Falo de mim mesmo em terceira pessoa
na tentativa de fingir que não são meus os problemas. Que não sou eu esse
alguém bagunçado. Que não são minhas essas preocupações. Invento um alter ego
comum, para lhe transferir todo o peso sobre as minhas costas e me sentir leve,
ainda que apenas pelos míseros minutos nos quais escrevo. Toda a incerteza que
me dá repetidamente, assim que o despertador toca, me puxando com um doloroso
fórceps do quente e macio útero onírico. No qual eu queria permanecer pela
eternidade, amém. Hoje eu vi um mendigo na rua, comendo restos de qualquer
coisa. Vi um empresário bem-sucedido sair da garagem no seu sedã prata polido à
perfeição. Vi um paciente neurológico que não abria os olhos e cuja voz era um
sussurro. Vi a mim mesmo neles todos, e em tudo o que vi hoje. Me vi revirando
o lixo. Me vi acelerando, inconsequente. Me vi confinado a uma maca de
hospital. Me olho todos os dias, mas nunca tinha me visto.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
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profundo
ResponderExcluirCompartilho de boa parte dessas verdades expostas. Talvez eu também tenha um alter ego para me servir de despensa e em quem deposito os pesos das coisas que eu sinto tão solitariamente. Apesar de ainda não ter me visto, ou não ter reparado enquanto me via por aí, ando a procura de mim.
ResponderExcluirBelas palavras as suas. Seu blog é inspirador. Parabéns.
Genial. Fico abobalhada me vendo caber em suas palavras. Curioso como às vezes alguém que nunca vimos, ouvimos, tocamos, compartilha de sensações parecidas com as nossas. Curioso se encontrar em enredos desconhecidos.
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