A vida é se há liberdade. Eu sou livre? Creio que não seja corajoso o bastante para admitir que não, embora meus cigarros me condenem rapidamente. Na verdade, os cigarros são o menor dos meus males, o problema é que à primeira vista eles parecem maiores do que realmente são. Mas não estamos aqui para falar de tabaco, e sim de liberdade. Ou podemos continuar com o assunto, ou mudar, enfim, ser livre é ser mutante, metamórfico. É isso, não? Tomo uns goles de um vinho ruim - comprei porque era barato - e deixo que o álcool faça efeito. Porque o álcool é livre, provavelmente mais livre que eu, e ele age livremente sobre mim. O gosto adocicado, mais açúcar que outra coisa, estimula a minha língua, o que me leva a pensar em bocas e beijos e pescoços. Isso é ser livre? Quando ia ao banheiro e ficava lá sentado, com a revista de palavras-cruzadas no colo, a caneta balançando ou sendo mordida, a cabeça procurando a solução para a charada, me pergunto se nesse momento eu era livre. Coquetel (?): arma incendiária utilizada em protestos. Vertical, sete letras. Fogo. Aí eu puxo a descarga e tudo vai embora, no turbilhão de água que segue rodopiando aparentemente sem fim. A água que leva os dejetos embora não é livre. Os dejetos também não, pelo menos agora é o que consigo entender da natureza do dejeto. A barba que cresce - até demais! - é livre até eu vir com a lâmina e tolhê-la para que cresça de novo. E eu me corto e o sangue cai, maculando a brancura da louça da pia. Teria o sangue alguma liberdade? Instrumento de sopro, oito letras, horizontal. Outro daqueles momentos aos quais não sei atribuir a devida taxa de liberdade. E o sopro me traz a música e a música, sim, é livre. A música é tão livre quanto é livre o destino do voo de uma mariposa, se é que o voo da mariposa é livre, mas o que importa é que a metáfora faça sentido. Se não fizer, também, não há diferença, a ideia de liberdade é onipresente (ainda que variável) e independe de quaisquer artifícios. Um gole mais, um trago mais, e o que tem de ser livre vai sendo-o dentro de mim. Irmão do pai, três letras. Sem direção, porque família nem sempre tem direção. Família não é livre de todo. Quiçá não é nada livre. O que é liberdade, realmente, definitivamente? Difícil responder, e mesmo raciocionar sobre a questão. Se estivesse numa revistinha, tendo a resposta sentido e número de letras pré-determinados, seria mais fácil. Mas aí estão um milhão de coisas a serem feitas, coisas complicadas, com prazos rígidos. Não há tempo para resolver palavras-cruzadas.
sábado, 27 de agosto de 2011
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Já devo ter comentado por aqui sempre que eu leio seus textos consigo vê-los como filminhos em minha cabeça. Nesse eu imaginei um cara, não sei se velho, não sei se novo, sentado numa poltrona em uma sala, com a garrafa de vinho e o cigarro queimando entre os dedos...
ResponderExcluirTalvez a liberdade não possa ser definida, mas ser sentida apenas. Talvez o amor seja assim também, não sei. Ótimo texto, como de costume.