango, dramático, suplicante, chorando chorando. 

Pois sim! Poderia o coração ser tão voluntarioso e entregar-se às mudanças de estação deste jeito? O paciente queria respostas. Levava o coração batendo, mas no lugar errado. E sugeriu quem sabe engoli-lo de volta, mas não, iria provavelmente ao estômago e daí por diante era um destino trágico. Tinha de haver um jeito. Enquanto isso, os branquinhos procuravam toda sorte de explicações e, mais ainda, de soluções para o problema do coração-que-salta-pra-fora. O prontuário dizia algo vago sobre desilusão e mentiras. Desilusão e mentiras... Claro, a causa primeira! A origem da primeira taquicardia do paciente - uma profusão de curvas e de cabelos e de voz lânguida que lhe satisfazia todas as vontades. Chamaram-na. Ela não se apressou. Escolheu a melhor cor para as curvas e para os lábios, uma presilha em forma de libélula para conter os fios e treinou em especial a languidez. Chegou. Viu o paciente em pranto, ainda segurando o coração, que já tinha passado do tango para um bolero, no me platiques más. Os branquinhos encheram a causa primeira de perguntas, cujas respostas foram ofuscadas pela... pela... pela consistência da causa primeira. Por fim, ficou dito meio sem dizer que talvez fosse melhor mesmo o paciente engolir o coração e digeri-lo. O cérebro é muito mais importante. Não é? 

A causa primeira foi-se embora rebolando, não sem antes borrar-se a cor na maca de um apartamento desocupado e depois retocar-se. Estava quase saindo do hospital, a causa primeira, quando lançou um último olhar ao paciente, coitado, continuava ouvindo a música do coração. Os olhos do paciente eram um misto de tristeza, de ódio e de pedido desesperado de ajuda. O coração tinha que estar dentro dele! Dentro, não fora! Riu-se toda, a causa primeira, e saiu à luz do belo dia que fazia lá fora. Sentiu vontade de borrar-se a cor novamente. É um idiota, pensava a causa primeira, fazendo a soma na cabeça de quantos corações já havia feito sair do peito, subir à boca e pular boca afora. Claro que sempre antes vinha a primeira taquicardia. Que podia ser uma, duas, três... O paciente sentia que não podia mais aguentar o concerto e anunciou aos branquinhos que desistiria. Os branquinhos lhe disseram que não, que haveria um jeito, haveria um jeito... Bem, houve um jeito. O paciente pôs o coração perto da orelha. Escutou a última canção cardíaca, um instrumental de fim de filme, se não se enganava. - Não mais desilusões. Nem mentiras. Depois, saiu gargalhando com o coração pendendo das mãos amarelas, deixando os branquinhos atônitos, e o atirou (pulsante ainda!) numa lata de lixo qualquer. Continuava com o cérebro. Era mais importante.

domingo, 1 de maio de 2011

Digitais

dedos percorrem
trechos de pele
sinuoso trajeto
me perco no tato
nas sensações
que brotam, que emanam
dos sujos lençóis

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Eis-me aqui. Em barba, óculos, cueca e  dor-de-cabeça. Um cigarro amassado no canto da boca, aceso querendo apagar. Uma babel de sons a reverberar lá dentro do crânio. E a vontade incontrolável de sempre, de transpor as palavras da nascente pro papel. A luz acesa, a geladeira aberta, o chuveiro pingando. Esses lapsos cotidianos; a gente sabe que tem de dar um jeito neles, mas a preguiça de sair debaixo do cobertor vence toda vez. Uma raiva familiar que vem do nada, uma raiva de mandar um foda-se para as coisas pequenas, uma raiva de tudo. De mim mesmo. De eu fazer coisas das quais me arrependo no dia seguinte, quando os flashes de memória vão voltando. Uma raiva de dicionários. Pra que palavras bonitas? O rosto da vida nem é tão belo assim. Daí o cobertor fica mais quente e a preguiça se mistura com a raiva e tudo vai-se tornando sono. Eu fecho os olhos, e o piscar vai-se tornando mais lento. Mais lento...

terça-feira, 19 de abril de 2011

Anatomia #1

Cotovelo: articulação sinovial do tipo gínglimo entre o úmero (braço), a ulna e o rádio (antebraço). Pode doer sobremaneira quando a  gente vê outra pessoa com aquilo que nós desejamos.

