quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Tentativa

A preguiça me consome, mais voraz do que nunca, e eu me pergunto por que diabos ainda insisto nessa merda de conto, sabendo que ele não vai acabar. Por que continuo fritando os miolos, esperançoso, em vez de dar uma trepada, sentindo os tremores deliciosos e ouvindo os gemidos cadenciados dela, que me enchem de tesão. Essa maldita fixação que tenho pelas palavras, droga! É forte, deveras forte. O lápis trêmulo na mão, ansiando por concluir o inconcluível, quando eu queria mesmo era apagar. Apagar a mim mesmo e apagar a chama fulgurante daquele corpo. Eu já me disse para esquecer os números. Esquecer. Deixar que as coisas venham quando tiverem de vir. "Vai, bota um fone no ouvido e relaxa, seu idiota. Larga mão de ficar esquentando com uns rabiscos de grafite sobre o papel!". Mas não consigo concordar com a consciência. Sei o que é melhor; sigo no que acaba comigo. No que me mata. Ah, que vontade de roçar a língua naquelas curvas! Provar cada arrepio, cada mínimo suspiro de prazer. Só que as palavras me prendem, essas vadias. Essas vadias que me são imprescindíveis para viver. Desejo, tara, obsessão. Qualquer nome cabe, e não cabe nenhum nome. Tem um quê de visceral que foge ao meu entendimento. Sei apenas que é assim. Sim, é contraditório. Antitético. Amo as palavras. Odeio-as. Elas me aproximam e afastam da minha fonte, tão sempre fonte. Quero beber. Quero gozar. Quero escrever. Quero parar. É sempre indagação inútil.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Viagem

Na biblioteca escura, a única luz era proveniente do globo iluminado, analisado atentamente pela garotinha. Aqui é a França, da Torre Eiffel. Sempre que via fotos da imensa estrutura férrea parisiense, ela se imaginava lá em cima, contemplando a magnitude da cidade-luz. Tem o canal da Mancha, depois é a Inglaterra. Ela vira muita coisa sobre a terra da rainha. Fantasiava os chás, os ônibus vermelhos, as cabines telefônicas e, sobretudo, era fixa a ideia do Big Ben parado. Seria divertido. Ou caótico. A gente vai mais pra lá, daí tem a Suíça. Duas coisas: um Rolex e os chocolates. Apenas. Agora desce um monte, e chega na África do Sul. Lá tem diamantes e marfim, ela ouvira falar. Quem sabe quando fosse mais velha. Vai pra direita mais um tanto, e para na Austrália. Ela vira a foto de um coala, que lindinho!, um dia ela teria um coala. Girando e girando o globo, atravessou o planeta inteiro. Perdeu-se, alegre e triste, em lembranças, datas, imagens, sonhos, até que chegou ao Brasil. Pronto, estou no Brasil. Estou aqui. E agora? E agora? Mal sabia que aquele 'e agora?' seria presença constante por toda uma vida. Coitada, tão novinha e já fadada a crescer em meio a crises. Apagou o globo, sentou-se na imensa cadeira de couro. Era grande demais para ela. A cadeira e todo o resto. Tudo era grande demais.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Processo

SENTIR
S A  N   G    R     A      R
IMAGINAR
A S S O M B R A (R) E N A S C E R
BUSCAR
COM  -  PLETAR 
V I V E R
crescer
AMAAAAR
ESCREVÉR
            TRANSCENDER

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Recompensa

A joaninha sobe obstinada pela verde haste da rosa, escalando os acúleos com determinação. Cai. Recomeça a trajetória. Outra queda, novo reinício. Suas anteninhas trêmulas captam o pungente aroma que vem de cima. Está lá, ela sabe. Arrasta suas bolinhas, sempre ascendendo. Chega, enfim, à corola avermelhada, onde delicia-se com o dulcíssimo néctar, nutritiva recompensa pelo não-esmorecer.

domingo, 3 de outubro de 2010

Sorvete

- Eu quero chocolate e baunilha.
- Saindo uma casquinha de chocolate e baunilha pro campeão aqui!
- É casquinha de chocolate, né?
- Claro, Pedrinho, eu sei que é a sua favorita!
- Obrigado, seu Antônio!

...

- Ei, menina, você não gosta de sorvete?
- Gosto, mas minha mãe disse que ela não pode comprar. Esse aí tá gostoso?
- Aham, é de chocolate e baunilha.
- Meu sabor preferido é chocolate. Eu queria tanto um sorvete!
- Mas a sua mãe não pode mesmo comprar?
- Não. Ela disse que não dá pra ficar gastando dinheiro com bobagem. Eu queria tanto.
- Quer um pouquinho do meu?
- É sério?!
- Aham, pode ficar com tudo.
- Puxa, obrigada! Nem acredito!
- Você quer brincar comigo? O meu nome é Pedro.
- O meu, chomp, é Mariana.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Outubro

"Mas se eu tiro do lamento um novo canto, outra vida vai nascer. Vou achar um novo amor, vou morrer só quando for. A jogar o meu braço no mundo, fazer meu outubro de homem, matar com amor essa dor. Vou fazer desse chão minha vida, meu peito é que era deserto. O mundo já era assim." ♪♫

Milton Nascimento

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Na Chuva

"I'm singin' in the rain, just singin' in the rain.
What a glorious feeling, I'm happy again." ♪♫ 

