domingo, 17 de março de 2013

Sobre meteorologia e pérolas

Sempre que bate aquele vento mais gelado, fruto de uma frente fria vinda do sul, eu me lembro de você. De como você me dizia para nunca parar de escrever, sua vontade de que fosse inverno todo dia para que eu sempre continuasse e depois você viesse me esquentar com uma xícara de café recém-coado e um vermelho e o seu corpo. Ainda estamos em março, o outono nem chegou, e a mínima queda no termômetro já me dá aquele negócio no peito e nas mãos, um desejo de escrever que vem talvez pela força do hábito que você me causou.

Leio as nossas conversas antigas, buscando qualquer coisa que sirva de matéria para isto que escrevo agora. Para que fique pessoal, sabe? Encontrei as letras daquelas músicas que você escreveu há uns tempos, rindo com cada verso infame de duplo sentido, com o seu humor ácido, com a sua entrega em cada palavra. E eu pedindo para você musicar meus poemas tortos, as bobas figuras de linguagem com toda a certeza piores que as suas, ainda que você não o admitisse.

Mas aí você foi pra Espanha.

Numa noite de julho, você me ligou e disse "tô indo pra Espanha". Eu fiquei mudo e antes que conseguisse falar qualquer coisa você desligou o telefone. Você se desligou de mim. E eu, como único mecanismo de defesa, adivinhe o que eu fiz? Escrevi. E continuei escrevendo até hoje. Tudo o que escrevo é você. Cenários e personagens, diálogos e poemas. Eles são você.

Já tentei te afogar no álcool e te asfixiar com fumaça. Já tentei. Mas toda vez que a temperatura baixa e o vento sopra te vejo voltar à vida. À minha vida. Nessas horas, eu amarro um cachecol em volta do pescoço, me enfio naquele casaco de couro já descascando e vou em direção à brisa. Pensando que talvez Rubem Alves tenha razão. Ostra feliz não faz pérola.

E, nesses tempo, só o que fiz foi confeccionar um colar pra você.

quinta-feira, 7 de março de 2013

22/12/11

Ver as veias elétricas que se desenham nas nuvens num dia como hoje. Tudo se ilumina e apaga, num colorido enérgico que pinta céus e olhos. Como luzes de natal, piscando diamantes. Há alguma coisa no meu peito. Talvez seja essa época, teimosa na tentativa de aquecer até o que há de mais gelado. Ou finalmente a compreensão que chegou, arrombando a porta. Ou ainda a balada antiga que toca no rádio de vez em quando e me presenteia com saudade. Let's spend the night together; baby, don't go. Ou tudo junto.

***

Confundo a chuva com inúmeras lágrimas, com orgasmos múltiplos, com gotas de sangue que caem de um coração mais natural que a natureza. Mais natural que o medo da morte. Toda essa indefinição, isso de sentir o que não se sabe, de ficar admirando conceitos que não se encaixam... Isso de acreditar que as coisas são palpáveis, que os relâmpagos são flashes e que tudo é infinito. Infinito. Isso de ser humano.

terça-feira, 5 de março de 2013

Temporal

o escuro aberto
sob as nuvens, tanta luz
chuva de verão

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013


Falo de mim mesmo em terceira pessoa na tentativa de fingir que não são meus os problemas. Que não sou eu esse alguém bagunçado. Que não são minhas essas preocupações. Invento um alter ego comum, para lhe transferir todo o peso sobre as minhas costas e me sentir leve, ainda que apenas pelos míseros minutos nos quais escrevo. Toda a incerteza que me dá repetidamente, assim que o despertador toca, me puxando com um doloroso fórceps do quente e macio útero onírico. No qual eu queria permanecer pela eternidade, amém. Hoje eu vi um mendigo na rua, comendo restos de qualquer coisa. Vi um empresário bem-sucedido sair da garagem no seu sedã prata polido à perfeição. Vi um paciente neurológico que não abria os olhos e cuja voz era um sussurro. Vi a mim mesmo neles todos, e em tudo o que vi hoje. Me vi revirando o lixo. Me vi acelerando, inconsequente. Me vi confinado a uma maca de hospital. Me olho todos os dias, mas nunca tinha me visto.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Leis