sábado, 9 de abril de 2011

Factual

"Me mandei pra Curitiba 
e como eu gosto dessa vida, ah!, eu sei." ♪♫

E eu me pego lembrando uma certa viagem. Viagem séria, coisa importante. Que decidiria o resto da minha vida. Lembrando as serras, a barriga gelada, a ansiedade extrema e, por fim, a recepção. Quem diria que no fim das contas eu ficaria por aqui? Olho esse céu de chumbo, olho esse ar agitado, olho a corrida frenética de gente e de carros e de vida. Ouço o som dos aviões aqui perto. Ouço o barulho da cerveja caindo no copo e dos ossos e dos músculos nas aulas de anatomia. A maratona de pega caderno, põe jaleco, tira jaleco, pega caderno de novo, empresta o livro de mil páginas, tira xerox e tira xerox e tira xerox. Esse vento frio que me entra no nariz, vai pra cabeça e pro peito; essas garoas tuas que chegam sem avisar e me pegam desprevenido toda vez, esqueci o guarda-chuva. Essa coisa verde que contrasta com o plúmbeo lá de cima; esse jeito de acolhida silenciosa, de museus e de jardins. Parecido com um álbum de fotos, fotos em preto-e-branco que vão adquirindo cor a cada passo, a cada volta dos ponteiros do relógio. Quem diria... Nessa lúcida maluquice cotidiana, imergi a mim mesmo. Pulei de cabeça. E olha que nem sei nadar! Mas que diferença faz saber nadar, se o que eu quero mesmo é me afogar nessas águas desconhecidas? Essas águas desconhecidas que me puxam para si com tanta força, tanta força...

terça-feira, 5 de abril de 2011

Convite

- Não.
- Por que não?
- Porque não quero, ué.
- Tem que ter um motivo.
- ...
- O motivo sou eu, né?
- ...
- Fale alguma coisa!
- Sim, o motivo é você.
- Eu sabia.
- Se sabia, por que perguntou?
- Queria ter certeza.
- Pois agora você está certo, tchau.
- Espera!
- Por que deveria?
- Você sabe que deveria.
- Sei, é?!
- Sabe. E sabe também que gosta de mim.
- Você só pode estar louco.
- Todos somos loucos, querida.
- Você é mais do que louco.
- E me orgulho disso.
- Orgulho? Onde estava com a cabeça quando atendi à sua ligação?
- Pare com essa cena. Você quer, eu sei.
- Escute: se você não passar aqui em meia hora...
- Isso é um sim?
- Meia hora!
Clique.

sábado, 2 de abril de 2011

Afogados os botes. E as mágoas, os podres e eu num copo de cerveja. Um, dois, três.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Ade

Saudade comprida. Saudade que tem começo, mas perdeu-se e não quis final. Um beijo dramático no espírito das coisas que já passaram e o espírito volta com a nostalgia de todas as horas. A cabeça levando em banho-maria os conceitos que têm de crescer como pão-de-ló. E quando o fogo acaba? Quando a gente sente que já não dá mais, ou que até dá, mas muito mal dado? Saudade demorada. Saudade que não usa relógio. As perguntas fáceis, dúvidas simples, fragmentos de inocência que já não existem mais. Agora tudo é ade. Maturidade, responsabilidade, que vêm indissolúveis da tão desejada liberdade. Mas o eco e a rima só fazem aumentar a ânsia. E a saudade. Mais um ade. O primeiro ade. O ade que sempre existiu, e que vai existir pra sempre.

segunda-feira, 21 de março de 2011

porque na verdade é tudo isso
e tudo isso é poesia
o tudo isso dos olhos
o tudo isso da boca
o tudo isso lá de dentro
o tudo isso de quando se sente aquilo que se sentiu

terça-feira, 15 de março de 2011

Aleatório

A luz forte, fluorescente, entra como faca nos olhos. Mas não quer fazer mal. É uma sensação de leveza, que contrasta em tudo com o peso em volta. A faca está apenas passando manteiga nos pensamentos quentes, e a manteiga vai derretendo derretendo e me lembrando daquele cheiro de pipoca de cinema. E, como num filme antigo, as imagens vêm passando lentas e apressadas, risquinhos pretos pululando na tela. Aí eu apago a lâmpada e tiro a faca da cabeça, e a uso para passar a manteiga num pão. Pão italiano. Casca dura, miolo macio. E penso em água, água pura, de mina. A água passa pelo corpo e revitaliza as coisas que encontra por lá. Até que o filme acaba, o pão acaba, a água seca e eu fico apenas leve, no escuro. Sem faca, só a leveza e um buraco nos olhos.

