Tudo nesta casa está tomado. Eu estou. E não adianta jogar inseticida pelos cantos, pelas paredes, pela memória. A luz alaranjada da lâmpada incandescente me entra nos olhos rascante, clareando os recessos mais escondidos - que, desde Freud, tento esconder até a eternidade. Há vários deles, bichos que vêm se arrastando, ou voando céleres, e corroem móveis e almas. Deixando rastros de lembranças, páginas velhas que alimentaram traças. Não se pode lê-las, nunca mais.
Festa perdida e intrépida, infame, repleta do açúcar que atrai infinitas formigas, fá-las tremularem as antenas, reunindo a multidão de Meca ao fim de mais um Ramadã. E eu, no jejum de sentimento, a refestelar-me glicídico, ainda que salte à vista, clara e tátil, a certeza do erro. Haveria modo de digerir esse doce, ou mesmo me digerir, para por fim nas ferroadas? É impossível dormir, com todo o corpo a explodir em feridas que se exibem destituídas de qualquer vestígio de pudor. Putas feridas.
Combinação perigosa. Pulga e percevejo, barata e gafanhoto, besouro e escaravelho. Um sarau estrondoso a ecoar onde quer que eu esteja, misto de serenata e militância - protesto trovador consumindo o que me resta de lucidez. Caço-os, procuro-os, imerso no amarelo luminoso, feito de raios e consciência; pífia tentativa. Faço-me rocambole na cama, suicídio lento e derretido que se junta às picadas e mordidas dos insetos da mente.

Velho, muito bom!
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