domingo, 25 de julho de 2010

Sementinha

A família toda reunida na sala, assistindo ao costumeiro programa noturno. É uma noite tipicamente dominical. Vovô e vovó, em meio a bocejos e escarros, também estão presentes. Uma cena linda. Chegam os comerciais e Pedrinho rompe o silêncio para sanar uma dúvida. - Papai, de onde eu vim? Todos os olhares passam a ter um único destino. Os tios não escondem o espanto. Vovó, ruborizada, pega da agulha e começa um tricô há muito inacabado. Vovô finge que dorme, os óculos na ponta do nariz. - Bem, filho, você saiu da barriga da mamãe. Ufa, pensou o pai, me safei dessa. Agora ele vai voltar a ver tevê e eu fico em paz. - Isso eu já sabia, papai! Quero saber é como fui parar lá dentro! Os tios disfarçam, tentam parecer invisíveis. As mãos da vovó se movem com mais rapidez, e o vermelho no rosto aumenta incrivelmente. Vovô começa a roncar, implorando para ser convincente. - Olha, filho - diz, entre suores, o pai -, o papai colocou uma sementinha na barriga da mamãe. A sementinha cresceu, cresceu e virou você! Agora sim, ele tinha se saído bem, não?

O pai olha para vovó, que responde com um olhar de "não sei de nada, o filho é seu". Vovô segue firme no ronco. E os tios? - Mas, papai, como é que você colocou essa sementinha na barriga da mamãe? O pai recomeça a suar, vendo que não haveria escapatória. Um tio se levantou, ia ao banheiro. Outro foi fumar lá fora. A tia foi ver se o cachorro tinha água. O tricô da vovó estava quase acabando, o que não era uma boa notícia. Os roncos do vovô passaram a chiados irônicos, como se ele quisesse dizer "você vai ter que explicar". Mas como explicar o sexo a uma criança de cinco anos, como?! As mãos trêmulas, o embargo na voz, o pai finalmente começa. - Então, filho, eu e a mamãe...

Súbito, um ruído baixo e breve. Mamãe - que até agora não tinha se manifestado - estava com o controle remoto na mão. - Olha, filho, tá passando desenho! Pedrinho se volta para o televisor, extasiado. É o seu desenho favorito. O pai olha, apreensivo, ao redor, esperando alguma reincidência do filho. Ao cruzar seu olhar com o da mãe, vê o sorriso esboçado no rosto dela, dizendo "me agradeça". Os tios voltam, incertos, e retomam seus lugares. Vovó guarda o tricô quase pronto na sacola, e agora o único vermelho em seu rosto é a leve cor da maquiagem. Vovô acorda e boceja. - O que foi que aconteceu? Papai abre as mãos e estica os dedos, aliviando a tensão. Está mais tranquilo agora. Por esta vez, ele conseguira. Sentada na sala, a família reunida. É um lindo quadro de domingo!

5 comentários:

  1. hahaha, muito bom :)

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  2. hahahaha...me lembrou uma crônica do Luís Fernando Veríssimo: Sexa! kkkkkkkkk...conhece? se não, leia depois! Muito booaa!! assim como seu texto!! imaginei cada cena! :)

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  3. Conheço "Sexa", sim, e adoro! Aliás, adoro as crônicas do Veríssimo, tanto que escrevi este texto com base na crônica "Sementinhas", que, apesar do título quase igual, tem um enredo um pouco diferente, mas ambos tratando da mesma questão. Veríssimo é muito bom! Muito obrigado pelos comentários e por lerem o blog! :)

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  4. Eu ri e também desenhei as cenas em minha mente. Adorei.

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