sábado, 12 de março de 2011

A dor de existir, pura e simplesmente.

sexta-feira, 4 de março de 2011

É aquela coisa cinza e vaporosa que cobre o céu num dia frio. Tão cinza e tão vaporosa quanto a fumaça encorpada que rodopia no ar. Uma sacada e um cobertor. Era tudo uma confusão, um jogo de luz e sombra que ninguém sabia como controlar. Mas parecia que agora ele tinha reencontrado o prumo. Ou, pelo menos, estava reecontrando. Isso era bom. Sabe, quando não há alma viva para atrapalhar e você aprecia aqueles momentos de solidão gostosa, quem sabe com um vermelho pendendo dos lábios, ardente, ou talvez uma xícara de café forte, ou ainda os dois juntos. A cabeça desanuvia e você esquece que tem problemas, que tem crises, que tem mil e uma coisas para estudar. Aí você pensa naquela música triste que te fala tanto sobre alguma coisa qualquer, e se sente envolto numa aura de nostalgia que, apesar da aparência, é tão boa. Tão boa. E sente saudade de coisas que nunca aconteceram, e olha pro céu e vê o cinza, e vê o cinza na sua frente, e imerge num mar de cinza. Um cinza quente, fluido, acolhedor. Então, você se dá conta de que está lá, na sacada, enrolado num cobertor felpudo, sentindo a brisa gelada bater no seu rosto e te lembrar que você existe. E você fica com medo de a brisa apagar o cigarro, mas no fundo sabe que a brisa só quer brincar com você. E, por fim, fica feliz, uma felicidade diferente daquelas que a gente sente às vezes, um misto de êxtase com sono, um estado de espírito sem igual. E fecha os olhos, apreciando ao máximo esse prazer.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Cotidiano

Brigitte levantou-se. Ou, pelo menos, o que restara dela, menos por vontade própria que pela obrigação de todo dia. O vermelho borrado na boca e as manchas escuras no pescoço delatavam-na. Mais uma noite. Amarrando a faixa do robe vagabundo, estalou os dedos dos pés – inexplicável prazer matutino. Irônico, isso de “prazer”. Definitivamente irônico. Queria ser não-adjetivada, não-subordinada, não-regida. Na verdade, queria apenas ser. Olhou pela janela, e esperou que viesse o segundo sol, ou qualquer porra de novidade que a fizesse se sentir viva. Mas só havia um, e brilhava forte, como zombasse da moça seminua. As unhas desbotadas, roídas até a carne, seguraram a cortina com força. Tinha uma explicação. Não tinha uma explicação. Foda-se a explicação. Foi ao banheiro e torceu o registro, deixando a água morna cair livre, liberdade da qual ela mesma não podia gozar. Sentou-se. As lágrimas se misturavam com as gotas caídas do chuveiro. Maldisse a vida que levava, como sempre. Torceu o registro de novo e se enrolou numa toalha puída, um abraço de algodão velho mais ou menos reconfortante. Olhou o vestido minúsculo que jazia acusador no chão do quarto. Ao lado, um espartilho preto. Um enlouquecedor espartilho preto. Que, se pudesse, nunca mais usaria. Enfim, abriu o guarda-roupa. Calça jeans, tênis, camiseta branca com a logo da extinta firma do pai. Pai... E assim, mais limpa - aliás, menos suja -, saiu. Renata trancou a porta; deixou Brigitte mofando. Até a lua aparecer.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

A fumaça que passa da tua boca pra minha. Aquele gosto de cigarro misturado com a bala de menta que você desembrulhou há cinco minutos. A tentativa pífia de não me entregar ao teu corpo, me embriagar na tua saliva, me derreter no teu calor. Montanhas e vales, pistas, curvas. Tuas unhas vermelhas rasgando-me a carne, como o amanhã nunca mais fosse chegar. Lasciva, mas também ingênua. Quantas facetas já me foram reveladas? E enquanto um breve impulso percorre minha cabeça, você já me leva para o outro caminho. E me dá a transcendência, numa babel de sons e cheiros e sabores. E, depois, é barco em porto seguro. Rubor. Os dois compartilhando a fumaça que passa da tua boca pra minha. Aconchegados. Inebriados. Satisfeitos.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Parto

