quarta-feira, 28 de maio de 2014

Lugar algum

para ler (e concebido) ao som de Agoraphobia

Domingo. Ele acorda pela terceira vez e finalmente consegue se sentar na cama. Passa as mãos pelo rosto coberto com a barba que devia ter feito há muito tempo. Mais um dia. Levanta-se. Titubeia por um momento, mas, resignado, dirige-se ao banheiro. Olha para o rosto assimétrico que se mostra no espelho e tem pena de si mesmo, ainda que tente evitar este sentimento ao máximo. Mija. Dá a descarga e lava as mãos. Volta para o calor da cama. O relógio na mesinha mostra que já passou do meio-dia. Ele ouve um barulho e percebe que é o próprio estômago denunciando que não recebe alimento há mais horas do que seria aceitável. Não há nada em casa. Preciso comprar comida, pensa.

Duas horas da tarde. Ele ainda não comeu. Na verdade, está enrolado em três cobertores, agradecendo o fato de ter colocado blecaute no quarto. O escuro é confortável. Ou, mais precisamente, menos desconfortável. Sente a barriga roncar de novo e põe-se mais uma vez sentado. Veste a primeira calça que vê jogada no chão sujo. Uma pequena mancha branca, provavelmente resto acidental da última masturbação. Ele não liga. Pega um par de sapatos. Calça-os. Está pronto para sair, mas algo não permite. Experimenta outro par. Não. Tenta mais uma vez e mais uma e mais uma. Treze, ao todo. Mas nenhum deles o faz querer sair de casa.

Meia hora depois. Em pé, tremendo, afasta levemente as cortinas da janela do quarto. A luz que lhe invade os olhos é asfixiante e dolorosa. Assim que consegue abrir os olhos, percorre a rua lá embaixo. Mora num apartamento alto. Vê algumas pessoas caminhando, diminutas, no amplo espaço das calçadas. Pergunta-se como as pessoas conseguem. Queria ser como elas. Simplesmente sair por aí. Para comprar comida, para ir à farmácia, para tão somente sair. Mas algo o impede. Assim como a luz, esse algo lhe rouba o ar. E lhe desinquieta o peito. E lhe sacode as mãos.  Por isso, ele fecha as cortinas. E se enclausura novamente no macio abrigo de lã.

Ainda na cama. Ele sabe que isso não é bom. Sabe que não é saudável. E sabe que tem grandes problemas, ainda que não precise procurar um médico. Ou estar internado. Ou será que tudo não passa de uma frivolidade qualquer e não existe problema algum? Apenas um déficit de coragem. Nem ele sabe. Ele quer apenas ser. Mas o que é ser? E quem ele seria? Alguém que não consegue dar uns poucos passos fora do imaculado e abençoado lugar ao qual chama de lar? Seria isso que o definiria? Um medo inclemente, um medo invasivo, um medo parasita que lhe tolhe os pensamentos e o impede de estar em qualquer lugar aberto. Agorafobia. Ou não. Não poderia ser apenas uma falta de ar?

Levanta-se outra vez. Olha em redor. Uns móveis baratos, nada de luxo. Ele tem necessidades tão simples; ainda que tivesse todo o dinheiro, não compraria nada além do corriqueiro. Quem sabe umas revistas com a programação da tevê. Uns grãos de café, para que pudesse moer na hora do preparo – uma das poucas coisas que realmente apreciava. Esse tipo de ordinariedade. Consegue enfim chegar à porta. Fracamente, abre-a. Dá um passo hesitante para fora do santuário. É aí que,de uma forma enlouquecedoramente redundante, não consegue. Bate a porta. Gira a chave. Ele não quer ir a lugar algum.

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