domingo, 5 de junho de 2011

Depois

olhos sonolentos
esfregam-se, tíbios
cai uma lágrima
era de amor?

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Anatomia #2

Ombro: ponto de fixação do membro superior ao tronco; permite movimentos fortes e amplos. Torna-se especialmente útil quando um amigo nos oferece o seu para aqueles momentos em que não estamos tão bem.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

O Coração

"Ah, coração, teu engano foi esperar por um bem
de um coração leviano que nunca será de ninguém."  

O paciente deu entrada no hospital, implorando por ajuda. Tinha o coração pulsante na palma da mão. Saíra sem qualquer aviso do peito. Subira à boca, e o paciente sentiu gosto de sangue e de desilusão. Pulara-lhe boca afora, o coração. E agora pulsava, triste e vermelho, sobre a pele amarelada do paciente. Como poderia viver sem o coração? Mas o coração estava ali. E pulsava! Ora, devolver o coração ao seu lugar de origem não devia ser tão difícil. Ou devia? E as batidas continuavam, gritando. Espirrando sangue e mentiras. No começo, era uma taquicardia - batia tão rápido que qualquer um que visse pensava que não iria aguentar. Depois, foi acalmando, e tomou aquele ritmo cadenciado, uma bossa-nova tranquila e rubra. Parecia resignar-se. Até que se contraiu num tango, dramático, suplicante, chorando chorando. 

Pois sim! Poderia o coração ser tão voluntarioso e entregar-se às mudanças de estação deste jeito? O paciente queria respostas. Levava o coração batendo, mas no lugar errado. E sugeriu quem sabe engoli-lo de volta, mas não, iria provavelmente ao estômago e daí por diante era um destino trágico. Tinha de haver um jeito. Enquanto isso, os branquinhos procuravam toda sorte de explicações e, mais ainda, de soluções para o problema do coração-que-salta-pra-fora. O prontuário dizia algo vago sobre desilusão e mentiras. Desilusão e mentiras... Claro, a causa primeira! A origem da primeira taquicardia do paciente - uma profusão de curvas e de cabelos e de voz lânguida que lhe satisfazia todas as vontades. Chamaram-na. Ela não se apressou. Escolheu a melhor cor para as curvas e para os lábios, uma presilha em forma de libélula para conter os fios e treinou em especial a languidez. Chegou. Viu o paciente em pranto, ainda segurando o coração, que já tinha passado do tango para um bolero, no me platiques más. Os branquinhos encheram a causa primeira de perguntas, cujas respostas foram ofuscadas pela... pela... pela consistência da causa primeira. Por fim, ficou dito meio sem dizer que talvez fosse melhor mesmo o paciente engolir o coração e digeri-lo. O cérebro é muito mais importante. Não é? 

A causa primeira foi-se embora rebolando, não sem antes borrar-se a cor na maca de um apartamento desocupado e depois retocar-se. Estava quase saindo do hospital, a causa primeira, quando lançou um último olhar ao paciente, coitado, continuava ouvindo a música do coração. Os olhos do paciente eram um misto de tristeza, de ódio e de pedido desesperado de ajuda. O coração tinha que estar dentro dele! Dentro, não fora! Riu-se toda, a causa primeira, e saiu à luz do belo dia que fazia lá fora. Sentiu vontade de borrar-se a cor novamente. É um idiota, pensava a causa primeira, fazendo a soma na cabeça de quantos corações já havia feito sair do peito, subir à boca e pular boca afora. Claro que sempre antes vinha a primeira taquicardia. Que podia ser uma, duas, três... O paciente sentia que não podia mais aguentar o concerto e anunciou aos branquinhos que desistiria. Os branquinhos lhe disseram que não, que haveria um jeito, haveria um jeito... Bem, houve um jeito. O paciente pôs o coração perto da orelha. Escutou a última canção cardíaca, um instrumental de fim de filme, se não se enganava. - Não mais desilusões. Nem mentiras. Depois, saiu gargalhando com o coração pendendo das mãos amarelas, deixando os branquinhos atônitos, e o atirou (pulsante ainda!) numa lata de lixo qualquer. Continuava com o cérebro. Era mais importante.

domingo, 1 de maio de 2011

Digitais

dedos percorrem
trechos de pele
sinuoso trajeto
me perco no tato
nas sensações
que brotam, que emanam
dos sujos lençóis

