sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013


Falo de mim mesmo em terceira pessoa na tentativa de fingir que não são meus os problemas. Que não sou eu esse alguém bagunçado. Que não são minhas essas preocupações. Invento um alter ego comum, para lhe transferir todo o peso sobre as minhas costas e me sentir leve, ainda que apenas pelos míseros minutos nos quais escrevo. Toda a incerteza que me dá repetidamente, assim que o despertador toca, me puxando com um doloroso fórceps do quente e macio útero onírico. No qual eu queria permanecer pela eternidade, amém. Hoje eu vi um mendigo na rua, comendo restos de qualquer coisa. Vi um empresário bem-sucedido sair da garagem no seu sedã prata polido à perfeição. Vi um paciente neurológico que não abria os olhos e cuja voz era um sussurro. Vi a mim mesmo neles todos, e em tudo o que vi hoje. Me vi revirando o lixo. Me vi acelerando, inconsequente. Me vi confinado a uma maca de hospital. Me olho todos os dias, mas nunca tinha me visto.

3 comentários:

  1. Compartilho de boa parte dessas verdades expostas. Talvez eu também tenha um alter ego para me servir de despensa e em quem deposito os pesos das coisas que eu sinto tão solitariamente. Apesar de ainda não ter me visto, ou não ter reparado enquanto me via por aí, ando a procura de mim.
    Belas palavras as suas. Seu blog é inspirador. Parabéns.

    ResponderExcluir
  2. Genial. Fico abobalhada me vendo caber em suas palavras. Curioso como às vezes alguém que nunca vimos, ouvimos, tocamos, compartilha de sensações parecidas com as nossas. Curioso se encontrar em enredos desconhecidos.

    ResponderExcluir