Hoje calcei
meus tênis velhos e fui correr. Tinha chovido mais cedo, e o vento estava
gelado como sua voz quando você me disse tchau. Coloquei a lista de músicas
para tocar e, esforçando-me para vencer o frio, comecei a dar umas passadas
tortas e desequilibradas. Sempre começo assim, meio cambaleando, até que depois
de um ou dois minutos eu pego o ritmo. A batida da música e o som do solado no
asfalto me fazem lembrar você. Eu olho à frente e a única coisa que vejo é o
seu rabo-de-cavalo balançando da direita para a esquerda, repetidamente,
compassadamente, numa cadência graciosa que eu não consigo acompanhar.
Cada árvore à
beira do caminho lembra as árvores do parque onde a gente corria. Só que agora elas
são você, rígida, estática, de cinco em cinco metros, ou dez, e toda vez que
passo por uma delas é como se eu passasse pela sua frente e ouvisse novamente a
sua despedida recém-saída do freezer. Tento me concentrar na música e na
respiração. Mas a ofegância do exercício me leva rapidamente pro nosso antigo
quarto, onde também havia ofegância. Ofegância dupla e sinestésica, tátil,
audível, palpável. Sensível. Tento mudar para o ritmo das duas inspirações duas
expirações para ver se você sai da minha cabeça. Não sai.
O sensor do
celular avisa que já completei três quilômetros e meio. Gosto da voz sintética
que me vem através dos fones de ouvido. Você acredita se eu te contar que
troquei a voz do programa, de feminina para masculina? Porque mesmo produzida
eletronicamente, quando escuto o timbre da moça da Nike, escuto o seu timbre.
Loucura, eu sei. Mas que culpa eu tenho se te vejo em santinhos de candidatos,
placas de carro com as suas iniciais, grafites nos muros dessa cidade cinza, e
à minha frente, inalcançável, balançando o rabo-de-cavalo?
Sinto meu rosto
molhado. Além de transpirar, estou chorando, para variar. Pois é, dei pra
chorar toda vez que corro. Choro de dor nos tornozelos ao passar dos cinco
quilômetros, mas choro principalmente por não ter com quem compartilhar minha
ligeira alegria em conseguir correr cinco quilômetros. Porque foi você quem me
tirou da minha inércia. Você quem me matou aos poucos com cada pisada do seu
tênis vermelho e branco. Você quem me dava incentivos do tipo “anda, seu
molenga! Tá correndo igual a uma moça!”. E esses incentivos funcionavam. E foi
você, sempre você, quem me soprou uma massa de ar polar ao dizer uma única
palavra. E é essa temperatura que eu tento desesperadamente subir com suor e lágrimas.

Que saudade senti de ler os teus textos, talvez uma saudade ínfima diante do passado, já que essa nostalgia tende a findar tão rapidamente quanto finda o som das batidas dos soldados, por mais que ecoe a distância. E, poxa, como me caiu bem esse texto. Não só o conteúdo - sim, veja só que recorrente -, mas a tua escrita que permanece aconchegante e requintada sem extremismos. Um beijo e um aceno pra ti.
ResponderExcluirLis