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Eis-me aqui. Em barba, óculos, cueca e  dor-de-cabeça. Um cigarro amassado no canto da boca, aceso querendo apagar. Uma babel de sons a reverberar lá dentro do crânio. E a vontade incontrolável de sempre, de transpor as palavras da nascente pro papel. A luz acesa, a geladeira aberta, o chuveiro pingando. Esses lapsos cotidianos; a gente sabe que tem de dar um jeito neles, mas a preguiça de sair debaixo do cobertor vence toda vez. Uma raiva familiar que vem do nada, uma raiva de mandar um foda-se para as coisas pequenas, uma raiva de tudo. De mim mesmo. De eu fazer coisas das quais me arrependo no dia seguinte, quando os flashes de memória vão voltando. Uma raiva de dicionários. Pra que palavras bonitas? O rosto da vida nem é tão belo assim. Daí o cobertor fica mais quente e a preguiça se mistura com a raiva e tudo vai-se tornando sono. Eu fecho os olhos, e o piscar vai-se tornando mais lento. Mais lento...

terça-feira, 19 de abril de 2011

Anatomia #1

Cotovelo: articulação sinovial do tipo gínglimo entre o úmero (braço), a ulna e o rádio (antebraço). Pode doer sobremaneira quando a  gente vê outra pessoa com aquilo que nós desejamos.

sábado, 9 de abril de 2011

Factual

"Me mandei pra Curitiba 
e como eu gosto dessa vida, ah!, eu sei." ♪♫

E eu me pego lembrando uma certa viagem. Viagem séria, coisa importante. Que decidiria o resto da minha vida. Lembrando as serras, a barriga gelada, a ansiedade extrema e, por fim, a recepção. Quem diria que no fim das contas eu ficaria por aqui? Olho esse céu de chumbo, olho esse ar agitado, olho a corrida frenética de gente e de carros e de vida. Ouço o som dos aviões aqui perto. Ouço o barulho da cerveja caindo no copo e dos ossos e dos músculos nas aulas de anatomia. A maratona de pega caderno, põe jaleco, tira jaleco, pega caderno de novo, empresta o livro de mil páginas, tira xerox e tira xerox e tira xerox. Esse vento frio que me entra no nariz, vai pra cabeça e pro peito; essas garoas tuas que chegam sem avisar e me pegam desprevenido toda vez, esqueci o guarda-chuva. Essa coisa verde que contrasta com o plúmbeo lá de cima; esse jeito de acolhida silenciosa, de museus e de jardins. Parecido com um álbum de fotos, fotos em preto-e-branco que vão adquirindo cor a cada passo, a cada volta dos ponteiros do relógio. Quem diria... Nessa lúcida maluquice cotidiana, imergi a mim mesmo. Pulei de cabeça. E olha que nem sei nadar! Mas que diferença faz saber nadar, se o que eu quero mesmo é me afogar nessas águas desconhecidas? Essas águas desconhecidas que me puxam para si com tanta força, tanta força...

terça-feira, 5 de abril de 2011

Convite

- Não.
- Por que não?
- Porque não quero, ué.
- Tem que ter um motivo.
- ...
- O motivo sou eu, né?
- ...
- Fale alguma coisa!
- Sim, o motivo é você.
- Eu sabia.
- Se sabia, por que perguntou?
- Queria ter certeza.
- Pois agora você está certo, tchau.
- Espera!
- Por que deveria?
- Você sabe que deveria.
- Sei, é?!
- Sabe. E sabe também que gosta de mim.
- Você só pode estar louco.
- Todos somos loucos, querida.
- Você é mais do que louco.
- E me orgulho disso.
- Orgulho? Onde estava com a cabeça quando atendi à sua ligação?
- Pare com essa cena. Você quer, eu sei.
- Escute: se você não passar aqui em meia hora...
- Isso é um sim?
- Meia hora!
Clique.

sábado, 2 de abril de 2011

Afogados os botes. E as mágoas, os podres e eu num copo de cerveja. Um, dois, três.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Ade

Saudade comprida. Saudade que tem começo, mas perdeu-se e não quis final. Um beijo dramático no espírito das coisas que já passaram e o espírito volta com a nostalgia de todas as horas. A cabeça levando em banho-maria os conceitos que têm de crescer como pão-de-ló. E quando o fogo acaba? Quando a gente sente que já não dá mais, ou que até dá, mas muito mal dado? Saudade demorada. Saudade que não usa relógio. As perguntas fáceis, dúvidas simples, fragmentos de inocência que já não existem mais. Agora tudo é ade. Maturidade, responsabilidade, que vêm indissolúveis da tão desejada liberdade. Mas o eco e a rima só fazem aumentar a ânsia. E a saudade. Mais um ade. O primeiro ade. O ade que sempre existiu, e que vai existir pra sempre.