Estava lá, com o lápis na mão, sentindo o cheiro de frango da lasanha que colocara no microondas. Nada parecia fazer sentido, mesmo com tudo em volta dele gritando "essa é a realidade". Olhava em volta e via o caos armado no quarto. O estômago roncava. E ele não conseguia fazer palavras. Bebeu um gole da cerveja quente que jazia desde o dia anterior ao lado do colchão. Pensou em tudo aquilo que poderiam dizer dele. Não fazia diferença, tudo era verdade. Sabe-se lá. Ouvia Watching the Wheels, e a música o fez lembrar-se da vitrola e uma tarde de chuva. Ao mesmo tempo em que estava imensamente feliz por todo aquele novo universo, era justamente todo este novo universo que o fazia querer chorar. Querer colo. Ele estava nascendo. E, embora quisesse muito aventurar-se lá fora, sentia uma vontade louca de voltar ao útero.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Adaptação

Sentia aquela mancha de abstração no meio da realidade. Uma mistura de cansaço e preguiça e desânimo era o que lhe percorria o corpo, enquanto escutava os aviões - decolando ou aterrissando? -  passarem perto dali. Era tudo muito movimentado. Movimentado demais. É claro que ele tinha que se levantar dali, pôr as coisas em ordem. Levantar, pôxa. Mas havia algo mais forte. Droga, tinha que comprar vassoura e rodo, fazer comida, limpar a casa, além do calhamaço que precisava ser estudado. Que, sobre a mesa, irônico, ria dele. Olhou as latas de coca-cola no chão do quarto, as migalhas de pão. Os restos da alimentação nada saudável que andava levando. Paradoxo. Ele tinha que dar um jeito naquilo, mas onde estava a coragem? É isso, coragem. Continuou deitado no chão frio, as pernas sobre a cama, imaginando o que seria dele a partir daquele momento.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Esgoto

Estou em decadência. Sou uma decadência. Vamos escorrendo, minhas tentativas e eu, praquela fossa que não tem nada de novo, somente merda e pensamentos ignorados.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Fazia tempo que não chovia. E, quando a água começou a cair, suave, quase sem ruído, foi como se a bolha que o envolvia se tivesse rompido. Percebeu que não dá pra fugir da essência. Não dá. Se somos temporal, não funciona vestirmos cascas ensolaradas. Por falar nessa dicotomia, ainda bem que o céu pingava. Refrescar ao menos um pouco o clima. Achava que janeiro tinha sido quente, mas fevereiro chegou mais, com seus dias abrasadores. Fervereiro. Ele estava cansado do calor, cansado de dizer sempre a mesma coisa. Cansado. Ou seria melhor dizer desiludido? Ou, ainda, cansado e desiludido? Por que se matava com toda essa psicologia, em vez de se matar na ação? Pensar, pensar, pensar... Pensar enlouquece. Ele era louco. Lúcido. Lucy in the sky. Foi tomar banho de chuva, redundando como sempre.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Gravidade

eu caio
tu cais
caímos nós, inebriados
e nossas roupas
elas também caem
tudo vem abaixo belo
apenas nus, não mais graves

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Causa e Efeito

Levantou-se. Rolar na cama por horas não resolveria o problema. Esfregando preguiçoso os olhos remelentos, foi descalço até o outro lado do quarto, sentindo o frio do azulejo ocre subir pelas suas pernas e provocar-lhe um arrepio. Procurou o interruptor no escuro, tateando, até que o botão se fez aparecer sob os dedos tortos. Acendeu a lâmpada incandescente, que espalhava um brilho alaranjado e difuso pelo aposento, e abriu a tampa da vitrola. Lá estava. Repousando plácido sobre a bandeja, aguardando o movimento do braço e o toque sibilante da agulha, o bem maior que possuía. The Beatles – White Album, Disco 1. Desejado durante meses e adquirido como prêmio após uma economia quase impossível, o disco emanava alguma coisa que seu dono não podia explicar. A começar pela capa, diferente de qualquer outra que já tinha visto. Completamente branca. Crua. Apenas o nome da banda em relevo, para constar. Depois, é claro, vinham as músicas, mostras ímpares de genialidade gotejadas em minutos rítmicos e pungentes. Bocejando e coçando o saco, pôs o vinil para tocar.

