12 de maio de 2015
Você,
Ainda estou preso em superstições bobas como desvirar o tênis caído de boca pra baixo no chão. Ou comportamentos repetidos; fechar todas as portas do armário antes de dormir, checar mais de três vezes se o alarme do celular realmente foi ajustado para as seis e meia da manhã. Você chamaria isso de transtorno obsessivo-compulsivo. Eu prefiro dizer que são caprichos dominadores. Talvez apenas por ser uma forma mais poética de dizer a mesma coisa, você sempre apontava que eu tenho um fraco pela poesia cotidiana, ainda que barata, buscar palavras mais bonitas para disfarçar feiuras, perigos e distúrbios. De fato, este sou eu.
Escutando a chuva sapateando no telhado, penso que nenhuma onomatopeia que eu escreva sairá como o seu som das gotas caindo, seus lábios fazendo aquele barulho gostoso que me dava tanto ou mais conforto que a chuva em si. Confirmo mais uma vez que todas as tomadas estão desconectadas, já é a quarta. O medo de curto-circuitos nessa tarde de temporal é a desculpa com que cubro minha fixação. Uma delas, aliás.
Você, por outro lado, sempre foi tudo menos fixada. Já que já admiti o meu pendor pelo lirismo de supermercado, permita-me usar o clichê do espírito livre. O que, mesmo clichê, é verdade. Realmente, acho que clichês são o que são justamente por esse motivo. Você era do tipo desapegada. De religiões, de comportamentos, de ideias e, especialmente, de pessoas. Achava graça nos meus costumes meio-fé-meio-mandinga, porém ficava séria quando eu novamente contava os azulejos do banheiro. Só que, ainda que a preocupação fosse genuína, seu jeito de ser sem amarras, sem fincar raízes com força no chão como eu, esse seu jeito não te permitiu continuar aqui.
De modo que não fiquei surpreso quando, na última e maior briga, você me disse que iria embora. Aliás, não sei se "briga" é a palavra certa, tendo em vista que o que ocorreu aquele dia foi menos uma discussão que um monólogo seu. Se eu quis que você ficasse? Eu quis. Mas como competir com minhas próprias falhas evidentemente patológicas escancaradas em forma de lista? Fiquei, ao mesmo tempo que triste por você ter partido, aliviado por não mais atrapalhar sua vida de grão de pólen. Desejei sinceramente - ainda desejo - que os melhores ventos te levassem para outra flor, outra casa em que você pudesse finalmente ser em plenitude.
Pelo que fiquei aqui, lavando as mãos até a pele começar a rachar e aspirando apenas o ar, depois que tudo já estava cirurgicamente asséptico. Talvez eu devesse procurar ajuda. É o que você me recomendava de forma constante. Mas acredito que não vá encontrar substituto mais irônico do que essas minhas manias arraigadas (deixe-me chamar tais hábitos de manias, há um quê de excêntrico nisso), firmemente presas a mim, quando você era a mais solta dos seres. E você sabe que eu adoro ironias.
Eu

Maravilhoso!
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