quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Na Chuva

"I'm singin' in the rain, just singin' in the rain.
What a glorious feeling, I'm happy again." ♪♫ 

Fazendo girar o guarda-chuva, caminhava sem se importar com as frias gotas que lhe molhavam o terno amarfanhado. Ouvia a água bater no asfalto e estalar plec-plec no tecido negro, negro como o céu daquela noite pluvial. Dava uns poucos passos, ensaiava uma medíocre mas belíssima coreografia, até sapateava! Um Gene Kelly contemporâneo e embriagado. Ofereceu o braço à senhorita imaginária, vamos, vamos nos divertir. Ao chegarem a uma poça, estendeu o paletó, era cavalheiro. E ria, como ria, com todos aqueles dentes irregulares e brilhantes a exibirem-se, envaidecidos. Aspirou com vontade o perfume floral que emanava da ela abstrata. Cantou um bolero antigo, de que ele lembrava apenas o ritmo. Criava a letra na hora. Tomou-a para dançar, embalados pelo bolero inventado. Não, ele não dava a mínima para os olhares que condenavam. Aliás, não era uma plateia? Cantava e rodopiava, cambaleante, agarrado à cintura da bela dama. Súbito, viu as luzes vermelhas. Uns perturbadores pardos, que não tinham respeito algum a shows, interromperam o bailado. A força e voz, calaram o bolero. E ele foi para casa, sem parceira, sem tú eres mi dueña, amor, sem qualquer vestígio do bêbado encantador que foi até a chegada da polícia.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Pedido

"Quando eu não estiver por perto,
canta aquela música que a gente ria.
É tudo que eu cantaria e, quando
eu for embora, você cantará." ♪♫

É tão triste ver você agarrada ao velho portarretrato, chorando e chorando e se perguntando o porquê. Quem dera eu pudesse explicá-lo. Quem dera você pudesse me ouvir. Mas aqui estou eu, confinado a vagar sozinho até não sei mais quando, até que um dia eu reecontre a moça que está tão radiante naquela foto. Foi um dia maravilhoso, não foi? Seus olhos brilhavam um brilho castanho-esverdeado, e seu sorriso estava mais lindo do que nunca. E lá estávamos nós, posando exibidos para as lentes. Ah, se o tempo congelasse! Não chore assim, dói demais ver suas lágrimas molharem a superfície fria do vidro, atrás do qual está o registro daquele dia perfeito. Isso, cante, cante, isso mesmo! Aquela música, a nossa música. Lembra como ríamos, gargalhávamos, tolos, bregas e apaixonados? Cante - enquanto você canta eu estou com você. Eu daria o que não tenho para que nos tocássemos mais uma vez. Para que eu visse novamente sua pele arrepiada com o meu cantar desafinado ao pé do ouvido. Sinto sua pele, sinto você, para sempre, embora eu não seja mais que uma coleção de fotografias e lembranças em sua mente. Mas tenha calma. Um dia nós nos teremos de volta. Até lá, não pare de cantar, por favor, não pare. Como eu queria que me visse! Cante, isso, isso, cante...

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Menta

"Fiz um drops de hortelã da bala que eu te dei,
para atirar o porém da frase que eu nunca fiz"

 A bala ia-se derretendo e a refrescância pungente impregnava a língua da mulher. Chupava sempre as balas de menta. Talvez para atenuar qualquer fumo ou álcool teimosos que permanecessem na boca. Ou para melhorar o hálito e agradar os velhos nojentos que lhe roubavam de si própria toda noite. Aparência é aparência. E não podia ser outro sabor. Recusava a cereja e o tutti-frutti, o morango e a banana. Tinha que ser menta. Fora o último gosto que dividira com o primeiro e único amor, já sepultado, numa disputa apaixonada pela bala, que perambulara lá e cá no vão das bocas coladas, entre dentes e firmamentos e saliva. Era o que restava daquele beijo derradeiro, antes de ele voltar a casa e nunca chegar. Chuva e carro não combinam. Ela vencera a disputa, ficara com a bala - a finíssima lâmina açucarada que quase nem era mais bala. Desde então, a menta confortava-a e a fazia lembrar dele, enquanto se submetia ao repugnante desconforto cotidiano. Agora ela colocava cor nas faces, e já desembrulhava mais uma companheirinha verde. Gostava do barulho do plástico se contorcendo, estalando. Coloriu os lábios de escarlate, um escarlate meio velho, ajeitou a meia preta gradeada como rede, rede de pescador. Ele disse-lhe que era pescador. Dançou a bala na boca e pensou nele novamente. Calçou os sapatos, vermelhos e muito altos, e apagou a luz. Finalmente, misturando fumaça e hortelã, seguiu relutante em direção ao dever indesejado, deixando o rastro etéreo e cinza, que se dissolvia bailando no ar atrás de si.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Acústico