Sempre preparava uma garrafa térmica antes de dormir, para os casos em que este dormir não fosse possível. Deixava-a sobre a escrivaninha, ao lado do maço de cigarros e do isqueiro. Música, café e fumo. Era a combinação perfeita para as noites de insônia, aquelas noites em que o tempo parecia derreter e passar cada vez mais lento, provando que tudo é relativo. Serviu-se de uma xícara e acendeu um dos vermelhos. Queria deixar-se levar pela melodia, flutuar leve e sair dali, para algum lugar em que não se sentisse o verme que parecia ser. A falta de sono colaborava; nessas horas a mente ficava mais fervilhante que nunca, e trazia à superfície perguntas que ele não queria responder. Na verdade, mais que meras indagações; eram verdades, constatações, provas tristes de que sua vida não valia merda nenhuma. Pegar as asas quebradas e voar, voar para longe, como o pássaro que debuta na planagem, era o desejo. Mas sentia-se absolutamente incapaz de sair do seu ninho repleto de vazio. Novamente um verme.

A imagem dos amigos – se é que podia chamá-los assim – passou célere ante os seus olhos. Como é que eles podiam ser tão felizes? Aliás, o que é mesmo felicidade? E como, meu Deus, como conseguiam todas aquelas mulheres? Ele não compreendia. Ele, que sonhava encontrar sua Molly no supermercado abstrato da existência. Sua única Molly. Via que não iria suportar, era tudo sufocante demais. Terrível demais. Doloroso demais. Não queria ser assim, definitivamente. Parar de pensar nessas coisas, ser alguém normal, pra acabar com essa melancolia tão incômoda. Dormir, precisava dormir. Mas agora, também, que se fodesse o sono, encheu de novo a xícara e descobriu o fogo mais uma vez.

Lembrou de outra música do quarteto, uma que não estava inclusa na sua preciosidade. Uma música que falava sobre certo “homem de lugar nenhum”. Era exatamente essa a visão que tinha de si. Deslocado, pertencente a nada, o clichê do zero à esquerda. Será que sentiriam sua falta, uma única pessoa que fosse? Tinha certeza de que não. Mas tinha também um motivo para permanecer. O disco comprado com um esforço do cão era a única coisa que o fazia afastar a ideia de findar com o sofrimento. Algo de bom no meio de tanta podridão. A música. O símbolo. Os trezentos reais mais bem-gastos de sua vida. Espere, eu disse “vida”?

Coçou novamente o saco e mandou pra dentro mais café, mandando qualquer possibilidade de sono para o diabo que a carregasse. Pensou em como tinha planejado o tempo insone; ouviria um pouco de música e logo as pálpebras pediriam para se fechar. Planejamento esse que ele sabia que não funcionaria; a garrafa térmica estaria lá, toda prosa. A verdade é que era cônscio de que não dormiria, mas planejava mesmo assim, talvez para fingir que tivesse controle sobre alguma coisa. Mas não tinha. E agora não dava mais. Acabou com o líquido quente e pseudoacolhedor. Fumou mais um cigarro. Arrancou, com raiva, o disco da vitrola, e sentiu verdadeiramente o arranhão que a agulha imprimiu na superfície negra. Olhou-o bem, era dor real. O item mais precioso... O único. Quebrou o disco em quatro partes. Agora nada o impedia. Sem motivos para viver, estava livre. Pegou a faca que mantinha escondida no guarda-roupa e deslizou o fio com cuidado na articulação do punho. Não lhe doeu mais que a fratura da sua relíquia. Por alguns intermináveis minutos, viu o sangue escuro macular a imensidão alva da capa do White Album. Depois, não viu mais nada.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Iguassu

Do tupi-guarani, 
"Ig": água. "Assu": grande.

