sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Mordimento

Na pia, a costumeira anarquia de objetos. Imersa na água espumenta, a escova morta. Amarela, cerdas macias, ainda com resquícios do gel dental azul com sabor de menta americana. O sabonete obstruía o ralo. Meteu a mão na massa mole e escorregadia e lavou a cara. Saiu sem se secar. Ao passar pela sala, pisando no macio tapete ornado com motivos orientais, sentiu a pontada familiar de nostalgia e arrependimento. Gostaria de retroceder no tempo, fazer com que as coisas acontecessem de outro modo. Mudaria, contudo, se o calendário voltasse? Ele mesmo tinha dúvidas se não faria tudo igual. Pediu perdão em silêncio, agora enxugando o rosto com a camiseta. Dirigiu-se à janela, e as recordações não cessavam. Palavras duras, soltas quase sem querer. Brilho metálico. Lágrimas. Viu o rosto em pranto, "por quê? por quê, meu filho?". O sol se desescondeu e incidiu em cheio no rosto dele. Foi bom. Vislumbrou as bolinhas vermelhas e vinho destacadas contra o mar de verde, lá fora, e sentiu a salivação. Foi colher as acerolas. Era a fruta preferida da mãe.

5 comentários:

  1. Eu adoro o seu blog.
    Sei que não comento sempre mas to aqui toda hora!
    Que post maravilhoso hein, suas palavras se encaixam perfeitamente uma na outra, parabens.

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  2. Eu amo acerola...
    Amo!!!!
    Gostei muito deste post... É familiar e solitário...

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  3. Cara, seus textos denotam perfeição logo nas primeiras palavras, no primeiro período. Fico maravilhada e estaco já nas primeiras linhas, saboreando o insólito. Sempre impecável, surpreendente, misterioso, perfeito.

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  4. nossa, doeu...

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  5. Muito obrigado, pessoal! Gosto que gostem daqui!

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