Um rádio longínquo e mal-sintonizado mais chia do que toca. Barulho de colher e panela na cozinha. Um vento repentino que faz farfalharem as cortinas azuis do meu quarto. São esses os sons. Além, é claro, do risc-risc do grafite carbonizando no papel tudo (quase) aquilo que me passa na cabeça. É uma música antiga, gosto dela, mas não sei a letra nem lembro o nome. O ritmo leve me desvia totalmente do assunto  sobre o qual eu planejara escrever. Deixo-me levar pela melodia. Deixo que as palavras fluam, como estivesse psicografando a mim mesmo. É bom. Por um instante, penso que essa música poderia substituir ao menos um comprimido. Mas não. Daqui a pouco a música acaba. A música acaba e começa outra. Por que as coisas têm de mudar, meu Deus? Quando tudo está bem, alguém mete o dedo no botão do rádio e troca de estação. Ou então a música acaba. Ou, pior ainda, o rádio é desligado. Por quê? Começou agora a batida pulsante da música eletrônica, oposto total da suavidade anterior. O jantar está pronto. Carimbo na mente a única frase que consegui agarrar da música, fujona! Amanhã procuro a letra completa. Ou depois de amanhã. Ou depois. Sei lá. Onde está o equilíbrio?

terça-feira, 21 de setembro de 2010

o
eu
que
há em mim
não é capaz de
entender aquilo que
lava um oceano inteiro
no belo eu que há em você.
naquele mesmo eu que há
em mim, existe uma,
só uma gota

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Encontro

As luzes dos postes passavam em intervalos mais ou menos regulares, à medida que ele avançava em sua trilha solitária. O barulho do vento, as pisadas no asfalto, as batidas do coração. O negrume da noite envolvia tudo e ele andava sem rumo, movido por um súbito e estranho ímpeto. O único que sabia era a necessidade de caminhar. Para onde, ele ignorava. Martelava sua mente um comando. Ande, apenas isso. Talvez não houvesse causa. Volveu os olhos ao firmamento – bela palavra essa, firmamento – e contemplou a lua, circundada por um halo multicor. Tropeçou. Concentrou-se novamente no caminho; os cadarços desamarrados, como sempre. Quando deu por si, viu a grade carcomida e enferrujada dos portões do cemitério. Ele não havia, pelo menos não de forma consciente, planejado ir até a morada dos mortos. Mas, já que ali estava, entrou. Nunca se imaginara naquele lugar àquela hora, e sentiu uma torrente de adrenalina percorrer-lhe o sangue. Gostou da sensação, da mórbida mistura de satisfação, medo e outros temperos que conferiam um sabor agridoce à tão ímpar experiência. Encontrou a enorme cruz. Não mais controlava as ações. Estava tomado por algo inexplicável. Confuso, fúnebre e divertido – tudo ao mesmo tempo. Ajoelhou-se. Disse de si para si coisas ininteligíveis. Por fim, encontrou uma defunta estonteante. Ei-lo, o motivo. Destino, talvez? Ele conversou, riu e amou a noite inteira. Depois, ao primeiro clarão solar, deixou velas e lápides para trás. Descarregara a tensão. Seria loucura?

domingo, 19 de setembro de 2010

Domingos

Era o seu casulo doméstico. A tevê ligada naquele velho programa dominical, a chuva banhando tudo lá fora, e o cobertor devorando-a num abraço quente. Os olhos sem vida, repetindo metodicamente o que acontecia todo final-de-semana. Não gostava de pessoas. Tinha medo delas. Vez ou outra, as mãos se moviam e pressionavam o botão do controle remoto. Tudo automático. O batom borrado, o preto nos olhos, ali estava. Inútil. Acompanhada de solidão numa tarde de domingo. Chove mais, ela pensava. As gotas cadentes e o frio despertavam-lhe algo mais ou menos próximo da felicidade. É claro que ela imaginava como seria se fosse diferente. Embrulhava-se mais no cobertor e o pensamento esvanecia. Repudiava ímpetos de motivação e qualquer coisa que pudesse fazê-la sentir-se melhor. Ela sabia que era uma vergonha. Que sua vida não fazia nem faria diferença. Que ela nunca voaria mariposa. Marlboro Red perdido nos lábios, esperava os ponteiros girarem, implorava que girassem rápido. Envolta no calor felpudo, inexpressiva. Um dia o fim chegaria, com certeza. Quanto mais cedo, melhor. Odiava a própria estagnação, a medíocre droga da metamorfose não-concluída. Mas não era capaz de acabar com tudo sozinha. Esperava, então, o momento, no ritual invariável da clausura. E seguia assim. Apenas uma lagarta.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Ébrio

É     B     R     I     O

B            O            I

R     O     D    A     R

I             A           B

O     I      R     B    É

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Queda

Num único olhar
Você me conquista
Imune não sou
Ao seu golpe de vista

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Catar Feijão

A João Cabral de Melo Neto.

Se catar feijão se limita com escrever,
Comê-lo se limita com a leitura
Mastiga-se, engole-se as palavras
Os meandros cerebrais são análogos ao tubo digestivo
No fim, para uns, ficam os nutrientes, a energia!
Para outros, não há absorção;
Há apenas fezes.