domingo, 29 de maio de 2016

Flying saucers in the sky

Quando eu calço minhas botas velhas e coloco aquele casaco de couro de que você gostava e saio andando sem rumo pelo cinza da cidade, ouvindo uma música nova cuja letra acabei de decorar e sentindo o vento gelado atravessar cada célula do meu corpo, eu penso em nós dois em Londres. De fato, sigo cantando com meu sotaque britânico fajuto, sem me importar com outros pedestres que lançam olhares de julgamento, talvez pelo fato de eu não saber cantar ou apenas pela estranheza de se cantar no meio de uma calçada qualquer. Duas vidas baseadas em inverossímeis planos de mudança para o Reino Unido, fotos na faixa da Abbey Road, cervejas em minúsculos pubs irlandeses, kilts e uma volta na London Eye. Morando num modesto apartamento alugado por duzentas libras ao mês, com janelas cuja vista seria apenas mais e mais escadas de incêndio, mas que pela manhã permitiriam o cheiro do bacon e dos ovos, enquanto nós desejaríamos quase mortalmente encontrar um punhado de feijão carioquinha em algum mercado ou feira.

Mas nessa época tudo era brilhante e colorido aos nossos olhos. Seis meses de Cultura Inglesa, uns bicos aqui e ali pra juntar algum dinheiro, você fotografando o submundo alternativo das noites curitibanas e eu enviando contos para a Gazeta, o Paraná e mil revistas, imaginando publicações ininterruptas, resenhas favoráveis e pagamento semanal. Pronto. A partir de então era só ir. Só que às seis da manhã de domingo você batia lá em casa e dizia que, mais uma vez, trabalhou apenas por entrada e bebida liberadas. Eu, em contrapartida, piorava a situação ao mostrar mais um email dizendo polidamente que outro texto foi recusado, mas que, segundo as palavras do editor, havia muito potencial em minhas palavras e eu deveria tentar mais vezes.

Aquela fase em que já não se é mais adolescente, porém falta a segurança da idade adulta. Quando o fígado e as articulações ainda aguentam o tranco, mas faltam meios para providenciar o tranco a ser aguentado. Quando a gente descobre que viver sonhando é coisa para crianças e privilegiados, e tem que ouvir de toda a família que o seu irmão já fez uma poupança, sua prima está se dando bem em algum empreendimento, e que, por outro lado, eu só sei sentar com esse computador e tentar tirar dinheiro de umas historinhas sem-graça. Quando finalmente aceitamos essa verdade, é como se o próprio Big Ben implodisse e se esfarelasse e esparramasse seu pó sobre o chão, misturando-se com a neblina.

Talvez tenha sido nesse ponto que alguma coisa te disse que eu não tinha futuro. Nossas transas eram ok, nossas conversas eram ok, nossos amigos em comum eram ok. Nada era grandioso ou extraordinário, nada nos inflamava o peito e a mente, tudo era simplesmente ok. A não ser quando falávamos dos dias que viveríamos do outro lado do Atlântico. Só que os seis meses do cronograma passaram, eu não fiz o curso de inglês e estávamos como aos dezessete anos, só que você com vinte e cinco eu com vinte e seis. Quando até nossos planos de viagem morreram, decidimos sem falar que era o fim.

O que sei é que nunca mais fomos parte da mesma vida. Cheguei a pensar em ir aos bares que você fotografava, quem sabe te escrever um poema, mas decidi que tudo isso não faria diferença. Comecei a trabalhar num escritório, secretário do assistente do assistente do assistente. É onde estou. Não faço questão de saber seu paradeiro ou sua companhia, contanto que você não esteja tomando chá com limão às margens do Tâmisa. De todo o mapa-múndi, peço apenas que deixe esse pedaço para nós dois. Ou, que seja, uma lembrança do que já fomos. Quando cabines telefônicas e ônibus vermelhos eram sinônimos de felicidade e não me faziam chorar.

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