repostagem
Foi num dia de muita chuva que a vi passar pela primeira e última vez. O céu todo vestido de cinza, chorando lágrimas doces que caíam oblíquas ao bel prazer do vento. Suas mãos trêmulas tentando proteger o cigarro aceso, já pela metade, pendente dos lábios roxos, tulipa num jardim de Amsterdã. A marquise sob a qual eu ponderava entre esperar o temporal passar ou ir de qualquer jeito não era muito grande. Vi o cachecol balançando e o rastro de fumaça branca e densa que saía da casinha de joão-de-barro que ela improvisou. Constrangido sorriso mútuo, um ou outro comentário sobre o aguaceiro, essas trivialidades. E o silêncio que, mesmo no espaço apertado da área seca debaixo da marquise, deu um jeito de se enfiar entre nós como se fosse uma coisa física, tocável, visível.
Foi num dia de muita chuva que a vi passar pela primeira e última vez. O céu todo vestido de cinza, chorando lágrimas doces que caíam oblíquas ao bel prazer do vento. Suas mãos trêmulas tentando proteger o cigarro aceso, já pela metade, pendente dos lábios roxos, tulipa num jardim de Amsterdã. A marquise sob a qual eu ponderava entre esperar o temporal passar ou ir de qualquer jeito não era muito grande. Vi o cachecol balançando e o rastro de fumaça branca e densa que saía da casinha de joão-de-barro que ela improvisou. Constrangido sorriso mútuo, um ou outro comentário sobre o aguaceiro, essas trivialidades. E o silêncio que, mesmo no espaço apertado da área seca debaixo da marquise, deu um jeito de se enfiar entre nós como se fosse uma coisa física, tocável, visível.
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Até que fui atingido pela névoa da cachoeira de cachos castanhos, cujo perfume me trouxe novamente a imagem da tulipa e do seu balé à brisa holandesa. Nunca estive na Holanda. Susto, ela percebeu. Virou-se de frente pra mim e pediu desculpas. Tudo bem, não há problema. E realmente não havia. Minha cabeça, cheia de coisas inúteis e preocupações bestas, desanuviou – o que demorava a acontecer com a grande tela cor de chumbo, cortada por prata vez ou outra. Não nomes, não ocupação, apenas comentários adicionais sobre o tempo feio. E uma surpresa.
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Li infinitas feições naquele curto espaço de tempo. Súbito, a grande bola amarela apareceu, estancaram-se as gostas e desmoronou-se, por conseguinte, a casinha de joão-de-barro. Senti o roçar das franjas de lã no pescoço e previ seus passos graves rumo a um destino o qual eu não fazia ideia. Não faço ideia. Não a escutei quando disse uma fórmula de despedida qualquer – pergunto-me se chegou a fazê-lo. Lembro-me apenas de assistir à cena de fora, eu mesmo espectador e personagem simultaneamente. O encontro das pétalas macias, ela, e das folhas secas, eu. Duas bocas; o corpo sentindo a haste da planta, uma da outra. Depois, a meia-volta. A ponta do cachecol rodopiando novamente. Minhas mãos erguendo a gola da jaqueta para depois se enterrarem nos bolsos. Meus pés respingando a água de inúmeras poças que encontrei pelo caminho. E o cheiro de tulipas que encanta e assombra meu pensamento até hoje.

Eu gosto da bola amarela. Eu vejo um guarda-chuva brilhando no sol.
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