Começou o ano,
sol no meu signo. Capricórnio. Se bem que todo mundo me fala que sou muito mais
meu ascendente. Tenho a lua em Peixes. Na verdade, durante toda a minha vida
nunca soube se acredito ou não nessa parada de horóscopo. Mas se até Santo
Cristo acreditava, Macunaíma musical, quem sou eu para duvidar. De qualquer
forma, faz calor. Suor escorrendo pelas costas e os pés queimando em cima da
terra vermelha. Traz o ventilador e põe na velocidade máxima! Deus abençoe essa
terra tropical. Largado nu na cama, fumo um cigarro.
O cigarro
depois da punheta. A gente ouve tanto sobre o cigarro pós-sexo, pós-transa,
pós-foda... mas ninguém nunca falou daquelas tragadas após o orgasmo handmade,
ainda com um respingo de porra na ponta do dedo. Como se a masturbação fosse,
digamos, uma arte inferior, pintura a dedo frente à Monalisa da penetração. Daí
eu penso: qual é o fim único, o objetivo exclusivo de se bater uma? A punheta
está aí apenas para dar prazer. O sexo também dá, mas essa é apenas uma das
razões pelas quais mais e mais gente fode. Pergunte para aquele garotão de
vinte e poucos anos que faz a alegria de umas madames do Country Club em troca
de badulaques high-tech e retratos do Benjamin Franklin. Para a dona de casa
que aguenta o marido obeso, suado e bêbado chegando de qualquer lugar e lhe
metendo sem uma palavra. Términos, reconciliações, “você não consegue dormir?
Eu também não”, o orgulho em não deixar vencer a camisinha...
Tudo bem,
admito que isso é bem capricorniano. Racionalizar sobre quem ganharia uma disputa.
Sexo e punheta no ringue. E o sexo ganha por nocaute. Só para deixar bem claro,
curto transar. Curto bastante. Muito mesmo. Ou, pelo menos, costumava curtir. É
só que me veio na cabeça o ostracismo da bronha. Aquela gozada ligeira na
privada no meio do expediente, ou aquela mais calculada, longa, apreciada
durante o banho no fim de um dia de trabalho. Aquele jato glorioso e solitário,
irônico, após broxar mais uma vez no leito conjugal. A vontade de fumar é a
mesma. E o chill da nicotina também, independente de qual o jeito de atingir o
êxtase. Adoro essa palavra, êxtase. No fim, punhetar é mais um na enorme lista
dos prazeres ocultos que todos temos, aquela bomba de chocolate com morango à
qual o diabético tenta, sem sucesso, resistir.
Resistência. O
ventilador que não refresca, o cigarro que já está acabando, o resto de sêmen
que gruda nos pelinhos, essa época de promessas e metas e objetivos e resoluções.
Vai passar de que cor? Não esquece as uvas e a lentilha! Deus me livre comer
frango, tudo que cisca para trás dá azar no réveillon. Isso é superstição, é
crendice. Mas já fiz todas. Simpatia. Olha que nome mais simpático. Yo no creo
en brujas, pero que las hay, las hay. É sempre assim. Os astros dizem que esse
ano vai ser diferente. Talvez seja mesmo, consegui uma ereção. Lázaro,
levanta-te e anda. Sessenta e três anos não é fácil. When I’m sixty-four...
dizia o Paul, mas a decadência começa antes. Eu realmente acho que eu nasci no
mês errado, se é que isso funciona. Indeciso e sugestionável do jeito que sou.
Eu devia ser de Libra.

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