Fazendo girar o guarda-chuva, caminhava sem se importar com as frias gotas que lhe molhavam o terno amarfanhado. Ouvia a água bater no asfalto e estalar plec-plec no tecido negro, negro como o céu daquela noite pluvial. Dava uns poucos passos, ensaiava uma medíocre mas belíssima coreografia, até sapateava! Um Gene Kelly contemporâneo e embriagado. Ofereceu o braço à senhorita imaginária, vamos, vamos nos divertir. Ao chegarem a uma poça, estendeu o paletó, era cavalheiro. E ria, como ria, com todos aqueles dentes irregulares e brilhantes a exibirem-se, envaidecidos. Aspirou com vontade o perfume floral que emanava da ela abstrata. Cantou um bolero antigo, de que ele lembrava apenas o ritmo. Criava a letra na hora. Tomou-a para dançar, embalados pelo bolero inventado. Não, ele não dava a mínima para os olhares que condenavam. Aliás, não era uma plateia? Cantava e rodopiava, cambaleante, agarrado à cintura da bela dama. Súbito, viu as luzes vermelhas. Uns perturbadores pardos, que não tinham respeito algum a shows, interromperam o bailado. A força e voz, calaram o bolero. E ele foi para casa, sem parceira, sem tú eres mi dueña, amor, sem qualquer vestígio do bêbado encantador que foi até a chegada da polícia.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Pedido

"Quando eu não estiver por perto,
canta aquela música que a gente ria.
É tudo que eu cantaria e, quando
eu for embora, você cantará." ♪♫

É tão triste ver você agarrada ao velho portarretrato, chorando e chorando e se perguntando o porquê. Quem dera eu pudesse explicá-lo. Quem dera você pudesse me ouvir. Mas aqui estou eu, confinado a vagar sozinho até não sei mais quando, até que um dia eu reecontre a moça que está tão radiante naquela foto. Foi um dia maravilhoso, não foi? Seus olhos brilhavam um brilho castanho-esverdeado, e seu sorriso estava mais lindo do que nunca. E lá estávamos nós, posando exibidos para as lentes. Ah, se o tempo congelasse! Não chore assim, dói demais ver suas lágrimas molharem a superfície fria do vidro, atrás do qual está o registro daquele dia perfeito. Isso, cante, cante, isso mesmo! Aquela música, a nossa música. Lembra como ríamos, gargalhávamos, tolos, bregas e apaixonados? Cante - enquanto você canta eu estou com você. Eu daria o que não tenho para que nos tocássemos mais uma vez. Para que eu visse novamente sua pele arrepiada com o meu cantar desafinado ao pé do ouvido. Sinto sua pele, sinto você, para sempre, embora eu não seja mais que uma coleção de fotografias e lembranças em sua mente. Mas tenha calma. Um dia nós nos teremos de volta. Até lá, não pare de cantar, por favor, não pare. Como eu queria que me visse! Cante, isso, isso, cante...

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Menta

"Fiz um drops de hortelã da bala que eu te dei,
para atirar o porém da frase que eu nunca fiz"

 A bala ia-se derretendo e a refrescância pungente impregnava a língua da mulher. Chupava sempre as balas de menta. Talvez para atenuar qualquer fumo ou álcool teimosos que permanecessem na boca. Ou para melhorar o hálito e agradar os velhos nojentos que lhe roubavam de si própria toda noite. Aparência é aparência. E não podia ser outro sabor. Recusava a cereja e o tutti-frutti, o morango e a banana. Tinha que ser menta. Fora o último gosto que dividira com o primeiro e único amor, já sepultado, numa disputa apaixonada pela bala, que perambulara lá e cá no vão das bocas coladas, entre dentes e firmamentos e saliva. Era o que restava daquele beijo derradeiro, antes de ele voltar a casa e nunca chegar. Chuva e carro não combinam. Ela vencera a disputa, ficara com a bala - a finíssima lâmina açucarada que quase nem era mais bala. Desde então, a menta confortava-a e a fazia lembrar dele, enquanto se submetia ao repugnante desconforto cotidiano. Agora ela colocava cor nas faces, e já desembrulhava mais uma companheirinha verde. Gostava do barulho do plástico se contorcendo, estalando. Coloriu os lábios de escarlate, um escarlate meio velho, ajeitou a meia preta gradeada como rede, rede de pescador. Ele disse-lhe que era pescador. Dançou a bala na boca e pensou nele novamente. Calçou os sapatos, vermelhos e muito altos, e apagou a luz. Finalmente, misturando fumaça e hortelã, seguiu relutante em direção ao dever indesejado, deixando o rastro etéreo e cinza, que se dissolvia bailando no ar atrás de si.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Acústico

Um rádio longínquo e mal-sintonizado mais chia do que toca. Barulho de colher e panela na cozinha. Um vento repentino que faz farfalharem as cortinas azuis do meu quarto. São esses os sons. Além, é claro, do risc-risc do grafite carbonizando no papel tudo (quase) aquilo que me passa na cabeça. É uma música antiga, gosto dela, mas não sei a letra nem lembro o nome. O ritmo leve me desvia totalmente do assunto  sobre o qual eu planejara escrever. Deixo-me levar pela melodia. Deixo que as palavras fluam, como estivesse psicografando a mim mesmo. É bom. Por um instante, penso que essa música poderia substituir ao menos um comprimido. Mas não. Daqui a pouco a música acaba. A música acaba e começa outra. Por que as coisas têm de mudar, meu Deus? Quando tudo está bem, alguém mete o dedo no botão do rádio e troca de estação. Ou então a música acaba. Ou, pior ainda, o rádio é desligado. Por quê? Começou agora a batida pulsante da música eletrônica, oposto total da suavidade anterior. O jantar está pronto. Carimbo na mente a única frase que consegui agarrar da música, fujona! Amanhã procuro a letra completa. Ou depois de amanhã. Ou depois. Sei lá. Onde está o equilíbrio?