segunda-feira, 28 de junho de 2010

Insônia

Pela quarta vez, eu me levanto. Ando em círculos, vou ao banheiro, ligo a televisão. Desligo a televisão. Ligo-a mais uma vez. Perdi a conta de quantos copos d’água bebi. Torno a me deitar, cubro a cabeça, aguardando impaciente que o sono venha. Mas ele não vem. A mente divaga - e de nada adianta eu contar carneirinhos. As costas doem, o corpo todo. Miro o relógio com olhar enfadonho. A sensação é a de que os ponteiros estão fixos, congelados. Congelado, é exatamente assim que o tempo me parece. Fico a esperar os segundos avançarem, os minutos, as horas... Mas não. Está tudo no mesmo lugar. A cama range, range de novo, e de novo, com o meu virar constante. Fecho os olhos. Quando penso que já foi uma hora, a decepção baixa como nuvem carregada. Apenas cinco minutos. Sento. Dirijo-me novamente à geladeira. Não, acabou o leite. Disseram-me que leite morno é bom. Droga, amanhã vou estar um caco. Posso ver de antemão os olhos vermelhos, o roxo das pálpebras, a curva das costas, o nada que será meu dia. Passa, tempo, passa! Não suporto mais ficar assim. Um tarja-preta, penso, far-me-ia bem. Borrões indefinidos de vida atravessam-me o crânio. É incrível como o cérebro insone acelera. Creio que faz de propósito. Justamente porque quero dormir, ele trabalha em potência máxima. Volvo ao colchão, implorando para que as garras de um sonho me agarrem para nunca mais. Meu Deus, tenho de acordar cedo, não renderei nada. Eu disse "acordar"? Quanta ironia! Rolo sobre os lençóis uma vez mais. Pi-pi-pi-pi. Pi-pi-pi-pi. Pi-pi-pi-pi. Invade-me um desejo louco de atirar o maldito despertador contra a parede. Levanto-me pela última vez. Agora é definitivo. Bom dia!

sábado, 26 de junho de 2010

Alguém, por ele mesmo

Muito prazer, eu sou um fracassado. Não tive cão, não tive amor, não tive filho. Não chorei de dor, não sofri de saudade, não cativei ninguém. Os nãos fazem parte de minha vida. Vida? Do alto de toda minha desgraça, rememoro as oportunidades que perdi, os beijos que não dei, os carinhos que não recebi. Quis ser escritor, recusava-me a pegar da caneta. Quis atuar, recusava-me a decorar o texto. Quis ser bem-sucedido, recusava-me a me dedicar. Quis ter vida, recusava-me a viver. Opção, é claro, a culpa é minha. É por isso que lês essa seqüência de total nulidade. Não fiz nada de valia, não fiz nada de importante, não sou digno de memória. Nunca ajudei alguém, nunca plantei árvore, nunca ousei. Nunca fiz algo de que pudesse me arrepender. Consequentemente, nada tenho a dizer sobre os lastimáveis anos de minha existência. Por Deus, sou um merda até mesmo para discorrer sobre mim! Dá-me um antídoto. Dá-me um remédio. Melhor: dá-me um veneno. Quem sabe na morte eu possa dar sentido à minha vida. E, por favor, sê quem eu não fui, simplesmente pela falta de coragem.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Paisagem na Janela

"Da janela lateral do quarto de dormir
vejo uma igreja, um sinal de glória;
vejo um muro branco e no voo um pássaro;
vejo uma grade e um velho sinal..." ♪♫

É incrível ver como um universo inteiro possa caber aqui, em minha janela. Um teatro de opostos vem e se apresenta diante dos meus olhos. O sol bate de viés e ilumina cada detalhe. A emoção da criança ao apreciar uma bala; e a esperança morta do velho ao engolir um comprimido. O belo campestre feito de água, pasto e cavalo; e o cinza sempre cinza da fumaça e dos edifícios. O cantar dos pássaros que se converte na buzina frenética e irritadiça dos congestionamentos. A inveja da vida dos outros; afinal, tudo o que é bom não é meu. O desejo de quem sabe viver um grande amor. Mas hoje não sei se rola, é cada vez mais difícil, nesse tempo de modernos e futurismos. E é assim, inundado pela magnífica paisagem na janela, rememorando os fatos que ainda não vivi, que eu me pego confinado à fantasia cotidiana. Acredite você, cá estou, a dialogar com a melancolia, caminhando atrás do sarcasmo e perseguindo a emoção. Fecho as cortinas, é o Big-Bang ao contrário.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Turíbulo

Sândalo, mirra e alfazema. As libações plúmbeas e fumarentas, que me elevavam do chão ao firmamento. A fumaça inebriante agarrava-me com suas mãos poderosas e transportava-me para um mundo de glória, honra e louvor. Vi a Força. Toquei-A. Mais, eu era a Força. Plenitude e comunhão eram o ambiente ao meu redor. O incenso ardia, a ponta alaranjada a queimar a essência; o carvão e o sal transformando-se em oração e graça. Do turíbulo emanavam os vapores da revelação. A vida me era revelada. Os cinco grãos a queimar, e eu a encher-me de imensidão. Sentia-me parte do universo. Ou o universo é que estava em mim? Inspirações cartesianas, ímpetos neoplatônicos. Ele está em tudo, enquanto tudo é n’Ele. A realidade combustível ampliava meu entendimento. Minha fé. Os aromas a difundir-se pelo ambiente, envolvendo-me num ar de ciência e clareza. O cheiro, a filosofia e Deus. Uni-me com o infinito, e viajei pelos séculos sem fim. Prosopopeia, prece, sentimento carbonífero. Dignações e perfumes eram guia, segurando-me pelas mãos.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Ventríloquo

A melancolia de um boneco.

Abro a boca e fecho-a. Minhas mãos movem-se em gestos amplos. Visto traje multicor, porquanto atraio olhares infantis. Neste palco, sob os holofotes, sinto-me dono de mim. Apenas por breve tempo,  penso que posso agir por mim mesmo, libertar-me e ir.  Ah, doce ilusão! Há mãos que continuam a me prender, estou no colo de meu senhor. Como é sublime o encantamento da meninada. Na retina de meus olhos vegetais, fica queimada a emoção da criança. O agradabilíssimo som dos risos. O crocante das pipocas mastigadas. O cheiro de sal, manteiga e alegria no ar. A sinestesia do espetáculo dentro do meu globo ocular. Infelizmente, no meu caso, não há solução. Este corpo de pinho e plástico pesa, quase tomba. Apenas um boneco. Uma marionete estilizada. Nada próprio, tampouco a personalidade. Meus pés se mexem porque o ventríloquo quer. Falo porque são as cordas vocais dele que vibram. Pode ser divertido, mas isso dói. E, desse objeto oco e sem vida, que usa roupa colorida mas só é manipulado, escapa um pedido. Não permitais que os ventríloquos da vida apoderem-se de vós. Cortai os fios, ponde-vos para funcionar independentemente. Peço-o com o desejo sódico da plateia, a emoção açucarada da puerícia e a decepção fatal de um companheiro de Pinóquio. A Fada Azul não me apareceu.  A verdade irrompe e me arrebata. É aí que espero: parai e percebei. Vós mesmos sois a Fada Azul.