Dispo-me de ideias pré-concebidas quando te vejo. Desnudo a mim mesmo, e me mostro, puro. Ingênuo. Voluntariamente sob teu comando. Seguindo as regras ditadas pelos teus cabelos pretos e compridos. Obedecendo as ordens dos teus olhos intensos e satisfazendo as vontades da tua boca pequena. Fraco, diante de ti. Qualquer sopro de mando, de poder, de falsa superioridade desaparece a um simples movimento da tua mão. Apenas sou teu. E, sendo-o, eu te faço fazer-te minha. Porque não sou eu que adquiro posse. Tu te fazes minha por vontade própria. Um acordo que não necessita palavras.  Um contrato tácito, que funciona desde sempre. O qual não penso em rescindir.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Cigana

Hoje eu vou cantar o sol
Vem comigo, cigana
Lê minha mão
a minha mente
meu eu carente
os meus olhos
com teus olhos
escuros em que mergulho
Nadando, nandando na tua vista
E dançando no balé da tua seda

sábado, 26 de janeiro de 2013

Pontuação

eu pedi uma vírgula
você quis um ponto final
para o bem ou para o mal
fizemo-nos reticências

sábado, 1 de dezembro de 2012

The Thief

It's late at night and I see
The moon is high in the dark
Like a spotlight for a lonely woman
goin' anywhere

She walks with bumblin' steps
She stops, she lights a cigarette
She turns around and her eyes
find mine

She doesn't understand
Just takes me to the sky
by simply walkin' round
I look at her and fly
I am not brave enough
to tell  her what I feel
That's why I'm blue and cold
My heart she always steals

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Hungry Heart

Veja bem, não ouvimos mais Bruce Springsteen como se não houvesse nada a fazer no amanhã que tínhamos pela frente. Estamos a centenas de quilômetros separados, eu tomando uma cerveja quente com a barba por fazer enquanto você provavelmente está jogando baralho com o pessoal, como fazíamos quase toda noite. Eu sinto falta. Da vida simples de quando cursávamos o fundamental, da facilidade em reunir todo mundo e irmos à praça, eu fazia o tereré e você a pipoca, ou vice-versa. Toda essa poesia nostálgica e à primeira vista sem importância, cotidiana naquele tempo em que havia apenas dias de sol e mantas estendidas na grama tão verde. Não estou triste, como você e o resto da galera possam pensar. É só essa saudade que me bota uma camisa-de-força de quando em vez, e eu fico preso nela, apenas lembrando. Mas meu coração, assim como a música que a gente cantava num inglês completamente não-inglês, meu coração tem fome. Fome dessas coisas que agora não passam de imagens na cabeça. Fome de voltar para o céu azul e sem nuvens, do calor refrescado com o mate trincando, que inclusive dava dor de cabeça às vezes, de tão gelado. Essa fome. Eu achava que não haveria este jejum. Mas aí ele aparece, sorrateiro e invasivo, como um pequeno câncer. Um pequeno câncer que quimioterapia alguma cura.

domingo, 25 de novembro de 2012


Eu queria viver aquela boemia. Trocar o dia pela noite, chegar em casa quando o sol estivesse saindo da dele. Quem sabe até morrer de tuberculose aos vinte e poucos anos, como algum poeta do século dezenove. Não ter pressão sobre o que sou, falo, faço ou ingiro. A única pressão sendo a do lápis sobre o papel escrevendo furiosamente qualquer coisa que me passasse pela cabeça. Viver todas as paixões de meia hora que acontecem na madrugada, com força, com fogo. Desbravar os cantos mais obscuros da cidade, as ruas de paralelepípedos, os menos afortunados, a poética sujeira da periferia. Beber no gargalo uma garrafa inteira de uísque barato, comprado com as poucas notas amassadas que eu ganhasse com palavras tortas e sifilíticas tão impossíveis. Não me importar com o comprimento da barba ou o que quer que haja nesse sentido. Ter um bom grupo de companheiros românticos, no sentido literário da palavra, para que não levássemos a vida normal, pastel e sem graça de sempre. Para que algo de novo acontecesse todo dia. Para que eu tivesse um filho inesperado, ou fizesse um recital na praça. Para que eu pudesse exteriorizar sem medo toda a inquietação e bagunça que há aqui dentro. E alguém soubesse de mim.