quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Assassinato

Quando percebi o brilho da lâmina – e sua proximidade assustadora – senti que era tarde. Ela me agarrara sem dó, jogara-me nesta fria superfície e saíra. Agora, está de volta, e eu soube então o destino que me era reservado. Soube que iria morrer. Que tirariam minha pele. Que eu seria esquartejada. Que eu estaria literalmente frita. Por um momento, posso ver meus companheiros sardentos, os momentos de alegria que não mais poderei viver. Vejo-a pronta para o ataque, brandindo uma impiedosa faca. Sim, eu já havia escutado histórias de colegas que eram brutalmente sacrificados, apenas para satisfazer um desejo; mas nunca imaginei que tal pudesse acontecer comigo. Ela saiu outra vez, tenho um pouco de tempo restante. Lembro-me de um pesadelo que tive há alguns meses – outro pesadelo estou vivendo agora – no qual eu e meus amigos caíamos, aos pedaços, num mar de líquido viscoso. E quente. Muitíssimo quente. Minha última visão fora uma coisa amarela, que parecia estar em todo lugar, naquele ambiente. Uma cobra comprida, estreita, meio dobrada. E amarela.

Chega de nos lembrarmos dos sonhos, voltemos à realidade – que eu não sei dizer se é melhor ou pior que as reminiscências oníricas. É triste ver que estou indo pelo mesmo caminho que minha prima, coitada. Aquela sem-coração que me ameaçou com a faca pegou minha prima também. E o mais terrível: assassinou-a da pior forma – espremeu a pobre (que não fizera nada de mau) e parecia muito satisfeita ao ver saírem as vísceras de minha priminha pelos orifícios do instrumento de tortura. Eu presenciei esta cena, e confesso que sofri muito. Acredito que me encontrarei com ela em algum lugar. Um lugar onde haja muita terra e muito verde. Onde não exista metal e óleo. Ah, meu Deus! Lá vem a senhora do alumínio. E do ferro, e do aço inoxidável. Junto com ela, em suas mãos, a maldita faca. É, eu vou morrer. Só agora percebo a efemeridade da vida. E só agora lembro-me de que não me apresentei, que tola! Nesse momento derradeiro, permita-me dizer quem sou e de onde vim. Vamos aproveitar os míseros segundos que me restam. Nasci num campo muito bonito, com meus companheiros por perto, em meio às folhas. Tive, contudo, de vir parar aqui, neste espaço frio e apertado junto às frutas. Que humilhação!

Oh, a faca está se aproximando! Sinto a lâmina atravessar-me o abdômen, provocando uma dor excruciante. Estou morrendo. Ouço alguma coisa borbulhar, não muito longe. A assassina olha para mim com frieza e exclama, parecendo satisfeita: – Crianças, adivinhem o que teremos para o almoço! Ensandecidos gritos infantis de alegria rompem o silêncio quando sou descoberta. Sinto faltar-me o ar, vou morrer! Agora. Muito prazer. Eu sou – digo, eu era – a batata.

8 comentários:

  1. Nossa.. Eu fiqeui muito impressionado com teu texto.
    Deveria ter emotions com salva de palmas, muito bom mesmo.
    quem diria, uma batata. rs'

    Parabéns pelo excelente texto!
    Abraço

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  2. MUITO BOOOOOOOOM HAHAHAHAHA. Ri demais aqui... Prazer, Rúcula.

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  3. Surpreendeu o leitor, se era essa a intenção, o texto foi muito bem escrito e ideia da batata poxa, foi genial *-*

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  4. Muito obrigado pelos comentários, fico imensamente³ feliz que tenham gostado! :P

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  5. Muito bom. Congratulações.

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  6. Muito obrigado! Fico feliz que tenha gostado.

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