domingo, 25 de novembro de 2012


Eu queria viver aquela boemia. Trocar o dia pela noite, chegar em casa quando o sol estivesse saindo da dele. Quem sabe até morrer de tuberculose aos vinte e poucos anos, como algum poeta do século dezenove. Não ter pressão sobre o que sou, falo, faço ou ingiro. A única pressão sendo a do lápis sobre o papel escrevendo furiosamente qualquer coisa que me passasse pela cabeça. Viver todas as paixões de meia hora que acontecem na madrugada, com força, com fogo. Desbravar os cantos mais obscuros da cidade, as ruas de paralelepípedos, os menos afortunados, a poética sujeira da periferia. Beber no gargalo uma garrafa inteira de uísque barato, comprado com as poucas notas amassadas que eu ganhasse com palavras tortas e sifilíticas tão impossíveis. Não me importar com o comprimento da barba ou o que quer que haja nesse sentido. Ter um bom grupo de companheiros românticos, no sentido literário da palavra, para que não levássemos a vida normal, pastel e sem graça de sempre. Para que algo de novo acontecesse todo dia. Para que eu tivesse um filho inesperado, ou fizesse um recital na praça. Para que eu pudesse exteriorizar sem medo toda a inquietação e bagunça que há aqui dentro. E alguém soubesse de mim.

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