quarta-feira, 2 de março de 2011

Cotidiano

Brigitte levantou-se. Ou, pelo menos, o que restara dela, menos por vontade própria que pela obrigação de todo dia. O vermelho borrado na boca e as manchas escuras no pescoço delatavam-na. Mais uma noite. Amarrando a faixa do robe vagabundo, estalou os dedos dos pés – inexplicável prazer matutino. Irônico, isso de “prazer”. Definitivamente irônico. Queria ser não-adjetivada, não-subordinada, não-regida. Na verdade, queria apenas ser. Olhou pela janela, e esperou que viesse o segundo sol, ou qualquer porra de novidade que a fizesse se sentir viva. Mas só havia um, e brilhava forte, como zombasse da moça seminua. As unhas desbotadas, roídas até a carne, seguraram a cortina com força. Tinha uma explicação. Não tinha uma explicação. Foda-se a explicação. Foi ao banheiro e torceu o registro, deixando a água morna cair livre, liberdade da qual ela mesma não podia gozar. Sentou-se. As lágrimas se misturavam com as gotas caídas do chuveiro. Maldisse a vida que levava, como sempre. Torceu o registro de novo e se enrolou numa toalha puída, um abraço de algodão velho mais ou menos reconfortante. Olhou o vestido minúsculo que jazia acusador no chão do quarto. Ao lado, um espartilho preto. Um enlouquecedor espartilho preto. Que, se pudesse, nunca mais usaria. Enfim, abriu o guarda-roupa. Calça jeans, tênis, camiseta branca com a logo da extinta firma do pai. Pai... E assim, mais limpa - aliás, menos suja -, saiu. Renata trancou a porta; deixou Brigitte mofando. Até a lua aparecer.

Um comentário:

  1. Oiie, vi seu blog numa comunidade do orkut.
    Gosteei muito do que vc escreve, por isso estou seguindo.
    Eu tmb tenho um blog, se quiser seguir o endereço é esse: bvsouza.blogspot.com
    Gosto de escrever crônicas, textos, contos, poemas.
    ^^

    ResponderExcluir