quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Divã

Sabe, doutor, a verdade é que não sei porque estou aqui. Vi sua placa e fui tomado por uma coisa que não sei definir. Mas cá estou, não é? Então. Tá tudo tão difícil, doutor, o senhor nem imagina. É discussão, briga, dívida, e eu não faço ideia de como sair desta situação. Meu único refúgio são os livros. E meus únicos amigos ultimamente têm sido Nietzsche, Rimbaud e Freud. Freud é conhecido seu, não é, doutor? Desculpe. O fato é que preciso dar um jeito nisso. Não aguento, não aguento. Minha mulher nem imagina o turbilhão que destrói minhas poucas seguranças. Nesse momento ela deve estar lá em casa, esbravejando, onde diabos eu estou, e que vai queimar todo aquele monte de papel inútil. Palavra não paga conta, ela diz. Isso dói. É, doutor, não é nada fácil. Estou com toneladas de problemas a me esmagar a mente. Creio que estou ficando louco. Acho que já estou. Ah, meu Deus, seria muito engraçado, se não fosse essa merda que é. Desculpe, doutor, saiu sem querer. Preciso sumir, sabe, é isso. Esquecer um pouco essa porra de vida que desce pela garganta qual comida fria. Eu sei, doutor, vou tentar me controlar. Quem dera eu pudesse ir-me embora pra Pasárgada e ser amigo do rei. Mas chega dessas baboseiras literárias, estou cansando o senhor. Acho que não devia ter vindo. Veja o senhor, há anos que eu não chorava. Esqueça. Esqueça-me. Não, doutor, eu é que peço desculpas. Definitivamente, não devia ter vindo. Adeus. Adeus, doutor. Vou lá tomar mais um copo dessa cerveja choca que é a minha existência.

9 comentários:

  1. Muito bom, acredito que algumas pessoas vão se identificar com isso aí, talvez não o texto todo, mas ao menos aos pedaço.

    Abraço.

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  2. Ah, os problemas... O mundo exterior por vezes tão difícil de ser encarado por quem sonha, por que escreve e fantasia. Imersos em nossas palavras, gostaríamos que tudo pudesse ser resolvido com elas. Espécie paradoxal de solidão que renova, mas que também massacra, espezinha. Seu texto diz tudo o que eu gostaria de dizer, Douglas. Perfeito.

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  3. Como diria a banda Cachorro Grande:
    "Conflitos existenciais
    tomam conta da minha cabeça"

    Conflitos existenciais, eis aí o grande problema, e, talvez, a maior daviva que a filosofia nos oferece!!

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  4. ô rapaz, muito obrigado pela visita e palavras postadas nos comentários, obrigado mesmo!

    e você, continue a escrever ,pois está representando bem.

    abraço.

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  5. Imagino um monólogo perfeito nesse texto.

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  6. Conheço bem esse desabafo e depois o ato de pedir desculpa, pelo nada.

    Bem escrito.

    Beijos.

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  7. Imagino um monólogo perfeito nesse texto. +1
    Muito bom, parabéns!

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  8. Deu pra imaginar perfeitamente a cena e eu adoro a maneira como você consegue fazer isso =) Parabééns!!! BEIJOSS

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  9. Pessoal, muitíssimo obrigado pelos comentários! Fico feliz que tenham gostado. E voltem sempre!

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