Eu queria
viver aquela boemia. Trocar o dia pela noite, chegar em casa quando o sol estivesse saindo da dele. Quem sabe até morrer de tuberculose aos vinte e poucos anos,
como algum poeta do século dezenove. Não ter pressão sobre o que sou, falo,
faço ou ingiro. A única pressão sendo a do lápis sobre o papel escrevendo
furiosamente qualquer coisa que me passasse pela cabeça. Viver todas as paixões
de meia hora que acontecem na madrugada, com força, com fogo. Desbravar os
cantos mais obscuros da cidade, as ruas de paralelepípedos, os menos
afortunados, a poética sujeira da periferia. Beber no gargalo uma garrafa
inteira de uísque barato, comprado com as poucas notas amassadas que eu
ganhasse com palavras tortas e sifilíticas tão impossíveis. Não me importar com
o comprimento da barba ou o que quer que haja nesse sentido. Ter um bom grupo
de companheiros românticos, no sentido literário da palavra, para que não levássemos
a vida normal, pastel e sem graça de sempre. Para que algo de novo acontecesse
todo dia. Para que eu tivesse um filho inesperado, ou fizesse um recital na
praça. Para que eu pudesse exteriorizar sem medo toda
a inquietação e bagunça que há aqui dentro. E alguém soubesse de mim.
domingo, 25 de novembro de 2012
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ter uma vida boemia, meu sonho.
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