Refestelada e
eructante, saca da caixa um palito. Observando se ambas as pontas estão
afiadas, esfrega a língua por todas as superfícies bucais alcançáveis, sentindo
as últimas notas de sabor da refeição que acaba de ter. Leva a mão direita
armada à boca, enquanto a esquerda faz de conta que é biombo, numa tentativa de
esconder os mistérios de uma cavidade oral escura e secreta. Como os demais
convivas displicentemente largados em suas cadeiras no estupor pós-prandial,
inicia o processo de escavação dentária.
Enquanto ouve risadas
misturando-se com o tilintar dos talheres sendo recolhidos e os borborigmos dos
abdomes recém-satisfeitos, fecha os olhos e introduz a ponta daquele pedaço de
madeira no espaço entre os incisivos inferiores. Fenda por fenda, dente por
dente, vai esfregando os resíduos alimentares de forma lenta e delicada,
repetida, movimentos de alavanca e vaivém que a fazem fechar os olhos e seguir
com a função, trinta e dois beijos entre pinus verde e esmalte perolado.
Tem cinquenta anos e
palita os dentes numa tarde de domingo. Cada gosto derradeiro que experimenta
antes de engolir os pequenos restos antes aderidos fá-la lembrar a feitura dos
pratos há pouco consumidos. De olhos ainda cerrados, cerra um pouco mais os
dedos ao recordar o trabalho árduo e solitário de preparar o almoço de família.
Sozinha na cozinha, sozinha nos outros cômodos da casa grande, de pé-direito
alto, com jardinete francês e piscina, sozinha em si mesma. Pensa no marido sem
vê-lo, sentado à sua frente, a redonda barriga a avolumar-se por sobre a calça,
sempre reclamando da falta de variedade do cardápio. Ri consigo mesma ao pensar
na enorme ironia. Ele, o mais monótono dos seres em suas opções de menu, vomitando
comentários sobre ausência de diversidade culinária. Sente saudades do tempero
antigo. Quando foi a última vez que sentiu verdadeiramente o gosto da pimenta?
No meio de dois molares
tem um pedaço de carne. Preso. Difícil. Dirige a ponta do instrumento para o
local, cavoucando, na ânsia sôfrega de retirar aquele naco proteico ainda não
digerido – presença minúscula, mas que grita para ser notada. Enquanto tenta
alcançar o objetivo, vislumbra o palito entrando no recesso escuro e dele
saindo, mais uma vez, e outra, e novamente, e acelera o movimento da mão
direita. Aperta as pálpebras com mais força, sentindo a extremidade aguçada
machucar-lhe a gengiva, sangrando e doendo como uma segunda primeira vez.
Esquecendo-se de onde está, começa a ofegar, remexendo os quadris na cadeira
estofada e sussurrando ais, até sentir o retorno de um amigo há muito distante.
O prazer que sente ao enfim soltar aquela partícula incrustada, que salta com a
pressão do jorro quente que acompanha o êxtase dos homens.

Arrepiado até a unha!
ResponderExcluir