para ler (e concebido) ao som de Agoraphobia
Domingo. Ele
acorda pela terceira vez e finalmente consegue se sentar na cama. Passa as mãos
pelo rosto coberto com a barba que devia ter feito há muito tempo. Mais um
dia. Levanta-se. Titubeia por um momento, mas, resignado, dirige-se ao banheiro.
Olha para o rosto assimétrico que se mostra no espelho e tem pena de si mesmo,
ainda que tente evitar este sentimento ao máximo. Mija. Dá a descarga e lava as
mãos. Volta para o calor da cama. O relógio na mesinha mostra que já passou do
meio-dia. Ele ouve um barulho e percebe que é o próprio estômago denunciando
que não recebe alimento há mais horas do que seria aceitável. Não há nada em casa. Preciso comprar
comida, pensa.
Duas horas da
tarde. Ele ainda não comeu. Na verdade, está enrolado em três cobertores,
agradecendo o fato de ter colocado blecaute no quarto. O escuro é confortável. Ou,
mais precisamente, menos desconfortável. Sente a barriga roncar de novo e
põe-se mais uma vez sentado. Veste a primeira calça que vê jogada no chão sujo.
Uma pequena mancha branca, provavelmente resto acidental da última masturbação.
Ele não liga. Pega um par de sapatos. Calça-os. Está pronto para sair, mas algo
não permite. Experimenta outro par. Não. Tenta mais uma vez e mais uma e mais
uma. Treze, ao todo. Mas nenhum deles o faz querer sair de casa.
Meia hora
depois. Em pé, tremendo, afasta levemente as cortinas da janela do quarto. A luz
que lhe invade os olhos é asfixiante e dolorosa. Assim que consegue abrir os
olhos, percorre a rua lá embaixo. Mora num apartamento alto. Vê algumas pessoas
caminhando, diminutas, no amplo espaço das calçadas. Pergunta-se como as
pessoas conseguem. Queria ser como elas. Simplesmente sair por aí. Para comprar
comida, para ir à farmácia, para tão somente sair. Mas algo o impede. Assim como
a luz, esse algo lhe rouba o ar. E lhe desinquieta o peito. E lhe sacode as
mãos. Por isso, ele fecha as cortinas. E
se enclausura novamente no macio abrigo de lã.
Ainda na cama.
Ele sabe que isso não é bom. Sabe que não é saudável. E sabe que tem grandes
problemas, ainda que não precise procurar um médico. Ou estar internado. Ou será
que tudo não passa de uma frivolidade qualquer e não existe problema algum? Apenas
um déficit de coragem. Nem ele sabe. Ele quer apenas ser. Mas o que é ser? E quem
ele seria? Alguém que não consegue dar uns poucos passos fora do imaculado e
abençoado lugar ao qual chama de lar? Seria isso que o definiria? Um medo
inclemente, um medo invasivo, um medo parasita que lhe tolhe os pensamentos e o
impede de estar em qualquer lugar aberto. Agorafobia. Ou não. Não poderia ser apenas
uma falta de ar?
Levanta-se
outra vez. Olha em redor. Uns móveis baratos, nada de luxo. Ele tem
necessidades tão simples; ainda que tivesse todo o dinheiro, não compraria nada
além do corriqueiro. Quem sabe umas revistas com a programação da tevê. Uns grãos
de café, para que pudesse moer na hora do preparo – uma das poucas coisas que
realmente apreciava. Esse tipo de ordinariedade. Consegue enfim chegar à porta.
Fracamente, abre-a. Dá um passo hesitante para fora do santuário. É aí que,de
uma forma enlouquecedoramente redundante, não consegue. Bate a porta. Gira a
chave. Ele não quer ir a lugar algum.

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