De fato, era muita água. Água grande. Toda aquela preciosidade se derramando pedra abaixo; caindo, com fúria, sobre a fenda de M'Boi. Indigenamente shakespeariano, me vem à mente o amor de Naipi e Tarobá, a pedra e a palmeira. E eu cá, sedento pelo cauim contemporâneo, louro de cevada; na passarela, molhado, apreciando a magnitude hídrica. Resolvo fazer um pedido - também sou turista, afinal. Viro-me de costas e cerro as pálpebras. O som das quedas se fortalece. Lanço minha moeda, e ela gira tão bailarina no ar! E brilha úmida, cara coroa cara coroa. Por fim, junta-se às outras lá no fundo, inúmeros desejos, inúmeras gentes, inúmeros tempos. O arco-íris me sorri um sorriso cúmplice e curioso, como dissesse "conte-me". Abaixo a cabeça, sorrindo também, e vou-me embora, repleto de gotas - fragmentos do suicídio do rio Iguaçu. Olho para trás uma única vez, derradeiro recado para o aro-íris. - É segredo!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Vento

O venot
baetu e msitrouu
pedçaos do meu pemoa.
Fciou tdou bagnuçdao.
Noã tem masi peoma.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Dezessete

Porque janeiro chegou e trouxe consigo a tão comum nostalgia sinestésica. Vêm a mim excertos de vida, fragmentos de existência que às vezes penso se não foram sonho. Essa época é por demais estranha, provoca uma infinidade de sensações que não sei distinguir, quanto mais classificar. São os números aumentando e eu realmente não sei se isso é bom ou ruim. É claro que sempre há aqueles votos comuns (eu mesmo os desejo várias vezes por ano), votos de felicidade. Mas me sinto confuso nesses tempos. Muito confuso. E eu fico me perguntando se não era melhor eu ter estancado lá atrás, sem toda essa coisa abstrata que a gente chama de responsabilidade. Passo vários períodos longe de casa, daqui a pouco estarei longe de vez. Será que sete não são melhores que dezessete? Não sei. Não que uma data seja má na essência. É que ela chega acompanhada de dúvidas. E eu percebo que há alguma coisa diferente. Uma, duas, várias. Por quê? Sim, eu fico feliz também, é legal ver gente ao seu redor, cantando só para você durante um ou dois minutos. Um bolo para cortar e velas para assoprar são igualmente divertidos. Recados, mensagens também fazem com que nos sintamos, pelo menos em 1/365 do ano, queridos. Inquieta e pulsante, contudo, a melancolia dança no meu interior. Ah, lágrimas ditosas, fruto de miscelânea de emoções! Lágrimas que brotam neste dia em especial, e eu não consigo contê-las. Já posso sentir os cheiros festivos, ovos, farinha, coca-cola. E o odor mais pungente de todos – o da incerteza. Ontem dezesseis, hoje tem mais um. Feliz aniversário, Douglas Thaynã.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Telégrafo

A vida é um infinito pedido de ajuda. E ele precisava de alguém que pusesse as mãos sobre as dele, que o acompanhasse nos seus devaneios tão reais. Alguém que trouxesse um punhado de poesia à prosa sua de cada dia. De fato, era tudo um constante "socorro!", ele via que acabaria sucumbindo. Imaginava-se todo em verso, lírico, com muita rima rica a embelezar-lhe a existência. Era, contudo, um monólogo triste, nenhuma figura, nada de belo. Ouvia as gotas na janela e gotejava também, imerso no pesado caos costumeiro. Precisava de alguém, urgentemente. Levianamente. Agonizantemente. E, agonizantemente, seguia no seu S.O.S. cotidiano. S... O... S...

domingo, 9 de janeiro de 2011

Era a primeira vez que matava um frango. Segurava a ave pelos pés e a outra mão circundava o pescoço (como seu pai lhe instruíra), estava prestes a começar. Mas sentia-se incapaz. Já matara outros bichos, bichos pequenos, baratas, aranhas, lagartixas. Mas eles pareciam insignificantes demais para se relutar em matá-los. Com o frango era diferente. Eram três quilos de peito, coxas, penas e canto. Não dava para matar algo tão grande. Só que teria de dar. Fechou os olhos e puxou a cabeça. O animal começou a se contorcer, batendo e batendo e batendo as asas, tentativa iníqua de escapar da morte. Ele apertou ainda mais as pálpebras e seguiu puxando. A cada vértebra que estalava, sentia-se pior. E o frango batia as asas, era pena por todo lado. Por fim, o trabalho foi feito. Cessaram os movimentos e um pouco de sangue escorreu pelo bico amarelo. Ele abriu a vista e contemplou o resultado daqueles minutos infinitos. Levou-o para dentro, a mãe cozinhava. Mais tarde, comeu o risoto com gosto, saboreando cada fibra da carne branca e macia de um frango qualquer.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Janeiro

Janeiro calor
Quente e perdido
Perdido em tremor
Janeiro libido