Sinto a tua falta nos mínimos
detalhes desta casa. Inclusive no rolo de papel higiênico barato que comprei
justamente porque era barato. Não é como aqueles que você comprava, folha dupla
e desenhos de coelhinhos ou carneirinhos impressos na maciez branca que até
dava mais vontade de cagar. Eu adorava isso em você, essa tua preocupação com a
sensação que teria ao se limpar. No início eu cheguei a pensar que fosse um
cuidado premeditado com a textura daquele pedaço inexplorado de pele, para
mantê-lo incólume quando eu o fosse desbravar. Mas nós nunca chegamos a esse
ponto, apesar de termos escondido uma versão de bolso do kama sutra embaixo da
pasta de documentos na terceira gaveta do criado-mudo. Ainda assim, gostava de
ver tua obstinação ao abastecermos o carrinho de compras, quando ficávamos mais
tempo na seção de higiene pessoal do que na de hortifrutis – e olha que você
era vegana.
Você dizia que é nosso dever
cuidar do corpo em toda a sua extensão, mesmo lá. Afinal de contas, o ânus era
de fato o primeiro orifício formado quando ainda não passávamos de um amontoado
de células se dividindo sem parar, e lembrava as aulas do pré-vestibular e da
faculdade, trazendo palavras difíceis como “deuterostômio” e dizendo que isso
nos deixava no topo da cadeia evolutiva, juntamente com as estrelas-do-mar. Eu
fingia recordar esses conceitos antigos, embora na realidade o maior legado do
cursinho para mim tenha sido o “puta
velha não rejeita tarado”, e achava lindamente engraçada tua avidez ferrenha em
defender coisas das quais quase ninguém fala a respeito, como a boa limpeza do
cu. E isso é o que me dá tanta saudade, esse teu jeito incomum, poder discutir
escatologias durante o jantar, falar de vômito e diarreia com a mesma
naturalidade com que conversávamos sobre a nova cor da parede da sala, a
situação política do país ou os efeitos do aquecimento global.
Quando a situação entre nós ficou
insustentável e você decidiu ir embora, eu entendi. Mesmo assim, chorei mais do
que ao ver aquele filme que veio errado dentro da capinha, queríamos uma
comédia leve para a quarta-feira e acabamos desidratados, pondo a culpa no dono
da locadora. Na tentativa de limpar o rosto, senti o toque aveludado dos
coraçõezinhos em relevo e aí sim foi que a comporta abriu e as águas seguem
rolando até hoje. Porque nas linhas demarcadas e nos picotes do papel estão as
linhas e os poros da tua mão, do teu rosto, de você por inteiro, analisando
minuciosamente as embalagens nas gôndolas do supermercado, escolhendo animais
entre todo um zoológico disponível e fazendo discursos sobre o ato de evacuar.
Mas hoje eu comprei o mais barato, que não tem bichinhos e passa como lixa ao ser usado. Que nem o teu olhar quando você bateu a porta e não voltou mais.
Mas hoje eu comprei o mais barato, que não tem bichinhos e passa como lixa ao ser usado. Que nem o teu olhar quando você bateu a porta e não voltou mais.

Maravilhoso!
ResponderExcluirA dor está nos detalhes.
ResponderExcluirSurpreendente a cada frase. Perfeito!
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