sábado, 17 de setembro de 2011

Entrei no quarto e vi o abandono tão cuidado de todo esse tempo que você esteve fora. A capa do Laranja Mecânica aberta no criado-mudo, a cama com os lençóis remexidos há mil anos. Manchas de café, pó e pelos no chão que delatavam a falta que você faz. Não porque você provavelmente chegaria e me olharia com aquele olhar bravo mas brincalhão, me mandando pegar uma vassoura, um rodo, um pano e arrumar toda a bagunça, mas no final limpando tudo você mesma. Não é por isso. É pela sua ausência em mim. Em todo o nosso mundo. O batom na pia do banheiro, ao lado do vidro de perfume - aquele perfume que parecia feito exclusivamente para você. A escova de dentes vermelha, a pinça (que várias vezes você tentou utilizar em mim, sem sucesso), tudo. Tudo, convertido no vácuo de agora. Por vezes eu fico alheio aos movimentos cotidianos, pensando se haveria outro modo. Aí é mais uma cerveja que eu abro, e nessas horas parece que todo o líquido que eu bebo sobre e se dirige aos olhos. Por quê? Tento ouvir qualquer coisa, uma conversa, um som chiado de rádio mal-sintonizado, algo que me faça desviar o foco da sua imagem negativa. Eu sei que o que eu fiz é imperdoável. Inadmissível. Mas eu achava que ia esquecer. Esquecer a noite, a noite cheia de estrelas e uma lua tímida decalcada no negro do céu. Esquecer a sua pele aos poucos adquirindo cor, primeiro violeta, depois um azul claro que até chegava a ser bonito. Mas agora eu posso ver. Que as decisões tomadas foram inúteis. Que eu não esqueci. E que, pelo contrário, você nunca esteve tão presente. No quarto, na casa. Principalmente, no entanto, por mais que eu tente evitar, você está presente em mim.

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