quarta-feira, 9 de junho de 2010

Ventríloquo

A melancolia de um boneco.

Abro a boca e fecho-a. Minhas mãos movem-se em gestos amplos. Visto traje multicor, porquanto atraio olhares infantis. Neste palco, sob os holofotes, sinto-me dono de mim. Apenas por breve tempo,  penso que posso agir por mim mesmo, libertar-me e ir.  Ah, doce ilusão! Há mãos que continuam a me prender, estou no colo de meu senhor. Como é sublime o encantamento da meninada. Na retina de meus olhos vegetais, fica queimada a emoção da criança. O agradabilíssimo som dos risos. O crocante das pipocas mastigadas. O cheiro de sal, manteiga e alegria no ar. A sinestesia do espetáculo dentro do meu globo ocular. Infelizmente, no meu caso, não há solução. Este corpo de pinho e plástico pesa, quase tomba. Apenas um boneco. Uma marionete estilizada. Nada próprio, tampouco a personalidade. Meus pés se mexem porque o ventríloquo quer. Falo porque são as cordas vocais dele que vibram. Pode ser divertido, mas isso dói. E, desse objeto oco e sem vida, que usa roupa colorida mas só é manipulado, escapa um pedido. Não permitais que os ventríloquos da vida apoderem-se de vós. Cortai os fios, ponde-vos para funcionar independentemente. Peço-o com o desejo sódico da plateia, a emoção açucarada da puerícia e a decepção fatal de um companheiro de Pinóquio. A Fada Azul não me apareceu.  A verdade irrompe e me arrebata. É aí que espero: parai e percebei. Vós mesmos sois a Fada Azul.

4 comentários:

  1. Eleandra Toscanjunho 11, 2010

    Como sempre, fantástico. Serás um ecritor-médico ou um médico-escritor. Qual seja sua escolha, ganhamos nós, simples mortais. Me curvo a você.

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  2. Desculpe-me por seguir seu blog, sem ao menos deixar nele um comentário.

    Gosto muito de sua página, porque me faz pensar e remete a algumas coisas que aprecio (estão elas nas fotos em preto e branco).

    Escrever é parecido com ser um boneco, cuja fada pode bem ser quem lê (e comenta o que leu!).

    Abraço e parabéns

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  3. sim, por que se temos pernas e cabeças é pra que possamos usar. e que o que nos guie seja apenas o coração.

    um texto fantástico, parabéns.
    e obrigada por ler o Roupas no Varal (:

    beijo no ombro,
    Rute Vieira

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  4. Bom, tento sempre fazer o melhor, ainda que esse melhor não seja de fato "o melhor". Realmente, há muitos ventríloquos que despontam aqui e ali em nossa vida, mas não podemos sucumbir perante eles. Obrigado por lerem o blog, e um agradecimento especial à professora Eleandra, que me incentiva e apoia desde o meu começo na escrita! :)

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